Carta aberta ao companheiro Lula

Caro Companheiro Lula,

Escrevo-lhe uma carta diferente, esta carta não será impressa, não tem destinatário nem remetente. Não a entregarei para o companheiro enquanto estiver preso, me recuso. Escrevo endereçando-me ao senhor mas mostrarei aos leitores de nosso jornal o teor de nossa conversa, pois é a denúncia pública e a ação que tem validade nesta luta.

Acredito que enviar cartas para Curitiba não irá soltá-lo, nem irá contribuir de maneira significativa, acredito também que conseguir sua liberdade é uma peça chave da luta contra o golpe, e que a única maneira de conseguir isso é através da luta, da mobilização. Manobras publicitárias, por melhores que sejam, não nos salvaram, e nem lhe trarão liberdade.

Não precisamos mudar a opinião pública em seu favor, a classe operária vê que o senhor é um preso político, aqui fora só não vê isso quem não quer, e isto vale 1 milhão de editoriais do Globo dizendo o contrário.

Não irei fantasiar se o companheiro passa bem ou mal, se o isolamento lhe afeta, se os guardas da Polícia Federal, de extrema-direita, o ofendem ou provocam. Sei que nenhum preso passa bem, sei que o isolamento é uma tática cruel, sei que a direita guarda o pior possível para os presos desta ditadura que impera no Brasil.

Acredito que sua liberdade pode ser conseguida, mas discordo da linha oficial que diz que isso acontecerá por meio de medidas jurídicas.

Lula, você já foi preso em 1980. O companheiro bem se lembra que não foi nenhum advogado, até mesmo um tão competente quanto o Dr. Cristiano Zanin, que o libertou.

Lula, você se lembra que quando foi preso não era uma questão de opinião pública, aqueles metalúrgicos que estavam no sindicato estavam dispostos a fazer de tudo contra os patrões e a ditadura, estavam dispostos a lutar para libertá-lo, estavam mais radicalizados que o senhor, como você já contou várias vezes.

A greve de 1980 era uma força a ser reconhecida, a terceira em três anos, foi no ABC que a ditadura caiu, não por conta da opinião pública, mas por conta da mobilização.

Você está preso, e condenado, como estava em 1980. Acusações forjadas, em 1980 governava uma ditadura, cada dia mais, em 2018 existe uma ditadura, cada dia mais abertamente militar.

Quando o companheiro era apenas um líder sindical foi preciso uma intensa mobilização dos operários do ABC, da classe operária e de toda a esquerda para conseguir a sua libertação e a devolução do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Hoje você não é mais um sindicalista, você é um ex-presidente, a maior liderança popular do País, será preciso mais do que antes. É preciso uma mobilização revolucionária do povo, uma luta desesperada contra a direita golpista, contra a farsa da operação Lava Jato, que levou à sua prisão.

Companheiro Lula, não lhe enviarei esta carta pois quero entregá-la em pessoa no dia em que o golpe for passado e o futuro pertencer à esquerda e aos trabalhadores. Acho que neste momento que vivemos é preciso agir, mais do que falar.

A mobilização revolucionária que falei começa no dia 1º de maio, dia internacional do trabalhador, nele estaremos em Curitiba.

Temos feito um chamado a todos os que lutam para que vão a Curitiba, dia de trabalhador é na cidade que se transformou em um presídio político. Pela sua libertação, pela libertação de Dirceu e todos os outros presos do golpe.

Até a vitória,

João Pimenta.