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Mais uma vez, a Carta Capital publicou matéria venenosa contra o perseguido político italiano Cesare Battisti. Desta vez, ao contrário da outra (que nós também rebatemos), o artigo da revista é assinado, e pelo seu diretor e fundador, o jornalista italiano Mino Carta.

No artigo opinativo “O caso Battisti, do asilo à extradição”, Carta ignora novamente a arbitrariedade do processo contra Battisti, que era acusado inicialmente de “criminoso político” (ou seja, era um preso político) e que, só depois de a as autoridades torturarem um ex-companheiro de Battisti, por meio de delação premiada ele foi acusado de homicídio.

O jornalista, em seu artigo, concede total credibilidade à posição direitista de um procurador-chefe de Turim, que afirma que Battisti “é um assassino da pior extração” e cita sua suposta participação em quatro assassinatos. No entanto, além de (mais uma vez) comprar cegamente a versão das autoridades de extrema-direita da Itália, Carta não diz quem eram as supostas vítimas do ex-militante do Proletários Armados pelo Comunismo.

Em primeiro lugar, como já citado e como o leitor pode ver os detalhes em nossa primeira resposta à Carta Capital, não há provas confiáveis sobre as acusações de homicídios cometidos por Battisti. Em segundo lugar, as alegadas vítimas eram todas membros da repressão estatal contra o povo italiano e, em especial, contra a esquerda. Eram torturadores, assassinos, milicianos de grupos fascistas, que implementavam uma verdadeira guerra contra a classe trabalhadora e uma brutal perseguição política contra os opositores. Qualquer ação de militantes de esquerda na Itália das décadas de 1970 e de 1980 era apenas uma reação ao terror estatal e fascista que eles sofriam.

Mino Carta contesta as denúncias de que a Itália daquela época foi governada por um regime de extrema-direita. Diz ele que, naquele período, seu país nunca se afastou “dos valores e princípios inscritos na sua impecável Constituição”. E continua: “A repressão ao terrorismo, enfim vencedora sob o comando do general Dalla Chiesa, foi conduzida sem recursos a medidas especiais que demandassem a alteração da Carta. Foi uma lição inesquecível para as polícias de todo o mundo.”

Ora, pode-se muito bem violar os direitos democráticos elementares e os mais básicos direitos humanos cumprindo a rigor e plenamente a constituição de um país. A Arábia Saudita degola opositores sem desrespeitar suas leis. O racismo era política oficial do governo dos Estados Unidos até 50 anos atrás. Portanto, não é só porque um Estado segue a sua constituição (criada e gerenciada pela burguesia e pelo imperialismo, de acordo com os interesses de classe antagônicos aos interesses do povo trabalhador) que ele não está agindo de maneira truculenta, violenta e opressora. Além disso, o general dalla Chiesa, elogiado por Carta, era nada menos do que o líder da feroz repressão política contra as Brigadas Vermelhas – outro grupo armado que se insurgiu contra a opressão do regime de extrema-direita italiano. No final dos anos 70, foi responsável pela segurança das prisões estatais, que naquela altura já estavam cheias de presos políticos. Só ele, seus comparsas e os prisioneiros sabem como deve ter sido o tratamento brutal que ele aplicou aos militantes presos. O que se sabe é que existem inúmeras denúncias de tortura e mesmo assassinato de prisioneiros nas mãos de carcereiros, cuja responsabilidade recai diretamente em della Chiesa. Para Mino Carta, o extermínio levado a cabo pelo Estado italiano aos opositores políticos é um exemplo a ser seguido pelas “polícias de todo o mundo”.

Percebe-se na posição do editor de Carta Capital um certo sentimento chauvinista. É como se ele dissesse algo como “não critiquem minha pátria sagrada” para a esquerda brasileira defensora de Battisti à qual seu texto é direcionado.

Ainda em sua tentativa de encobrir a realidade de chumbo, diz que a Itália das décadas de 1970 e 1980 era democrática, tanto é que, nas eleições de 1976, o Partido Comunista obteve 34% dos votos. Não busca explicar o porquê dessa expressiva votação, mas aponta uma resposta: era um partido social-democrata, não comunista. Aí reside a questão: para conseguir tamanho resultado, o PCI aliou-se, havia 30 anos, com os partidos tradicionais do regime – da esquerda burguesa à extrema-direita fascista – e estava plenamente integrado ao regime político, não representando qualquer ameaça à burguesia. O PCI, inclusive, teve um importante papel para salvar os capitalistas ao abortar a revolução proletária que ocorria no final da II Guerra Mundial, conceder anistia a muitos criminosos fascistas e acobertar a perseguição política contra a esquerda desde então. Não é a toa que o partido foi completamente aniquilado nos anos 1990 e a Itália, até os dias de hoje, é governada pela direita e mesmo pela extrema-direita em todos os segmentos do Estado.

O “Estado Democrático de Direito” que, nas palavras de Mino Carta, é a Itália de hoje, é o único da União Europeia que permite oficialmente torturas contra os presidiários, que tem algumas das piores prisões da Europa, superlotadas e que oferecem condições subumanas, nas quais milhares de detentos ainda aguardam julgamento e que acomodam ainda ao menos 150 presos políticos. A Itália, que até pouco tempo era governada por Silvio Berlusconi, famoso político de extrema-direita, e que voltou a ser governada pela extrema-direita de Giuseppe Conte e Matteo Salvini. A Itália, que impede que imigrantes fugidos da devastação provocada pelo imperialismo no Oriente Médio e na África cheguem a seu território, preferindo deixá-los morrer em alto mar, e que expulsa os que ainda estão em seu território. Para Mino Carta, isso é um Estado Democrático de Direito.

Ainda: o também empresário elogia a justiça italiana que, a seu juízo, “cumpre à perfeição o seu papel de poder independente e democrático”. Como pode ser independente e democrático um órgão que teve em suas principais funções durante décadas magistrados que colaboraram intimamente com a ditadura de Benito Mussolini? Como pode ser independente e democrática uma justiça que forja provas, admite e participa de torturas para obter delações que incriminem inimigos políticos do regime, como é o caso de Battisti? Como pode ser independente e democrático um poder que foi ativo na Operação Mãos Limpas, mecanismo de perseguição política que inspirou a Operação Lava Jato? Nesse sentido, a afirmação de Mino Carta de que Sergio Moro “teria sido removido” de seu cargo se fosse italiano é totalmente enganosa: Moro aprendeu, de maneira declarada, com a direita italiana.

Ao caluniar Cesare Battisti chamando-o de “terrorista”, Mino Carta não poderia dar um presente de Natal melhor para os golpistas, para Jair Bolsonaro e para a extrema-direita brasileira. Essa é uma posição abertamente reacionária. Criminalizando Battisti e pedindo que seja jogado nas masmorras italianas pelo resto da vida, Mino Carta defende uma política repressiva do Estado contra a população, o encarceramento em massa e a perseguição política contra a esquerda.

Advogar a extradição de Battisti é a mesma coisa que defender que Lula não seja solto, que cerca de 150 mil brasileiros presos sem terem sido condenados continuem ilegalmente presos, é defender que o MST seja tachado de terrorista por sua luta pela reforma agrária. É apoiar uma política de terror contra a população, indefesa ante a opressão do Estado.

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