Chacina na Rocinha: a intervenção não é uma farsa, mas uma operação terrorista e golpista

No começo da manhã de ontem (24), antes das 6h, o Batalhão Choque da PM do Rio de Janeiro, invadiu a Comunidade da Rocinha e fuzilou pelo menos oito pessoas, segundo dados divulgados  até o fechamento desta edição. [Inicialmente foram divulgadas apenas duas mortes, mas o números “oficiais” foram sendo alterados ao longo do dia].

Cinicamente, a PM – quando reconhecia que os mortos eram seis – anunciou em nota que todos os baleados eram envolvidos com o tráfico de drogas e que os mesmos “foram socorridos e encaminhados para o Hospital Miguel Couto, mas não resistiram”. A direção do  Hospital, no entanto, informou que as vítimas já chegaram ao local sem vida, evidenciando  que a retirada dos mortos – ou ainda vivos – da Rocinha, foi feita pela PM apenas para dificultar possíveis investigações da chacina realizada.

Já no  meio  da tarde – por volta das 15h –  outros dois corpos foram transportados por moradores até a passarela que liga a favela à Vila Olímpica, onde ficaram até a chegada dos peritos.

“Vingança”

Chacina na Rocinha: a intervenção não é uma farsa, mas uma operação terrorista e golpista
Marechal, camelô morto pela PM

Segundo depoimentos de moradores, a brutal ação do Choque iniciou-se quando  o dia clareava, sendo feita em meio à escuridão acentuada pela falta de luz – que muitos acreditam ter sido provocada para “facilitar” a operação criminosa. A ação de terror aconteceu dois dias depois de que Antônio Ferreira da Silva, de 70 anos, conhecido como Marechal, camelo e muito popular na Comunidade, foi morto supostamente por uma “bala perdida”, de acordo com versão da PM, que sempre atribui à fatalidade a causa da morte de vítimas que não consegue  atribuir aos “bandidos”. Na quinta, um PM também acabou morto.

Muitos moradores declararam que a matança deste sábado foi feita a pretexto vingar a morte do soldado. Quando a maioria dos mais de 120 mil moradores da Rocinha ainda dormiam, PM’s adentraram em ruas e vielas da Comunidade e um clima de terror se estabeleceu com centenas ou milhares de tiros sendo disparados.

O  tiroteio e a matança impediu, inclusive – não se sabe se intencionalmente – que centenas ou milhares de pessoas participassem do enterro de “Marechal”, na manhã de sábado.

Familiares e vizinhos de um dos jovens mortos declararam que o mesmo  foi atingido pelas costas e que o mesmo não tinha qualquer ligação com o tráfico.

50 mortos, apenas na Rocinha

Há mais de seis meses, desde o dia 18 de setembro, a Rocinha vive sobre  ocupação militar. Primeiro com tropas do Exército e, depois, com centenas de pm’s. Neste período mais de 50 pessoas foram mortas a tiros na comunidade.

Na versão da PM, foram mortos “48 criminosos, dois policiais e uma turista espanhola” e 11 moradores também teriam ficado feridos nos “confrontos”.

O massacre e conjunto dos resultados obtidos pela intervenção na Rocinha e em todo o Rio, evidenciam – uma vez mais – que a intervenção militar no Rio de Janeiro, nada tem a ver com garantir a segurança da população. Pelo contrário, o que se vive é o reforçamento da operação regular de terror que a PM realiza cotidianamente contra a população pobre e de maioria negra nas favelas e bairros operários da “Cidade Maravilhosa” e em quase todo o País, em uma situação de agravamento da crise política e, não por acaso, quando o povo carioca e brasileiro deram inúmeras demonstrações de rejeição ao regime político nascido do golpe de Estado que derrubou a presidenta Dilma Rousseff e ameaça levar à cadeia, nos próximos dias, a maior liderança popular do País, o ex-presidente Lula.

Na Rocinha, como em outras comunidades do Rio foram colocadas faixas contra a prisão de Lula, assim como foram colados cartazes da campanha contra a prisão realizada pelos comitês de luta contra o golpe, com amplo apoio da população.

Chacina na Rocinha: a intervenção não é uma farsa, mas uma operação terrorista e golpista 1
Faixa afixada na Rocinha no carnaval deste ano
Está claro também que, a intervenção longe de ser uma “farsa” ou uma “jogada eleitoral”, como anunciam setores da esquerda pequeno burguesa, é uma operação de guerra contra a população e, como anunciou o próprio general-interventor do Rio, Braga Neto, um “laboratório para todo o País”, o que está em total sintonia com a política reacionária dos chefes golpistas das FFAA que defendem um golpe militar, como uma nova etapa do golpe de Estado.
Da mesma forma que diante da morte da vereadora Marielle, é preciso denunciar e sair às ruas ara protestar contra a matança da Rocinha e contra a política da direita de prender Lula e impor uma ditadura ao País, sem nenhuma ilusão de que está ofensiva possa ser paralisada por meio de ações no judiciário golpista ou através de eleições, cada vez mais improváveis e que, se realizadas, se darão sob um regime de massacre da população e aberta violação dos direitos democráticos de todo o povo.