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Em meio à gigantesca crise presidente ilegítimo mostra força no reacionário Congresso Nacional, ante a divisão da direita e da ausência de uma política independente da esquerda

Por: Redação do Diário Causa Operária

O Congresso Nacional realiza hoje a eleição para as mesas diretoria da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, em meio a um gigantesco caos no País em todas as esferas, econômica, saúde, política etc.

A crise se reflete, ainda que de forma distorcida, no processo eleitoral no Congresso dominado pela direita, marcado pela divisão da própria burguesia que se unificou para dar o golpe de Estado (2016), empossar e manter Temer contra a vontade popular, eleger Bolsonaro com apoio de pouco mais de um terço do eleitorado, aprovar todo tipo de medida de ataques às massas (como o congelamento dos gastos públicos por 20 anos e as famigeradas reformas trabalhista e da Previdência), incluindo a politica genocida de não fazer na diante da pandemia e agir apenas para “socorrer” os bancos e os grandes capitalistas, enquanto o povo segue condenado a morrer pelo coronavírus, pela fome e miséria que não param de crescer.

As dificuldades do governo Bolsonaro de levar adiante os planos de ataque, como as privatizações e outras “reformas” que se quer impor (como a administrativa e tributária), com novos e pesados ônus para a população, acirrou a divisão, que levou, também a uma das mais acirradas disputas pelo comando das casas legislativas, o que reflete também os preparativos da direita para controlar esses importantes aparatos do regime político com vistas às eleições presidenciais de 2022.

Bolsonaro x “oposição”?

A Câmara é o palco da disputa mais acirrada, desde o final do ano passado, quando o STF (Supremo tribunal Federal) vetou as articulações que buscavam criar a possibilidade de que o atual presidente da Casa, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) concorresse a um quarto mandato, com amplo apoio da maioria da burguesia golpista e de seus partidos tradicionais, de quem se tornou um dos principais, se não o principal, porta voz, ao longo desses anos de golpe de Estado.

Sob o comando de Maia, os principais partidos da direita golpista buscaram criar um bloco que chegou a contar com 11 partidos  e que tinha como objetivo repetir a frente ampla imposta nas eleições municipais, com relativo sucesso. A pretexto de se criar um frente contra Bolsonaro e sua influência no Congresso se aglutinaram partidos tradicionais da direita (como o DEM, PSDB e MDB), novos direitistas, como o PSL, pelo qual Bolsonaro se elegeu presidente, partidos da esquerda golpista, como PSB e PDT bem como os partidos que sofrem com o golpe de Estado, como PT e PCdoB, para apoiar o reacionário candidato do MDB, Baleia Rossi (MDB-SP), golpista que em 90% das votações fechou com as propostas apoiadas pelo capitão-presidente.

Para conquistar a presidência  da Câmara, são necessário 257 votos e estimativas feitas com votos declarados dos deputados apontam que o candidato apoiado pelo presidente, o deputado Arthur Lira (PP-AL), teria até ontem 235, contra seu principal oponente, que contava com apenas 132 declarações publicas de apoio. Mesmo com mais de 120 deputados não tendo torno pública sua posição, há praticamente um consenso de que o candidato de Bolsonaro deva sair vitorioso.

Também figuram como candidatos inscritos os deputados General Peternelli (PSL-SP), Luiza Erundina (PSOL-SP), Marcel Van Hattem (Novo-RS), Fábio Ramalho (MDB-MG), Alexandre Frota (PSDB-SP), Capitão Augusto (PL-SP) e André Janones (Avante-MG), que juntos totalizavam ontem o apoio declarado de 24 parlamentares.

Na imprensa capitalista, embolada no apoio ao candidato de Maia, abundam as denuncias sobre a distribuição pelo governo de recursos e promessas de cargos para os apoiadores de Lira, como destacou ontem o jornal Estadão:

Do outro lado, inclusive da esquerda também houve a tradicional negociação de cargos, ao menos, no Congresso. Mas isto não é o fator decisivo.

A eleição está demonstrando que não há unidade entre um amplo setor da burguesia nem mesmo para impor uma derrota a Bolsonaro na disputa por cargos no Congresso, o que dirá para aprovar o impeachment por meio de um entendimento com a esquerda, como os defensores da frente ampla querem iludir o ativismo com suas “analises”, com as quais tentam esconder que estão correndo atras de cargos e vantagens, como a direita.

Nestas condições, Bolsonaro sai vitorioso e se reforça – ainda que momentaneamente e numa situação de muita debilidade diante do avanço da crise – e a esquerda sai derrotada, não pelo resultado em si (normal em um congresso golpista dominado pela direita) mas pela ausência da luta por uma alternativa própria, independente das duas alas da burguesia, diante da crise.

Essa esquerda, inclusive, assumiu a condição de maior apoiador do candidato golpista de Maia, Doria, Temer e Cia., como o PT (maior bancada da Câmara) e demais partidos garantindo a maior parcela da votação de Baleia, diante da notória divisão dos partidos da direita, como o próprio DEM, de Rodrigo Maia, no qual uma maioria dos deputados indicava que iria votar em Lira.

No Senado, unidade com Bolsonaro

Na Câmara Alta, a disputa indicava estar ainda mais facilitada para o candidato apoiado pelo governo, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que ontem mesmo já anunciava que já começou a montar com aliados a configuração que vai entrar em vigor na Mesa Diretora do Senado, a partir de sua eleição. Ele já teria votos declarados de 41 senadores, na disputa com a senadora Simone Tebet (MDB-MS) [27 votos declarados]. A eleição, secreta,  marcada hoje, também tem como candidatos figurantes os senadores Major Olimpio (PSL-SP) e Jorge Kajuru (Cidadania-GO).

Na partilha, a primeira vice-presidência foi prometida ao MDB, que deve indicar Eduardo Gomes (TO), Fernando Bezerra (PE) ou Veneziano Vital do Rego (PB). A primeira secretaria, que administra as finanças da Casa, deve ser ocupada por Irajá Abreu (PSD-TO). Também devem receber cargos o PP, que  ficaria com a segunda secretaria e o PT, que deve indicar seu atual líder, Rogério Carvalho (SE), para a terceira secretaria. Além disso, o PT – depois de apoiar o candidato bolsonarista – deve levar as comissões de Direitos Humanos e de Meio Ambiente caso Pacheco vença.

A eleição do Senado, que a “disputa” ideológica da Câmara, a “frente contra Bolsonaro” etc – apresentada por certos setores da esquerda, não era mais do que uma cobertura para uma política de defesa dos interesses dos próprios parlamentares da direita da esquerda. Um caminho de capitulação e integração ao regime golpista e nada mais do que isso.
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