Mitologia da esquerda
Entorpecida pelas eleições, a esquerda acredita que Boulos é o maior revolucionário do mundo
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Boulos e seu aliado da frente ampla, Bruno Cova | Arquivo
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Boulos e seu aliado da frente ampla, Bruno Cova | Arquivo

As eleições são um período em que a esquerda pequeno-burguesa fica completamente drogada e começa a criar determinados mitos políticos com a intenção de ganhar votos. De todas as mitologias criadas pela esquerda nessas eleições, a figura de Guilherme Boulos foi a maior de todas. Tanto que o dirigente da corrente Resistência do Psol, Valério Arcary, publicou um artigo no portal Brasil 247 no último dia 28 de novembro, chamado “Boulos, nosso monstro”.

O artigo de Arcary reproduz várias das mitologias criadas em torno de Boulos, a começar pelo próprio título. Que “monstro” é este? O mostro mitológico de Arcary foi criado nos jornais burgueses, impulsionado pela direita golpista que queria apresentar um candidato esquerdista de confiança, uma alternativa confiável ao PT.

Mas esse “monstro” de Arcary só está mesmo na mente da esquerda pequeno-burguesa e nos jornais golpista. No mundo real, fora da mitologia, Guilherme Boulos esteve muito longe de ser monstro. O candidato do PSOL foi um verdadeiro cordeiro. Diante da burguesia, diante de seu adversário, Bruno Covas do PSDB, Boulos foi paz e amor. Só faltou chamar o tucano de “Bruninho” nos debates, tamanha era a gentileza de um para com o outro.

O “monstro” Boulos foi cordeirinho também diante das várias reuniões com empresários, afirmando que não iria “demonizá-los”. Foi cordeiro também ao se recusar a defender Cuba e Venezuela, saindo pela tangente “não sou candidato a prefeito de Caracás”.

Poderíamos ficar horas enumerando os vários exemplos de capitulação do PSOL e de Boulos. Valério Arcary afirma que “A vitória política espetacular que foi o desempenho da candidatura do PSol Boulos/Erundina no primeiro turno não poderia deixar de provocar polêmica na esquerda. Ainda não sabemos o resultado das eleições de segundo turno.

Arcary afirma que Boulos “já se transformou em referência de imensa estatura nacional de toda a esquerda”. Tal afirmação ignora um fato que desde o início da eleição se tornou óbvio. Quem deu essa “estatura” para Boulos foi a imprensa golpista, que impulsionou sua candidatura. Totalmente oposta foi a atitude da burguesia em relação à candidatura de Jilmar Tatto do PT. Sobre isso, até agora ninguém do PSOL se arriscou a explicar, o que nos faria acreditar que psolistas como Valério Arcary são tão ingênuos que acham que há boas intenções na imprensa golpista. Mas não se trata disso. Eles fecham os olhos porque simplesmente se beneficiaram com a propaganda da direita e agora apresentam a chegada de Boulos ao segundo turno como a consolidação do PSOL na esquerda nacional. É exatamente o que queria a direita.

Nesse sentido, fica fácil responder a pergunta feita por Arcary em seu artigo, fácil menos para o próprio Arcary:

A primeira pergunta inescapável que devemos responder, em linguagem marxista, é se este fenômeno é progressivo ou regressivo. É, evidentemente, muito progressivo, e nos ajuda a ter uma melhor perspectiva sobre o futuro da esquerda.

Para apresentar o “fenômeno Boulos” como algo progressista, Arcary primeiro ignora todos os fatos que citamos acima. Para ele, o candidato apoiado pela imprensa golpista é “evidentemente muito progressivo”.

Mas não pensem que Arcary simplesmente ignora as críticas a Boulos:

“Entre os que a subestimam estão, previsivelmente, as críticas mais severas. “Boulos é somente um clone de Lula com audiência, porque é mais jovem”. Ou o oposto, “Boulos não esteve presente como deveria na luta contra o golpe do impeachment em 2016”. “A candidatura Boulos não expressa a independência de classe”. “A candidatura Boulos é mais moderada e reformista que o próprio PT”. O programa da candidatura Boulos “não merece ser julgada sequer como reformista”. A esmagadora maioria do ativismo sabe que essas críticas são ou injustas, ou exageradas, ou delirantes.”

Para Arcary, no entanto, todas as críticas não passam de delírios, injustiças e exageros. Por que? Ele não explica. Devemos acreditar que Boulos é imaculado, tão imaculado que, o ativismo já sabe que que as críticas não são justas.

Passadas as eleições, o delírio eleitoral, esse sim um delírio, deve se desfazer aos poucos e a mitologia também deve ser desfeita. E toda a política direitista apresentada por Boulos e o PSOL começarão a vir à tona. Virá como uma ressaca eleitoral.

Na euforia, Arcary apresenta o PSOL como

o partido das lutas do movimento feminista e da nova geração do movimento negro, da juventude estudantil e dos movimentos LGBT’s, da luta pela moradia popular e da descriminalização da maconha, dos ambientalistas e da defesa dos direitos humanos, da luta antifascista e das bandeiras anticapitalistas. O PSol é o partido de Boulos, e ele abriu um caminho

Até certo ponto, Arcary está certo. O PSOL é o partido desses movimentos, mas devemos acrescentar uma coisa. O PSOL é a representação demagógica desses movimentos. É muito discurso e pouca ação. Afinal, ser anti-capitalista com empresários é impossível.

Mas o que mais chama a atenção da conclusão de Arcary é que ele reconhece que o PSOL é o partido de todos esses movimentos, a maioria inclusive de caráter pequeno-burguês, mas não é o partido da classe operária brasileira. E esse ponto é fundamental para entender o PSOL e por que a burguesia impulsiona o partido.

Um partido que, além de ter um programa de colaboração de classes, além de afirmar que não vai “demonizar” os empresários, não tem uma base popular, não tem o apoio da classe operária e portanto é um partido extramente manipulável pela burguesia. Aí está a diferença fundamental do PT para o PSOL.

Arcary diz que “Boulos não é uma construção midiática nas redes sociais. Não foi um marketing artificial”. Mais uma vez, o psolista contradiz a realidade.

A burguesia tem fundamentalmente a mesma posição de Valério Arcary: o PSOL está substituindo o PT. Mas é preciso afirmar que a propaganda não condiz com a realidade. A mesma propaganda que a burguesia fez para impulsionar a candidatura Boulos, a burguesia fará agora para mostrar que Boulos é o substituto de Lula e do PT.

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