As eleições e a esquerda
Ao reconhecer e se apoiar na manobra eleitoral da burguesia, Boulos está apenas dando legitimidade às eleições de 2020 e à fraude que a burguesia vai realizar novamente
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Boulos e Ciro Gomes, abutres utilizados pela direita | Reprodução

No último domingo (20), o jornal O Estado de S. Paulo (Estadão) divulgou pesquisa do Ibope que traz Guilherme Boulos (PSOL-SP) como 3º colocado nas intenções de voto para a prefeitura de São Paulo. Em declarações à coluna do jornalista Leonardo Sakamoto, na Folha de S. Paulo, Boulos revelou com entusiasmo sua crença nos institutos da burguesia, no entanto, também sua consequente adaptação a ela.

O candidato do PSOL vem sendo promovido pela imprensa golpista desde o início das articulações eleitorais, aparecendo com destaque nos principais veículos de comunicação da burguesia, todos órgãos golpistas, como Folha de S. Paulo, Estadão e até mesmo a revista Veja. Estes passos tem sido acompanhados e mostrados neste Diário:

Obviamente que a imprensa golpista não iria promover uma candidatura de esquerda se não houvesse algum interesse nisso. Mas, qual seria o interesse da imprensa capitalista golpista em promover e destacar o candidato do PSOL?

“Fica claro que esse cenário [o dos institutos de pesquisa burgueses mostrando Boulos com possibilidade de atingir 11% das intenções de voto] divulgado em primeiro lugar pela própria direita – é sempre bom lembrar que Boulos é um dos defensores da frente ampla – está cumprindo seu papel: influenciar setores da esquerda, que começam a acreditar que a saída eleitoral mais ‘viável’ seria a do PSOL. Por isso, setores do PT, como Breno Altman e outros, estão chamando apoio a Boulos ou cogitam fazê-lo.”
Matéria publicada no DCO em 23/07/20 na editoria de Opinião e Polêmica.

Um destes interesses é justamente fazer crer que Boulos é um candidato que teria chances de ganhar as eleições, fazendo com que o máximo de votos dos eleitores da esquerda se concentre na candidatura dele e divida melhor os votos do PT (que de fato é o partido mais popular). Essa divisão é justamente o que a burguesia precisa para eleger a direita e a extrema direita, como ocorreu a nível nacional, com a candidatura de Ciro Gomes sendo impulsionada pela burguesia para dividir os votos do PT e facilitar o caminho para Bolsonaro.

Não há como saber se essa manobra da burguesia terá sucesso, ela pode dar errado, nunca é 100% garantida, mas é isso o que está em jogo. O fato é que ela está em curso e tem cooptado vários setores da esquerda pequeno-burguesa, como o recente caso do PCB, que declarou apoio ao PSOL. Mas, mais do que isso, o principal ponto é que Boulos acredita nesta manobra. Ao não considerar o resultado das pesquisas, que tem impulsionado sua candidatura, como uma manobra da burguesia, Boulos vai se tornando cada vez mais adaptado ao interesse da direita. O que fica claro nas declarações dele à coluna de Sakamoto:

“Isso [o resultado da pesquisa] indica que nossa candidatura é a única que pode impedir um segundo turno ‘Bolsodoria’, impedir que um candidato apoiado por João Doria e outro por Jair Bolsonaro disputem um segundo turno.” (Boulos à coluna de Sakamoto na Folha de S. Paulo)

Ou seja, Boulos não apenas assume a pesquisa do Ibope como legítima, como utiliza dela para se colocar como única alternativa para as eleições não serem definidas entre a direita e a extrema direita golpistas. Ao invés de se colocar na posição de denúncia da fraude eleitoral, ele prefere legitimar a disputa fraudulenta, sob o argumento de que é um candidato competitivo, segundo a burguesia. Não surpreenderá que Boulos perca de lavada e a esquerda pequeno-burguesa, seus apoiadores, culpe o povo pela reeleição de Covas (PSDB) ou de outro direitista de plantão.

É o que fica claro com os dados publicados na mesma coluna de Sakamoto, onde a pesquisa mostra Boulos com 15% de preferência entre quem tem curso superior, porém apenas 1% para quem cursou o ensino fundamental, também 17% de apoio entre quem ganha mais de cinco salários mínimos e 2% entre quem ganha até um salário mínimo. Ou seja, se não é o candidato dos trabalhadores mais pobres, de onde vem os 11% de intenções de voto de Boulos? Claramente Boulos não é um candidato popular, afinal, a maior parte dos trabalhadores, segundo dados da própria pesquisa, nem o conhecem. Logo, suas ilusões são fruto da classe social a qual está vinculado, a pequena burguesia, como foi explicado recentemente no DCO:

“As eleições municipais vão se aproximando e com elas aumentam as ilusões e a alucinação de setores da esquerda. Do mesmo modo que os políticos oportunistas de todas as cores se transformam em verdadeiras pessoas do povo, se misturando com a população nos bairros, segurando crianças no colo, jogando uma pelada no campo de areia; as eleições também operam uma transformação nos intelectuais da esquerda.

Assim, o teórico radical, semi anarquista, defensor da ação direta vira um ardoroso defensor do voto útil, o rígido acadêmico se transforma no mais emotivo dos escritores, o ranzinza cético para quem nada tem futuro, se torna o mais esperançoso dos pensadores.”
Matéria publicada no DCO em 30/07/20 na editoria de Opinião e Polêmica.

Portanto, ao reconhecer e se apoiar na manobra eleitoral da burguesia, Boulos está apenas dando legitimidade às eleições de 2020 e à fraude que a burguesia vai realizar novamente para manter a direita e a extrema direita em todos os cargos possíveis, sobretudo nas capitais. A mensagem que ele está passando é a de que não é necessário denunciar as eleições, mas sim entrar de cabeça nela, para Boulos apesar do golpe de Estado de 2016 e da fraude eleitoral de 2018, é possível ganhar. Ou seja, no final das contas não é necessário mobilizar os trabalhadores contra os golpistas, basta fazer uma campanha eleitoral que todos os problemas do povo, neste caso dos paulistanos, estariam resolvidos.

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