Crise do regime
Após a derrubada do governo Morales, a polarização se intensificou exponencialmente na Bolívia.
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Manifestante com taco. |

A economia da Bolívia deve registrar neste ano o maior crescimento da América do Sul. A última projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgada em outubro, sinaliza um avanço de 4% do Produto Interno Bruto (PIB). Não é exatamente uma situação nova. Na última década, o país vem crescendo em média a 5% ao ano. O ciclo, que já foi chamado de “milagre econômico boliviano”, começou em 2006, quando Evo Morales chegou ao poder.

Quem lesse a matéria da BBC News sobre a economia boliviana, publicada em setembro do ano corrente, poderia facilmente ser levado a crer que o país andino seria uma espécie de oásis em meio a uma ofensiva gigantesca da direita golpista em toda a América Latina. No entanto, no dia 10 de novembro, o governo de Evo Morales, reeleito em primeiro turno e apoiado pelas principais organizações populares da Bolívia foi derrubado por um golpe militar. Confirmou-se, assim, mais uma vez, que o imperialismo não está disposto a conviver com qualquer governo nacionalista no continente.

A queda de Evo Morales nada tem a ver com o fato de que ele tenha tentado “se perpetuar no poder”, nem que o povo boliviano tenha, da noite para o dia, virado conservador e reacionário. O golpe se deu nas mesmas condições em que os golpes no Brasil (2016), Honduras (2009) ou Paraguai (2012): o imperialismo começou a pressionar orquestrou “coxinhatos”, colocou nas ruas grupos de extrema-direita e empurrou as Forças Armadas para cada vez mais dentro do regime político.

A ofensiva golpista sobre a América Latina revela duas coisas. Por um lado, que a direita está disposta a ir até as últimas consequências, lançando mão até mesmo de golpes militares e de organizações fascistas, para estabelecer governos que estejam alinhados à política neoliberal. Por outro, que a direita se encontra em uma crise tal que só consegue se impor por meio da mais bruta força. Essa crise da direita, por sua vez, é o resultado da mobilização popular contra a política neoliberal, que está levando todos os partidos tradicionais da direita à falência em todo o mundo.

Nessas condições, a operação que consistiu na derrubada do governo de Evo Morales não será uma manobra simples. Mesmo com o imperialismo investindo pesadamente no golpe boliviano, os “coxinhatos” e todo o povo da imprensa burguesa não foram suficientes para convencer os trabalhadores de que a operação não seria um golpe. Prova disso é que milhares de pessoas estão nas ruas, desde o dia 10 de novembro, para protestar contra o a derrubada do governo.

Embora os grandes responsáveis pelo golpe na Bolívia tenham sido o imperialismo norte-americano, que comandou toda a campanha contra Evo Morales e financiou figuras como Luis Camacho para incentivar os ataques ao movimento popular, é preciso registrar que a atitude do presidente boliviano perante a crise foi de capitulação. Evo Morales decidiu, ele próprio, diante da pressão das Forças Armadas e da extrema-direita, renunciar a seu cargo, alegando que isso seria um gesto para evitar o derramamento de sangue em seu país.

A única maneira de evitar o derramamento de sangue, contudo, é por meio do enfrentamento dos trabalhadores bolivianos contra a burguesia golpista que está devastando a América Latina. Não é possível fazer nenhum acordo com a direita na atual etapa de crise do capitalismo – a única maneira de evitar um derramamento de sangue seria permitir que a direita saqueasse todo o país livremente. Na prática, seria muito pior que o sangue derramado em um enfrentamento direto, pois mataria milhões de fome e largaria outros milhões na miséria.

Os trabalhadores da Bolívia, que são os mais interessados em não serem dominados pelos capitalistas, sabem bem o que significaria uma ditadura sob o comando do imperialismo. Por isso, estão nas ruas para tentar evitar que o golpe militar dado contra Evo Morales permita que a direita avance e crie condições para estabelecer um regime político de duro ataque à população. A auto-proclamada presidente da Bolívia, a senadora Jeanine Añez, que é uma solução improvisada da direita para a crise, já está sendo combatida pela mobilização popular.

Como a direita sabe que os trabalhadores não irão permitir facilmente o estabelecimento de um governo que seja capacho dos banqueiros, ela está incentivando que a extrema-direita também esteja nas ruas, seja por meio de destacamentos da polícia e do Exército, como por meio de organizações de civis.

O enfrentamento nas ruas, entre os trabalhadores e a direita, tem se intensificado e gerado episódios violentos. Até agora, já foram dez mortos em confrontos após o golpe militar boliviano, sendo quatro mortes em Santa Cruz, três em Cochabamba, duas em La Paz e uma em Potosí. Os trabalhadores, dispostos a defender seu país a qualquer custo, estão enfrentando a polícia e a direita de todas as maneiras, até mesmo com tacos e pedras.

Os acontecimentos na Bolívia mostram que a situação não deverá ser resolvida por meio de nenhuma solução institucional ou diplomática. O que está acontecendo, e tende a acontecer em todo o mundo, é um aumento da polarização política, de modo que o país andino está se encaminhando para uma guerra civil.

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