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Mais um golpe by USA
Bolívia: a participação dos EUA neste e em todos os golpes
O golpe de estado na Bolívia é apenas mais um de dezenas de golpes apoiados e financiados pelos EUA na América Latina.
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Mais um golpe by USA
Bolívia: a participação dos EUA neste e em todos os golpes
O golpe de estado na Bolívia é apenas mais um de dezenas de golpes apoiados e financiados pelos EUA na América Latina.
El Alto, 10 de novembro, Evo Morales anuncia realização de novas eleições. Foto: ABI
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El Alto, 10 de novembro, Evo Morales anuncia realização de novas eleições. Foto: ABI

O golpe de Estado na Bolívia não tem muitas novidades em relação às dezenas de outros ocorridos no continente latino-americano, inclusive na própria Bolívia.

O ator mais constante na condução dos golpes na América Latina é os Estados Unidos da América, muitas vezes com a participação aberta do governo ianque. O atual golpe na Bolívia já havia sido denunciado pelo próprio Evo Morales e foi descrito com detalhes no site Behind Back Doors, indicando os procedimentos e atores envolvidos.

Ali fica clara a coordenação e o financiamento dos norte-americanos para desestabilizar o país e derrubar Evo Morales. Mas outras coisas ficaram muito claras em pouco tempo, e isso também não destoa do padrão golpista no continente: a participação ativa das Forças Armadas do país.

O General do Exército, Williams Kaliman Romero, participou de cursos na Escola das Américas*,  conhecida formadora de militares alinhados aos EUA, foi o que ultimou o presidente Evo Morales a renunciar.

Para criar um clima de instabilidade nas principais cidades do pais, a oposição boliviana, por meio de pseudo comissões cívicas e do grupo denominado Coordinadora Nacional Militar preparou jovens para realizar ações violentas, em particular nas cidades de Santa Cruz e La Paz.

A ideia era criar um clima de confrontos violentos, envolvendo a polícia, para justificar uma espécie de revolta composta por ex-oficiais militares. Uma tal  “Coordenação Nacional do Exército”, com o apoio da “União de Militares Aposentados de Santa Cruz”, seria a responsável por organizar as ações dos ‘revoltosos’.

Segundo informações vazadas pelo site  Behind Back Doors, a ideia era fixar a sede de um governo de transição em Santa Cruz , com o objetivo de consolidar os planos de dividir o país em duas frentes (leste e oeste). Não nos enganemos, o propósito é gerar um grande caos para desaguar em uma guerra civil.

Mais uma vez, os Estados Unidos está diretamente envolvido nessas ações, fornecendo armas que chegaram no porto de Iquique (Bolívia), próximo à fronteira com o Chile.

Um indivíduo de nome Juan Carlos Rivero, cidadão boliviano, foi o encarregado de comprar as armas nos EUA e levá-las à “Coordinadora Nacional Militar”.  As denuncias dão conta de relações de Juan Carlos Rivero com Manfred Reyes, oponente político de Evo Morales que vive nos EUA, mas também com a embaixada dos EUA na Bolívia.

Mas a forma como se planejou e coordenou o golpe é menos importante nesse momento do que compreender que esse golpe na Bolívia, retomando a estratégias antigas no Continente, não se distingue de todos os demais ocorridos na América Latina, nem dos mais recentes como os ocorridos em Honduras, Paraguai e Brasil.

Desde o século XIX, golpes militares tornaram-se comuns nas antigas colônias europeias na América do Sul e na América Central, assim como é o momento em que a presença norte-americana se firma no continente, seja explorando o ramo de agricultura (principalmente frutas**), extrativismo e petróleo. As empresas norte-americanas desde sempre financiaram a derrubada de governos que julgassem atrapalhar ou colocar em risco seus negócios.
Pressionavam governos a reprimir trabalhadores, com armas de fogo, controlavam (e ainda controlam em grande parte) os serviços, financiaram (e financiam?) grupos paramilitares, parlamentares, membros do poder judiciário e da polícia.

Os Estados Unidos apoiaram todos os governos militares e todos os governos totalitários de direita no continente latino-americano. Fez todo tipo de pressão sobre os governos para garantir direitos especiais e para facilitar sua ingerência nos negócios locais.

Um caso absurdo e até hoje espantoso, é o de Guantanamo, em Cuba. Em 1902, os norte-americanos conseguiram impor uma cláusula na constituição de Cuba, chamada de Emenda Platt, e com isso passou a ter direito de intervir militar, politica e economicamente no país. Isso inclui o controle perpétuo de Guantánamo. Lembrando que essa região serviu e serve ainda como campo de concentração – para Guantanamo os americanos levaram descendentes de japoneses durante a segunda guerra mundial e, após sua ‘guerra contra o terror’, passou a usar o local para prender, torturar e sumir com qualquer cidadão do mundo.

O caso da Nicarágua é exemplar para compreender o papel dos Estados Unidos na América Central. Se a Nicarágua tem longo histórico de governos ditatoriais, como o de José Santos Zelaya, que governou o país entre 1893 e 1909, logo os Estados Unidos sob argumento de preocupação com a  insolvência financeira do país, interveio militarmente e apoiou a ‘revolução’ que o derrubou Zelaya, em 1907.

Após a queda de Zelaya, os EUA não reconheceram o sucessor, José Madriz, e passam a controlar a alfândega, o banco central e as ferrovias do país.

Em 11 de julho de 1954, temos a primeira intervenção direta, e conhecida, dos Estados Unidos no continente derruba Jacobo Arbenz, presidente da Guatemala. No mesmo ano, E, o chefe do Estado-Maior do Paraguai, general Alfredo Stroessner, comanda um golpe contra o presidente Federico Chávez.

Em 1957, golpe militar na Colômbia derruba o governo e coloca no poder o general Gustavo Rojas Pinilla, derrubado em 1957, quando militares apoiam greves e revoltas estudantis, dando poder à Junta Militar Colombiana e ao presidente Gabriel París Gordillo.

Em 1958,  pilotos treinados pelos norte-americanos da força aérea na Venezuela para derrubar Marcos Perez Jimenez, bombardearam o palácio do governo, sem sucesso. Imediatamente irrompem revoltas estudantis em Caracas, que foi a deixa para que os militares removessem o presidente Jimenez e designassem um militar para governar o país, o comandante da Marinha venezuelana, Wolfgang Larrazábal.
Mas os casos de intervenção direta praticamente correspondem à totalidades dos países do continente***, sendo escandalosas aquelas ocorridas na América Central, desde a Guatemala, Nicarágua, Panamá etc. Com a desculpa de combater o avanço do comunismo no Cone Sul, o governo dos Estados Unidos, iniciando no período conhecido como Guerra Fria, forneceu suporte técnico e financeiro a militares para destituir governos, eleitos democraticamente, quando estes não se conformavam à agenda política (e aos interesses econômicos) de Washington.

Para termos uma ideia, a partir da década de 1960, há um dominó de golpes e implantação de ditaduras militares, todas apoiadas pelos Estados Unidos da América, por exemplo: Argentina**** (1962, 1966 e 1976), Brasil e Bolívia (1964), Nicaragua, Peru e Bolívia (1968), e Uruguai e Chile (1973). 

É fundamental compreender a presença norte-americana no continente, seus interesses econômicos, os meios utilizados para interferir na política e manter os EUA como governo de fato dos países latino-americanos. É urgente resgatar e ter claro como atuam a diplomacia, os agentes da CIA e do Departamento de Estado, e nunca tirar do horizonte o modo como os militares foram sendo cooptados e posteriormente completamente formados dentro da ideologia da ‘Segurança Nacional”, assim como parte das polícias (por meio de acordos de capacitação e treinamento).

Se os EUA haviam deixado de apoiar, de forma aberta, os golpes militares, para atuar de outras maneiras, menos violentamente descaradas, parece que, com o caso da Bolívia, lançaram mão de antigos meios e nem cuidaram em ser discretos. Isso pode representar que têm pressa.

 


 

*A Escola das Américas é uma Escola de treinamento do Exército dos Estados Unidos, fundada no Panamá em 1946. Sua finalidade explicita sempre foi  formar militares da América Latina e do Caribe na doutrina da segurança nacional, mas com treinamento prático em métodos de contrainformação, interrogatório (o que inclui métodos de tortura e execução sumária), guerra psicológica, inteligência militar e ação de contrainsurreição (o que posteriormente, na verdade, mostrou ser basicamente ações de contra-revolução, com mercenários).
** A empresa mais conhecida é a United Fruit Company (1899-1970) que explorava a mão de obra local e tomava posse de grandes extensões de terras para produzir e comercializar frutas, presente  na América Central e no Caribe onde a empresa era conhecida como “Mamá Yunay“. Mas também foram muito presentes no subcontinente a Tropical Trading and Transport Company e a Boston Fruit Company (posteriormente fundidas).

***  Até o fim do 1954, 13 das 20 nações da América Latina estavam sob domínio de militares.

**** Em fevereiro de 1962, os militares argentinos depõem Arturo Frondizi, presidente desde 1958. É bom lembrar que, antes desse golpe, a Argentina já havia deposto todos os presidentes desde Perón (1946).

Link de Orientação 1 https://www.geonoticias.com.br/general-golpista-que-pediu-renuncia-de-evo-esteve-em-cursos-nos-eua/?fbclid=IwAR1jeFrUXA-0AGfBl0fAFYwaLni3WnSS4nAZwY4lu43Xlca0oJWZz3Bmlyw – Link de Orientação 2 – https://www.conclusion.com.ar/internacionales/revelan-plan-de-estados-unidos-para-el-golpe-en-bolivia-nombres-y-apellidos-rol-de-la-embajada-y-paises-vecinos/11/2019/?fbclid=IwAR1vhh19K89_MiujNQdybkJL-4C83NUMRa2fzg86Pe_OKsM_cVjLpAWYAws#.Xcrzj0aanTo.facebook – Audio: Orientação: Panorâmica Sempre colocar uma imagem de destaque maior do que 720×720. Matéria precisa ter pelo menos 2500 caaracteres.