Bolsonaro sai do script dos golpistas e fala em “fraude eleitoral”

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A primeira declaração de Bolsonaro após sair da UTI, para onde foi depois da segunda cirurgia, foi a de que se ele perder as eleições isso se deve à fraude, promovida por um TSE que seria aparelhado pelo PT (!). Para justificar a atuação do Tribunal Superior Eleitoral contra Lula, o candidato do PSL inventa um suposto plano do ex-presidente para retornar ao poder.

Lembremos que Aécio Neves, quando perdeu para Dilma Roussef nas eleições de 2014, em seu discurso no diretório do PSDB, não atacou as eleições de imediato, inclusive afirmou ter ligado para a presidenta e a congratulado. Sabemos que o PSDB do neto de Tancredo Neves posteriormente questionou a campanha do PT e o TSE, sob a batuta de Gilmar Mendes, esticou o julgamento até o limite, para manter o governo de Dilma sob tensão, mas não questionaram as eleições de forma aberta.

Por quê? porque é necessário continuar fazendo acreditar que as eleições são corretas, pois a pretensão sempre foi a de dar um ar de legitimidade aos governos, exaltar a democracia e dar força aos novos dirigentes para propor as piores arbitrariedades contra o país e o povo, porque venceram nas urnas. O golpe de 2016 não questionou as eleições, mas criminalizou atos da mandatária do país para, ‘dentro da ordem’, poder substituí-la por um aliado. Michel Temer era a opção que, na concepção dos golpistas, evitaria os questionamentos sobre a legalidade e legitimidade da substituição.

Ou seja, os golpistas não falam em ‘fraude eleitoral’ porque precisam camuflar todos os processos em curso para condicionar as eleições, eliminar candidatos, censurar atos e palavras, invisibilizar os adversários. Tudo deve ser conduzido de forma que as manobras nos bastidores, a atuação da imprensa, a ação do sistema de justiça e da polícia, não sejam entendidas como ‘fora da lei’ ou executadas em favor de grupos e pessoas. Enquanto se criminaliza a política e se tenta convencer parte do eleitorado a ‘votar em branco’ ou ‘anular’ seu voto, fazem um esforço enorme para que o sistema não seja questionado, para que a confiança não caia a níveis tão baixos que reste clara a ação para forjar resultados.

Quando Bolsonaro, então, abandona esse script e fala abertamente na possibilidade de “fraude eleitoral” ele demonstra que não é o candidato do golpe. Parece que, desde sempre, ele foi uma carta na manga, para um momento de decisão extrema, mas nunca foi o candidato oficial dos golpistas. Talvez um ‘bode na sala’, para conturbar o jogo e tirar a visão do que se vem construindo em reuniões secretas conduzidas pelos donos do dinheiro, no país e no exterior.

Ao questionar o sistema, Bolsonaro aproxima-se das criticas do campo da esquerda sobre as deliberações e ações do Sistema de Justiça em relação ao ex-Presidente Lula e agora, por meio da Justiça Eleitoral, das ações contra candidatos da esquerda, seja para impugná-los seja para censurá-los, ou para perseguir militantes e cidadãos para que não atuem politicamente ou expressem sua vontade e intenção de votos. A criminalização da política chega forte pelas mãos da Justiça Eleitoral, mas os golpistas não admitem ou falam sobre isso.

Bolsonaro, provavelmente, já sentiu que foi abandonado pelos golpistas e, então, apela para o eleitorado, em grande parte violento, que ele acredita ser-lhe fiel. Ou, possibilidade também forte, há setores dentro das Forças Armadas que já se comprometeram a dar cobertura ao candidato homofóbico, misógino, que odeia pobres, que diz que vai metralhar a rocinha, metralhar ‘petralhas’, que exalta torturador, que sente pena de a ditadura não ter matado mais pessoas, que desejou a morte da presidenta Dilma, que ameça estuprar e cometer outras barbaridades que envergonhariam um fascista convicto.

Se Bolsonaro é golpista desde sempre e, no caso do golpe contra a presidenta Dilma Roussef, foi golpista de primeira hora, ele não é, repitamos, o candidato dos golpistas. Quem seria então o candidato do sistema hoje? De certo, será tão ou mais ruim para o país, para o trabalhador, para o povo brasileiro quanto Bolsonaro, mas mais obediente ao Capital internacional.