Não é “pessoal”, é político
Ao fugir do questionamento em relação ao cargo de seu pai no governo Doria, Boulos se coloca como um apoiador do governo do PSDB, pelo menos no que diz respeito ao seu pai
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Guilherme Boulos acusa de fake news. | Arquivo

Em entrevista aos canais TV 247 e DCM no Youtube na última quarta-feira, 22, o agora candidato a prefeitura de São Paulo pelo PSOL, Guilherme Boulos, acusou o PCO de estar “produzindo fake news” no que diz respeito à informação de que seu pai, Marcos Boulos, tem cargo na equipe de contingenciamento do coronavírus montada pelo governo do estado de São Paulo.

Guilherme Boulos, ao ser questionado sobre o fato, afirmou à TV 247: “É um nível de baixaria que não tem limite, só os bolsominions conseguiram chegar nisso. (…) Meu pai é funcionário de carreira”. Note que o candidato do PSOL não explica o problema, apenas procura desqualificar a pergunta para não ter que responde-la e apenas reafirma, sem nenhum juízo crítico, que seu pai é um “funcionário de carreira”.

Horas depois, para o DCM, Boulos aprofundou suas considerações: “resolveram falar do meu pai, é um nível assim… o último que falou do meu pai foi o Weintraub, para você ter uma ideia a quem essa turma se iguala. O meu pai (…) é um funcionário de carreira e atua num cargo técnico do governo (…). Essa fake news ‘Ah, o pai do Boulos trabalha (…)’ quem inventou foi o Weintraub e agora gente supostamente de esquerda resolve replicar, talvez por desespero político ou eleitoral.” Também como maneira de fugir da questão, Boulos usa o método de acusar de bolsonarismo os que o criticam. No entanto, ao invés de fugir do problema, Boulos deveria explicar qual seria a “baixaria” e o “bolsonarismo”. Seria o simples fato de alguém ter levantado a posição de seu pai no governo? Parece mesmo que o que incomoda Boulos é o questionamento por si só.

Ainda na entrevista ao DCM, para reforçar a desqualificação da pergunta, Boulos afirma ser uma “fake news” a informação: “Está surgindo um fenômeno (eu não sei financiado por quem) de uma turminha que resolveu repetir o método do bolsonarismo e produzir fake news a partir da esquerda. (…) A forma como eles se apresentam oficialmente é a partir do folhetim do PCO.” Boulos não apenas afirma que o PCO divulga mentiras sobre seu pai como que insinua que as críticas do partido seriam financiadas por alguém.

Agora vejamos o verdadeiro teor das considerações de Guilherme Boulos sobre seu pai.

Em primeiro lugar, a informação sobre Marcos Boulos está muito longe de ser “fake news”. Basta uma pesquisa pelos jornais da imprensa burguesa para obter a informação de que ele é um dos quatro especialistas no gabinete montado pelo governo Doria (PSDB).

Guilherme Boulos foge da pergunta e não explica o que significa esse fato, mas nós podemos explicar. É muito evidente que a equipe montada pelo governo é um grupo político. Será que Guilherme Boulos é um ser humano tão ingênuo que não é capaz de reconhecer o elementar da política, quer dizer, de que qualquer equipe escolhida por determinado governo é produto de uma escolha política?

Parece que apenas quando se trata de seu pai Boulos defende que o governo do PSDB faz escolhas estritamente técnicas. É até difícil de criticar uma ideia tão absurda.

Realmente, o candidato do PSOL parece acreditar nessa ideia absurda. A única resposta que foi capaz de dar sobre o cargo ocupado por seu pai foi a de que ele é um “funcionário de carreira”. E para reforçar essa ideia, Boulos, o filho, complementa afirmando que Boulos pai foi “diretor da Faculdade de Medicina da USP”, e completamos: de 2006 a 2010. E ao se explicar, Boulos filho acaba se comprometendo. Qualquer um que tenha militado no movimento estudantil nas universidades públicas sabe o que significa ser diretor de faculdade e institutos.

Esses cargos são políticos. Talvez Boulos não se lembre da época em que era estudante da USP, mas ele deveria saber que os diretores de faculdades e institutos são em última instância escolhidos pelo reitor. Este, por sua vez, é escolhido pelo governador. O Estado de São Paulo, até onde conseguimos nos lembrar, nunca foi governado pela esquerda.

Boulos, o filho, para justificar os cargos políticos de Boulos, o pai, nos governos tucanos, esqueceu até mesmo de uma reivindicação elementar da esquerda: a luta pela escolha democrática de diretores e reitores.

Uma breve olhada no Currículo Lattes de Marcos Boulos e veremos que ele ocupou também outros cargos em sua “carreira acadêmica”.

E qual é o problema de tudo isso? Ninguém é culpado de antemão por ter um pai ocupando cargo político no governo do PSDB. O problema central é que fica claro que Boulos, o filho, não tem nenhuma consideração crítica sobre a posição que seu pai ocupa no governo. Mais ainda, Guilherme Boulos elogia seu pai como grande funcionário de carreira e afirma ter “orgulho dele”. É comovente o amor de um filho pelo seu pai, mas em política, é preciso muito mais do que isso.

Ao fugir do debate em relação ao cargo de seu pai, Boulos, o filho, está apoiando, mesmo que indiretamente, a política de João Doria. Nunca é demais lembrar que o governador tucano é um dos responsáveis pela morte de milhares de pessoas pelo coronavírus, isso independentemente da competência de Boulos, o pai.

Guilherme Boulos admite que não vê problema na posição de seu pai e afirma que sua presença na equipe do governo é resultado de sua “competência” como médico infectologista. Se é assim como afirma Boulos filho então teremos que concluir que a equipe de João Doria (PSDB) é competente e que portanto o governo do PSDB está realizando um bom trabalho.

É importante dizer que a “competência” de Boulos pai não está em jogo aqui, o que está colocado é que cargos como o que ele ocupa e como o que ele ocupou são políticos. A “competência” só vale se o sujeito estiver de uma forma ou de outra alinhado à política do governo em questão.

Ao reforçar que seu pai é um “funcionário de carreira” Boulos concorda com a cínica ideologia da direita de que a administração do Estado deve ser composta por “técnicos” e não políticos, o que na realidade serve para esconder o conteúdo política dos governos da direita. Boulos parece concordar com isso, ele acredita – pelo menos no que diz respeito a seu pai – que Doria fez escolhas “técnicas”. É bom lembrar também que esse cinismo da direita serviu para atacar os governos do PT, acusando-os de “aparelhamento”. Boulos, o filho, deve concordar com tudo isso.

Por último, não dá para deixar de relacionar as considerações do candidato do PSOL sobre o cargo de seu pai à política que ele mesmo defende de frente ampla, ou seja, de aliança com setores do PSDB. Tudo isso se liga.

Não se trata, portanto, de “baixaria” ou ataques pessoais mas de política. Ao se recusar a explicar o que acha de seu pai e sair pela tangente acusando o PCO de “fake news”, Boulos na realidade está tomando um posicionamento política bastante claro, defendendo, ainda que integral ou parcialmente, o PSDB e seu governo e os que apoiam sua política.

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