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Capitalismo é crise permanente
Bolsa de Nova Iorque tem pior semana desde 2008, vem crise por aí?
A ultima grande queda nas bolsas de valores apontam para um padrão, indicando que ultima crise do sistema não foi ou será superada facilmente.
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Capitalismo é crise permanente
Bolsa de Nova Iorque tem pior semana desde 2008, vem crise por aí?
A ultima grande queda nas bolsas de valores apontam para um padrão, indicando que ultima crise do sistema não foi ou será superada facilmente.
Painel Bolsa de Valores. Imagem: Pixbay.
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Painel Bolsa de Valores. Imagem: Pixbay.

As massas entram na revolução não com um plano de reconstrução social, mas com um agudo sentimento de não poderem mais suportar o velho regime”.

(TROTSKY, 2007, p.10)

 

É da natureza do capitalismo que produza crises e a partir delas tente reorganizar-se, à custa da vida da classe trabalhadora e dos mais pobres em geral.

De 1825 até as vésperas da Segunda Guerra Mundial, aquilo que se pode denominar de fases de prosperidade econômica testemunharam 14 (catorze) momentos de crises. Um desses momentos, conhecido como a ‘Grande Depressão’, em 1929, persistiu até a Segunda Guerra Mundial (SGM).

Após o fim da SGM, um esforço pela ‘reconstrução’ da Europa que maquiou as crises subsequentes[1], até  aquela do final da década de 1960, vai culminar na grande recessão de 1973-1975[2]. Daí por diante, em particular graças à financeirização definitiva da economia mundial, o que hoje chamamos de neoliberalismo se encarrega das “décadas perversas”[3] que dominarão o mundo desde então[4].

A crise iniciada na década de 1970 não acaba, ao contrário. Com a desculpa de contorná-la, a década de 1980 vai tratar de fazer retroceder todas as conquistas da classe trabalhadora obtidas nas 3 décadas anteriores. A desigualdade aumenta absurdamente e as condições da classe trabalhadora pioram no mundo todo.

Chegamos ao século XXI vendo cair por terra a profecia do ‘fim da história’, que resumidamente afirmava que nada haveria após o capitalismo e que o mundo caminhava para um tempo de estabilidade tal que não faria sentido pensar em superar o mundo de paz proporcionado pelo capitalismo. Ou seja, em nenhum lugar haveria mais espaço ou interesse em lutar contra o capitalismo, mas apenas em adaptar-se a ele, torna-lo, no máximo, melhor e mais estável.

No entanto, a história não acabou, a classe trabalhadora não parou sua luta, os movimentos revolucionários não cessaram de se fazer presente e, muito menos, o capitalismo conseguiu se estabilizar e expulsar as crises do suposto paraíso do capital mundial.

Com a financeirização[5], ao contrário, chegamos em 2007 com uma das maiores crises do sistema, denominada genericamente de crise do subprime, pois efetivamente global, sintetizada por um crescimento econômico negativo[6].  Em 2008, a crise alcança seu cume e ocorre o que se chamou de ‘estouro da bolha imobiliária[7]’. Nos Estados Unidos, isso significou que o Estado, negando o receituário (neo)liberal, age para salvar os bancos, injetando trilhões de dólares na economia, comprando títulos, mas sem fazer o menor esforço para salvar os cidadãos americanos que ficaram com as dívidas, perderam casas, e tiveram que pagar a conta para salvar os banqueiros.

E o fato mais grave é que a crise não passou, nem está perto disso. A falta de crescimento do produto interno bruto (PIB) na Europa e a dificuldade de os Estados Unidos superarem suas dificuldades econômicas indicam que o buraco é mais embaixo.

A Europa pode apontar suas políticas de austeridade como responsáveis por parte dos problemas, mas nada explica a dificuldade de os EUA em se recuperar efetivamente, de forma robusta[8]. O Governo americano fez uso de US$8,7 trilhões em empréstimos para o aumento dos gastos governamentais e a redução de impostos. O Federal Reserve Board (FED) manteve a taxa de juros próxima a zero por quase seis anos, depois comprou US$3,7 trilhões em títulos, a fim de reduzir as taxas de longo prazo. Nada disso parece ter contornado a crise, porque não é algo conjuntural.

E agora, entramos a semana com mais um sinal de que as coisas tendem, e muito, a piorar. As bolsas de valores no mundo todo operaram em baixa, após a de Nova Iorque ter tocado o fundo, com o índice Dow Jones Industrial Average  registrando uma queda de 3,5%, fechando 1.031,61 pontos mais. O S&P 500 também caiu 3,35%, e o Nasdaq Composite fechou 3,71%.[9]. Desde 2007/2008, essa foi uma das quedas mais significativas – outras ocorreram em 2011, 2016 e 2018, dando mais um sinal de que a crise não vai ser superada, não da forma que os capitalistas e seus especialistas acreditam e vendem para o mundo.

A desculpa da vez é uma possível disseminação global do Coronavirus que impactaria, evidentemente, as empresas, sua produtividade, sua capacidade de distribuição e venda.

O surto do coronavirus, que já fez milhares de vítimas na China, não é, nem de longe, uma pandemia, ainda, nem pode ser retratada como algo tão terrível como foram as inúmeras gripes que assolaram o mundo desde o fim do século XIX[10]. De toda sorte, fica evidente a fragilidade do capitalismo que é afetado por qualquer evento mais significativo, por qualquer sinal de turbulência, o ‘mercado’ é abalado.

Considerando que o mundo é instável, que vivemos submersos em crises políticas de toda ordem, confrontados por desastres ambientais de grandes dimensões, pela violência, por guerras de todos os tipos, por disputas as mais variadas (mercados, territórios, petróleo, tecnologia etc), não há como acreditar que o mundo vai se tornar melhor e mais pacifico, mais estável e justo, enquanto dominado pelo capitalismo e sua lógica.

A crise vai piorar, o mundo tende a piorar. O Capitalismo não vai nos salvar, ao contrário.


REFERENCIAS:

ALVES, Giovanni. Trabalho e neodesenvolvimentismo: choque de capitalismo e nova degradação do trabalho no Brasil. Baurú: Canal 6, 2014.

ALVES, Giovanni; MORAES, Lívia. Trabalho e estratégias empresariais no capitalismo global: toyotismo e “captura” da subjetividade. Revista Mediações, 11(1), 20. Londrina: Universidade Estatual de Londrina, 2006.

TROTSKY, Leon. História da revolução russa, tomo I, parte 1. São Paulo: Sundermann, 2007.


NOTAS:

[1] As três décadas que sucedem o fim da SGM foram conhecidas como os “trinta anos gloriosos”.

[2] O ponto alto é o que se passou a chamar de Crise (ou Choque) do Petróleo, de 1973.

[3] Que Giovani Alves (2006; 2014  ) vai denominar de os “trinta anos perversos” do Capitalismo – em oposição aos anos gloriosos que o Ocidente gosta de expor como uma conquista do mundo capitalista no pós-guerra.

[4] A eleição de Ronald Reagan (USA) e de Margareth Tatcher (GB) marcam uma virada definitiva no mundo, com

[5] O certo é que não é claro que a financeirização da economia seja a única responsável pela crise, mas foi um fator importante. Alguns, como Paul Krugman, falam de uma estagnação secular que se inicia. Ou seja, mesmo os teóricos de dentro do sistema reconhecem a crise e sua difícil superação no curto prazo.

[6] Há pelo menos 5 momentos, desde o início do século XX, em que houve taxas negativas d/e crescimento da economia internacional: a) 1908, gerada pelo pânico financeiro que tomou conta dos Estados Unidos e a Europa em 1907; b) entre 1914 e 1919, e está relacionado à Primeira Guerra Mundial; c) entre 1930 a 1932, logo após a chamada “Grande Depressão”; d) entre 1939-1946, mais uma vez por causa da Guerra. O quinto momento é exatamente aquele que inicia em 2007, com o estouro da bolha de 2008, e que se estende até hoje.

[7] A crise do subprime teria sido deflagrada a partir da quebra da Lehman Brothers, um dos bancos de investimentos mais tradicionais dos EUA, desencadeando um efeito cascata em todas bolsas do mundo.

Essa crise do subprime também é conhecida como “bolha imobiliária americana”, cujo início pode ser marcado com a forte queda do índice Dow Jones em julho de 2007. O motivo seria um hipotético colapso hipotecário que alcançaria várias instituições financeiras americanas a uma situação de insolvência.

O que se denominava de empréstimos hipotecários podres (subprime mortage), eram concedidos sem critérios muito rigorosos e culminou em uma crise de crédito por meio da transferência desenfreada de CDSs (Credit Defaut Swaps) e CDOs (Collateralized Debt Obligation) para terceiros, de forma que os riscos eram repassados para terceiros.

O dia 15 de setembro de 2008 marca o ápice da crise, ficando conhecida como a segunda-feira negra, quando a Lehman Brothers declarou falência.

[8] A política fiscal e monetária dos Estados Unidos tem sido fortemente expansionista não evitou, ao contrário, o aumento de sua dívida pública (94% entre 2007 e 2014).

[9] Dow Jones Industrial Average (DJIA) foi criado em 1896 pelo editor do The Wall Street Journal, e fundador do Dow Jones & Company, Charles Dow. Ao lado do Nasdaq Composite e do S&P 500, é um dos principais indicadores dos movimentos do mercado americano, sendo o mais largamente publicado e discutido.

[10] A Gripe russa (1889-1890) matou cerca de 1,5 milhões de pessoas; a gripe espanhola (1918-1919) deixou um saldo de até 100 milhões de mortos; a gripe asiática (1957-58) provocou a morte de cerca de 2 milhões de seres humanos; a Gripe de Hong Kong (1968-69) matou por volta de 3 milhões de pessoas; a Gripe suína (2009-2010) matou 17 mil pessoas; além da gripe aviária que matou cerca de 300 pessoas e apareceu em 1997 e 2004, tivemos inúmeras outras preocupações de epidemias. Entre 2011 e 2018, a OMS acompanhou 1.483 eventos epidêmicos em 172 países, incluindo doenças como Cólera, Ebola, Zika, SARS e febre amarela. Lembrando que, no Brasil, foram detectadas no mesmo período epidemias de febre amarela, malária e Zika. A Dengue matou 155 brasileiros em 2018 e 754 outros em 2019.