Sem direitos e sem comida
O governo de extrema-direita acelera a retirada de direitos e o empobrecimento no/do país. Não basta retirar direitos, retira-se a comida e a dignidade também.
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Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Foto: Agência Brasil |

Desde o Golpe de 2016 no Brasil, mas de resto igual em todos os países do continente em que governos ‘progressistas’ foram golpeados ou substituídos por governos declaradamente neoliberais, avançou-se rumo a maior concentração de renda da história, da pobreza, do desemprego, da precarização do emprego e da criminalização da indignação dos cidadãos/trabalhadores.

O retrocesso é tamanho que os governos Temer/PSDB e Bolsonaro/PSDB estão conseguindo devolver o país ao período do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, aquele que fez o primeiro grande ataque à Constituição de 1988, alterando por completo o capítulo da Ordem Econômica, abrindo o Brasil para o capital estrangeiro e entregando nossas riquezas de mãos beijadas, mas que manteve a fome no país inalterada.

Se em 2014, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) tirou o Brasil do Mapa da Fome[1],  não há muita dúvida de que hoje o país caminha para voltar a fazer parte mais uma vez desse quadro terrível, mas coerente com a política da direita: aumentar a desigualdade, enriquecer mais ainda os já ricos à custa do empobrecimento generalizado da população[2].

O lema do governo Temer/PSDB, “O Brasil voltou, 20 anos em 2”, melhor dizendo: “O Brasil voltou 20 anos em apenas 2”, foi atualizado pelo governo da extrema-direita de Bolsonaro e pretende retroceder, atualizando também JK, “50 anos em 4″. No ritmo de seus ataques aos trabalhadores, aos movimentos sociais, ao que resta da democracia representativa que vigorava no país, talvez consiga seu intento, se não houver reação à altura, em menos tempo.

O que não se diz na imprensa burguesa, mas que todos os trabalhadores sabem quando vão ao supermercado, à feira, é que a vida ficou mais cara. A classe média também sabe disso, mas tem mais gordura para queimar, por enquanto, e ainda não reagiu ao aumento do combustível, do gás, da eletricidade, da água, das passagens aéreas, do dólar etc como deveria.

A mesma cínica imprensa dá conta do ‘espanto’ dos cidadãos e dos donos de restaurante com o aumento do preço da carne que teria subido até 60%. A mesma imprensa que fez chacota do cidadão mais pobre que não pode pagar o preço do gás e passou a usar lenha, quando possível, correndo todos os riscos que isso implica, agora valoriza o consumo de ovos[3] diante do preço proibitivo da carne.

A comida vai se tornando cada vez mais cara enquanto o desemprego aumenta. Sem dinheiro e com a alimentação sendo quase impagável, passar fome será normal no país, como já foi no passado. A taxa de desemprego chega perto de 12%, mas grande parte dos que hoje mantém algum tipo de ocupação estão em empregos precários, temporários, nos quais não se tem vínculo empregatício real, sem garantias e sem direitos[4]. Na base desses trabalhos precários, temos O serviço de entrega com bicicleta, em que se trabalha mais de 14 horas por dia facilmente, sem nenhum tipo de garantia ou proteção legal[5].

Considerando que não há qualquer indicação de retomada nos investimentos para geração de emprego, como na área de infraestrutura, o que se vê é a continuação da redução da taxa de investimento na construção civil (em relação ao PIB), colocando o brasil em um patamar menor em mais de 50 anos[6]

Juntando a queda dos investimentos com o aumento do desemprego, com aumento das contas dos serviços básicos e da alimentação, não surpreende que haja um aumento acelerado do número de brasileiros que vive na pobreza.

Parece que o país voltou para o final da década de 1990. E não há desculpas para isso, é o efeito esperado, desejado, da política neoliberal de Bolsonaro/Guedes/PSDB, de entrega total da nossa economia aos grandes capitalistas, da destruição dos salários, dos empregos e dos direitos duramente conquistados pela população, pelos trabalhadores.

O quadro que se desenha para o futuro próximo é terrível, violento, famélico, e, por isso, é incompreensível que a maior parte da esquerda ainda relute em encampar a derrubada do governo fraudulento de Jair Bolsonaro. Passou da hora de derrubar Bolsonaro pela força revolucionária das massas, cansadas de passar fome e de serem humilhadas.


NOTAS:

[1] Em que se incluem os países nos quais mais de 5% da população consome menos calorias do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

[2] Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2016 e 2017, a pobreza no Brasil passou de 25,7% para 26,5% da população. O número dos extremamente pobres, aqueles que vivem com menos de R$ 140 mensais, saltou, no período, de 6,6% para 7,4% dos brasileiros. Calcula-se que  13,5 milhões de pessoas no Brasil viviam, em 2018, com até R$ 145 por mês.

[3] A imprensa não denuncia o abuso do aumento da carne e exalta o crescimento do consumo de ovos como se fosse uma coisa boa. Anuncia, inclusive, que 2019 deve ser o ano de maior consumo de ovo no Brasil (chegando ao dobro do que se consumia dez anos atrás).

[4] Chama-se hoje de autônomos os ambulantes ou de empreendedores os motoristas que trabalham via aplicativos (Uber, 99, Cabify), os antigos motobys (ou cicloboys) agora são colaboradores da UberEats, do Ifood, da Rappi etc. Com dados de agosto de 2019, o Brasil teria mais de 1,1 milhão de motoristas de aplicativos, dos quais apenas 1,5 mil teriam se cadastraram como microempreendedor individual (MEI) no Brasil.

[5] Pesquisa da  Associação Aliança Bike (para acessar o relatório da pesquisa, clique AQUI), definiu o perfil dos entregadores ciclistas de aplicativo: 99% são do sexo masculino, 71% se declararam negros, mais de 50% tem entre 18 e 22 anos de idade, 57% trabalham todos os dias da semana, e 75% ficam conectados ao aplicativo por até 12 horas seguidas; 30% trabalham acima de 12 horas por dia. Ganho médio mensal de R$ 992,00.

[6] Indicando um déficit nos gastos com máquinas e equipamentos, construção civil e inovação.

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