Economia
O Brasil é um do maiores exportadores de produtos agrícolas. Mas em função de uma política privatista, terá que importar o que exporta
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Setor de frigorífico | Foto: Reprodução

O Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de commodities agrícolas, produtos vendidos por tonelada, e com preços fixados em bolsas internacionais. O país é o maior exportador mundial de soja em grão, ficando em segundo lugar nas vendas ao exterior de farelo e óleo de soja. Também é grande exportador de milho, chegando com o produto a quase cem países..

Mas, em nome da necessidade de cortar gastos, a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) opera cada vez mais parcelas menores dos estoques públicos em seus armazéns. Estes vivem um já longo processo de desativação e deterioração, com vistas à privatização. A verdade é que, diferentemente de outros países exportadores de grãos que, na pandemia, reforçaram seus estoques reguladores, o Brasil deixou o abastecimento interno sem cobertura.

Mas agora, em 2020, o Brasil avançou entre os importadores desses mesmos produtos. Análise de pesquisadores do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas), chama a atenção para o aumento das compras externas de soja, óleo de soja, algodão e arroz. Os mesmos produtos que aparecem com destaque na pauta exportadora brasileira puxam agora as importações. Só em novembro, o volume importado de óleo de soja subiu 1.250%, na comparação com novembro do ano passado. No conjunto de janeiro a novembro, esse aumento bateu em 400%, na mesma base de comparação.

O arroz, cujo preço que andou assustando consumidores, a partir do segundo semestre, também não fez feio entre os itens importados em 2020. Em novembro, por exemplo, as compras de arroz no exterior aumentaram quase três vezes, em relação a novembro de 2019. Junto com esses, outros campeões brasileiros de vendas externas, caso do milho, da carne bovina, do fumo em folha e do couro, também estão contribuindo para engordar as importações. Trata-se de uma reação ao desvio da produção para o exterior, na onda de uma cotação do dólar mais atraente. A prova é que, de janeiro a novembro, as exportações brasileiras de arroz subiram quase 50% sobre o volume vendido ao exterior, no mesmo período do ano passado.

Disso resultaram desequilíbrios de grande porte em diversos mercados. Os desarranjos produzem pressões sobre os preços que chegam ao consumidor, disseminando a inflação. Mas os prejuízos vão muito além. As altas de preços estreitam o acesso dos mais pobres aos produtos, ampliando os riscos de que maiores parcelas da população se vejam diante do espectro da insegurança alimentar e da fome.

O número de brasileiros em situação de fome chegou a seu nível mínimo histórico em 2013, último ano antes da grande recessão de 2014 a 2016, da qual até agora, quatro anos depois, acumulando baixo crescimento, a economia ainda não se recuperou. Eram, então, 7 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar grave – ou seja, a incerteza sobre se haveria um prato de comida amanhã vinha acompanhada da certeza de que esse prato não teria a quantidade suficiente de nutrientes.

Nos cinco anos seguintes, três milhões de pessoas voltaram ao espectro da fome, somando, em 2018, mais de 10 milhões de cidadãos. Metade deles se encontravam no Nordeste, metade fazia parte de famílias chefiadas por mulheres. Das crianças brasileiras até cinco anos, também metade compõe o grupo de risco da fome. Falar em melhoria da qualidade da educação, aumento da produtividade e em crescimento econômico quando metade das crianças de um país corre o risco de passar fome não passa de uma perversa ironia.

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