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América Latina convulsionada
Bolivia: não é o primeiro nem o último golpe
A situação boliviana é a prova cabal que os golpes de Estado na América Latina caminham rumo ao fascismo.
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América Latina convulsionada
Bolivia: não é o primeiro nem o último golpe
A situação boliviana é a prova cabal que os golpes de Estado na América Latina caminham rumo ao fascismo.
Repressão na Bolívia
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Repressão na Bolívia

O golpe de Estado na Bolívia foi um raio em céu azul para a maior parte da esquerda brasileira e porque não dizer latino-americana. Frustrou as comemorações com a soltura de Lula no último dia 7 de novembro e é, ainda, uma demonstração do que teria ocorrido com a Venezuela se o golpe tivesse derrotado Hugo Chávez em 2002.

Não era para menos, as ilusões da esquerda brasileira na “democracia” e ainda mais, no papel “democrático” do imperialismo em geral, mas em particular do norte-americano, embotou de tal maneira a mente dos dirigentes esquerdistas. Aqueles que depositam esperanças nas eleições não enxergam o que podem acontecer no momento seguinte.

O golpe militar em curso na Bolívia é uma demonstração muito semelhante ao golpe que iniciou-se em 2014 no Brasil e que deveria fornecer elementos para uma reflexão sobre os erros cometidos tanto aqui, como lá.

Evo Morales, a fim de buscar uma linha de convivência pacífica com o imperialismo, os golpistas locais e latino-americanos, como Bolsonaro no Brasil, cometeu um conjunto de erros políticos que fortaleceu o avanço do golpe no País.

Na mesma medida do recuo do governo boliviano havia o avanço das forças golpistas. Para citar alguns fatos mais relevantes, tivemos a entrega do militante político italiano, Cesare Battisti, para o governo fascista da Itália e a tentativa de aproximação com o presidente fascista do Brasil, Jair Bolsonaro, no momento em que os golpistas brasileiros faziam aberta campanha contra a própria Bolívia e, principalmente, contra a Venezuela e Cuba. No atual momento, em pleno desenvolvimento do golpe militar, com o reconhecimento da intervenção direta dos EUA e do Brasil na preparação do golpe, o governo de esquerda na Bolívia procurou conter seus próprios partidários, a militância que se levantava contra o golpe, e seguidamente recuou ao invés de chamar o povo às ruas,. A cada nova demonstração de fraqueza de Morales e seu governo, os golpistas exigiam mais: recontagem de votos, novas eleições e finalmente a própria renúncia.

O que isso tem haver com o Brasil? A diferença entre os dois países é que o Brasil tem muito mais gordura para queimar do que a Bolívia. Há uma diferença de cinco anos entre as duas situações e um erro do imperialismo podia botar tudo a perder.

Assim como no Brasil de 2014, na Bolívia o “plano A” não era o golpe, mas ganhar as eleições “democraticamente” com o candidato da direita, Carlos Mesa. Diante da derrota nas urnas, os golpistas apoiados pelo imperialismo colocaram em marcha o plano para derrubar o governo Evo Morales. A extrema-direita rapidamente assumiu a frente das forças golpistas com o líder do Comitê Cívico de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, principal figura pública à frente do golpe. Os bandos fascistas entraram em cena promovendo massacres contra a população, apoiados pelas forças policiais que se insubordinaram e, finalmente as forças armadas entraram em cena.

No Brasil, o processo foi semelhante ao impeachment de Dilma Rousseff, com a diferença que a baixa intensidade da mobilização no País, em grande medida devido à defensiva da esquerda e do próprio PT, permitiu que os golpistas manobrassem no sentido de “legalizar” o golpe com as eleições de 2018.

A questão é que agora, assim como na Bolívia, como na América Latina em geral, a situação está caminhando para um ponto de ruptura. A luta de classes tende a tomar as suas formas mais radicalizadas. O recuo dos golpistas no Brasil, com a soltura de Lula, não representa uma mudança nos seus objetivos. A PEC em discussão no Congresso Nacional para rever a posição do STF sobre a prisão em segunda instância, a ameaça de Bolsonaro de usar a lei de segurança nacional contra Lula, as articulações no interior da Forças Armadas em preparação para uma provável intensificação das manifestações no Brasil são sintomas agudos disso.

Diante da evolução rápida da situação política na América Latina, o que é um problema geral para a evolução positiva dos movimentos que se rebelam contra os diversos governos neoliberais é a política da esquerda. No caso brasileiro, temos esse verdadeiro ópio paralisante, que são as eleições. Em nome da democracia das urnas, de garantir mandatos eletivos, cargos no aparelho dos estados, a esquerda brasileira está disposta a tudo: “virar a página do golpe”, montar uma “frente ampla” com os partidos de direita direita no tradicional “centrão”, apoiar, como fazem os governadores petistas do nordeste, a reforma da Previdência, aliar-se com os bolsonaristas para entregar ao imperialismo a base de Alcântara, como fez o governo do PCdoB no Maranhão, entre muitas outras barbaridades.

A questão é que esse recuo apenas abre caminho para que a extrema-direita e os militares ocupem mais espaço, que só não o fazem com maior decisão e rapidez por conta da crise do regime político saído do golpe. É em cima dessa ilusão que a esquerda pretende derrotar o golpe, com as eleições de 2020 e 2022.

Se há uma possibilidade de derrotar o golpe, impedir que Lula retorne para cadeia e partir para uma ofensiva que abra uma nova perspectiva progressista para os explorados do País, isso só vai se dar nas ruas. Com mobilizações gigantescas em torno de palavras de ordem que efetivamente sejam impulsionadoras dessas mobilizações, como o Fora Bolsonaro, cancelamento de todos os processos contra Lula, eleições gerais e Lula candidato.

O exemplo da Bolívia está aí, mas não só da Bolívia. No Equador, o governo pressionado pelas grandes mobilizações de setembro e outubro, entrou em acordo com a esquerda e voltou atrás em algumas medidas que foram o estopim da rebelião popular. Passado pouco mais de um mês, o governo volta a carga e está reprimindo violentamente a esquerda. O Chile é um outro exemplo de que a política do imperialismo não é de recuo, de “democracia”. A Argentina, o Uruguai vários outros países em graus diferentes têm situações que evoluem no sentido do mesmo quadro político dos países mais convulsionados.

O golpe de Estado na Bolívia não é o primeiro e nem será o último. A esquerda brasileira, assim como a latino-americana, pode sair vitoriosa na luta de classes. O problema é: com que política?