Brasil volta à colônia
Imperialismo conduz Brasil à condição de colônia produtora de grãos e minérios e os brasileiros à condição de miseráveis
O governador do Estado de São Paulo, Márcio França, participa da abertura da Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe, com presença do ministro da Saúde, Gilberto Occhi. Local: São Paulo/SP Data: 23/04/2018 Foto: Governo do Estado de São Paulo
Brasil não consegue produzir vacina, sua indústria farmacêutica foi destruída | Foto: Wikmedia Commons
O governador do Estado de São Paulo, Márcio França, participa da abertura da Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe, com presença do ministro da Saúde, Gilberto Occhi. Local: São Paulo/SP Data: 23/04/2018 Foto: Governo do Estado de São Paulo
Brasil não consegue produzir vacina, sua indústria farmacêutica foi destruída | Foto: Wikmedia Commons

A economia brasileira está andando para trás já faz um tempo. As exportações têm se concentrado nos produtos agrícolas e pecuários e em minérios e madeira. O retrato do que era no período colonial. Agora com a pandemia do coronavírus estamos sentido os efeitos da redução do orçamento da ciência e tecnologia e da política negacionista da extrema-direita que governa o país. Com isso o Brasil perdeu capacidade de produzir a vacina ou medicamentos, apesar de termos cientistas e técnicos capazes disso em centros de biotecnologia públicos e privados de qualidade. Em 2011, o mapa de biotecnologia havia detectado a existência de 237 centros de excelência (Cebrap, Brazil Biotech Map 2011).

Assim como em quase todas as áreas, a desindustrialização do Brasil atingiu também o setor farmacêutico. Por isso o país não consegue produzir as vacinas que foram desenvolvidas na China, Reino Unido, Rússia e outros. Faltam insumos necessários para a fabricação da CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan, e da Oxford/AstraZeneca, fabricada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). “A Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi) informou que, atualmente, o Brasil produz apenas 5% desse tipo de insumo. Nos anos 1980, a produção chegava a 50%.” (Brasil247, 30/1/21)

A indústria farmacêutica brasileira não contou com uma política industrial que preservasse as empresas brasileiras depois que a abertura do mercado nacional foi feita nos anos 1990. De acordo com o professor de economia da USP (Universidade de São Paulo) Paulo Feldmann, a indústria brasileira tentou acompanhar o preço da produção estrangeira, porém muitas empresas não conseguiram e quebraram, e os preços voltaram a subir. “Esse movimento de abertura comercial ocorreu em toda a América do Sul, mas não ocorreu na Ásia. Em um primeiro momento, o fabricante brasileiro teve que baixar o preço para competir, mas isso não se sustentou. Como consequência, houve aumento da nossa dependência do setor externo”, afirmou. (Brasil247, 30/1/21).

O que agora estamos vendo com o fechamento de multinacionais, como Ford e Mercedes Benz, que deixam o mercado brasileiro e ficam um rastro de desemprego de operários que nunca mais vão conseguir retornar ao mesmo tipo de trabalho, tem acontecido no Brasil há muito anos, em um processo sistemático que só conheceu alguma mudança no governo do ex-presidente Lula, quando o BNDES voltou a atuar como elemento central de uma política de desenvolvimento industrial. (Wilson Cano e Ana Lucia Gonçalves da Silva, Texto para discussão, junho 2010, Política industrial do governo Lula)

Para Lírio Segala, presidente da Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos do RS e coordenador do Macrossetor da Indústria da CUT-RS, “nos anos 1980, a participação da indústria no PIB era acima de 20%. Despencamos para a metade: 10,9%. O modelo de desenvolvimento industrial dependente, baseado em grandes transnacionais, regado a constantes subsídios e mercado protegido, apesar de atrativo no imediato, causa um grande estrago quando ocorre o ciclo recessivo. O desgoverno federal explica que está tudo ok. Seu ministro da Economia afirma que a desindustrialização será resolvida pelo livre mercado e compensada pelo desempenho do agronegócio, desde que se façam mais reformas.”

Conforme Artur Araújo, da Fundação Perseu Abramo (FPA), “o Brasil passa por um processo de desindustrialização precoce, que pode ser constatada pela grande queda da participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB). O país começou a se desindustrializar quando a nossa renda per capita estava em 10 mil e 800 dólares, ou seja, não é aquele fenômeno clássico de crescimento do setor de serviços em relação a uma indústria que já está madura. Antes de chegar a uma sociedade de renda mais alta, passamos a nos desindustrializar. Isso afeta, inclusive, a capacidade de chegar a níveis de renda maiores”. (Brasil de Fato, 11/7/20)

Juliane Furno, doutoranda em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), confirma isso: “a participação das atividades industriais no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem apresentando decréscimos alternados desde a década de 1990, mas que se intensificaram desde 2016”. (Brasil de Fato, 9/6/20)

A burguesia brasileira tem sido conivente com esse processo, parte dela migrou para a condição de rentista, apostando no mercado financeiro, outra parte resolveu aprofundar sua condição de sócia do imperialismo, vendendo partes de suas empresas para multinacionais, mas ainda há aqueles que estão se arruinando. Recentemente o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson Andrade, criticou a postura do governo que havia sido externada pelo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Carlos Doellinger, que defendeu a desindustrialização brasileira como uma boa coisa e que “nosso caminho não é a indústria manufatureira, a não ser aquela ligada ao beneficiamento de produtos naturais e minérios”. Para Robson Andrade, “se o Brasil ficasse preso só aos seus recursos naturais, hoje nosso principal produto de exportação seria o pau-brasil. A soja e o café não seriam produzidos por aqui, pois não são produtos nativos.” (Agência de Notícias da CNI, 27/1/21)

Desde a década de 1990 a política dominante tem sido a subordinação completa ao capital financeiro internacional. O discurso dos governos neoliberais é de que o “mercado” comanda e o Estado não deve intervir. Na verdade não tem sido, de fato, uma política do “deixa as coisas acontecerem”. A desindustrialização tem sido uma política ativa, deliberada. Direcionando investimentos e créditos para áreas de interesse do imperialismo, como agronegócio e extrativismo, para reduzir preços de commodities e aumentar o lucro dos capitalistas internacionais. Essas áreas pagam menos impostos e têm muitas facilidades de exportação. O discurso neoliberal de não intervenção do Estado não serve para as áreas de interesse do capital internacional e mais do que isso, vimos que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que já foi o maior banco de investimentos do mundo, tem sido utilizado para financiar não só os processos de privatização, como também os processos de desnacionalização das empresas nacionais. Um exemplo claro disso foi a venda da Embraer para a Boeing. A gigante da aviação teve que recorrer ao BNDES para destruir a Embraer.

Um dos resultados desse processo é o desemprego atingindo o maior nível histórico. Mais da metade da força de trabalho brasileira está desempregada ou vivendo de bicos. Sem empregos industriais, cresce a miséria, a informalidade e a dependência brasileira. No ano passado foram os respiradores, faltou nos hospitais e descobrimos que nem um equipamento simples o Brasil tinha como produzir. Agora são os insumos farmacêuticos para a produção das vacinas. É o Brasil voltando à exportação do pau-brasil.

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