Legendas de aluguel
Casos de “sucesso” dos partidos de esquerda, quando analisados mais profundamente, revelam uma profunda guinada à direita desses partidos
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latifundiario psol
O latifundiário do PSOL. Partido se tornou "interessante" | Foto: Reprodução

“Agora eu sou prefeito de todos os belenenses”. A frase que tornou-se uma marca do político pequeno-burguês capitulador, foi dita pelo último prefeito a se eleger pelo PSOL nas eleições de 2020, Edmilson Rodrigues em Belém, pode parecer democrática a quem não viveu o último período mas na prática, significa o abandono do programa partidário em defesa da política da burguesia.

As consequências do abandono do programa partidário, em nome de um governo de todos em abstrato, são muito maiores do que simplesmente buscar acordos políticos com a burguesia.

Por exemplo, muito se tem alardeado sobre o crescimento do PSOL nas eleições, mas uma análise mais minuciosa sobre o perfil dos candidatos eleitos pelo partido demonstra um artificialismo enorme nesse “crescimento”.

 

Um partido contra ocupações, aborto e drogas

 

Na cidade de Ribas do Rio Pardo (102 km da capital de MS, Campo Grande), um latifundiário, João Alfredo Danieze, foi eleito prefeito no pleito de 2020. Proprietário de um  rebanho superior a 450 cabeças de gado, o fazendeiro tem também 500 hectares de terras e um patrimônio de R$7,21 milhões conforme declaração à Justiça Eleitoral. Poderia ser um mais um político burguês, como tantos outros, porém o prefeito eleito da pequena cidade de MS tem uma singularidade: é um dos 4 prefeitos eleitos pelo PSOL no País, no primeiro turno.

Tendo já concorrido à prefeitura da cidade em 2012 pelo antigo Partido Humanista da Solidariedade (PHS, atualmente incorporado ao direitista Podemos), o advogado conta em seu histórico com um cargo de vice prefeito na cidade, além da disputa à prefeitura em 2012 e ao governo do estado em 2018, quando teve sua candidatura marcada por uma crise no interior do partido.

Declarando-se, à época, parte da “esquerda sensata e racional”, o latifundiário havia posicionado-se contra as mobilizações camponesas com “invasão de terra” durante a campanha, e também, a favor da criminalização do aborto e da política de drogas atualmente vigente.

Criticado pelas posições contrárias ao que o PSOL diz defender, o fazendeiro (que também  é  advogado), defendeu-se da seguinte forma:

“Fiz um juramento como advogado de cumprir as leis do país. Se o direito à propriedade é uma garantia constitucional, eu jurei profissionalmente cumprir”.

No discurso após a vitória, elementos tradicionais da demagogia direitista dão pistas de que seu caráter político em nada mudou:

“Primeiro quero agradecer a confiança que a população depositou em mim, e dizer que a partir de primeiro de janeiro inicia-se uma nova etapa. Administração da moralidade, da decência, do emprego e com muita vontade de fazer as coisas acontecerem”, acrescentando, “eu só tenho a agradecer (…) principalmente a Deus.”

 

Orgia partidária

 

Além do latifundiário reacionário do MS, o PSOL destacou-se nas eleições de 2020 pela conquista de prefeituras através de outros elementos totalmente estranhos à política do partido. Outro caso notório é Salomão Gurgel, prefeito eleito da cidade de Janduís (RN).

Político tradicional, Salomão Gurgel já trocou de partido com uma frequência espantosa, mesmo para os padrões do interior brasileiro:

Seu currículo inclui o MDB (1966-1980), PT (1980-1991), PSB (1991-1997), PDT (1997-2001), retorno ao PT (2001-2015) e finalmente o PSOL (2015-presente).

Sua última passagem pelo PT deu-se em meio ao exercício do cargo de prefeito da cidade, onde teve choques com vereadores petistas. No centro do conflito estava a briga por cargos na Câmara dos Vereadores.

Segundo o próprio Gurgel, durante a disputa para a eleição da Mesa Diretora da Câmara, em 2007, foi pedido pelo então prefeito petista que os vereadores do seu partido não participassem da negociação, sob o argumento de que o PT tinha apenas 2 vereadores. O pedido não foi atendido.

“Como estávamos em minoria, e não queríamos flexibilizar a ética do partido, recomendamos que deixassem que a oposição fizesse a mesa. Discordamos nesse ponto. Ele fizeram a negociação e Braga (Antônio Braga, do PT) foi eleito”, explicou Gurgel ao jornal Tribuna do Norte (“Salomão Gurgel vai pedir licença do PT e Lucena pedirá a expulsão do prefeito”, 28/05/2010). Segundo o jornal, o então prefeito pelo PT não quis detalhar qual o tipo de negociação estava sendo feita.

Em 2009, novo choque com os vereadores de seu partido, e novamente, por cargos. Desta vez com cinco vereadores, Salomão Gurgel apoiava para a Presidência da Câmara Antônio Rênio Gurgel, “por acaso é meu sobrinho”.

Mais uma vez, o prefeito fora derrotado e Antônio Braga, de seu próprio partido, acabaria reeleito.

“Além disso, pessoas do próprio PT ligadas a eles participaram de protestos contra mim, e diversas atitudes que não condizem com a situação de companheiros de partido”, disse Gurgel, comentando a situação.

A crise entre o prefeito e o partido levaria Gurgel a orientar servidores comissionados da prefeitura a saírem do PT, o que levou a choques com a direção estadual do partido.

 

Com Temer e Cunha

 

Na cidade de Marabá Paulista (SP), prefeitura conquistada com o agricultor Cido Sobral, a situação não é muito diferente. Eleito prefeito pelo PSOL em 2020, no ano de 2016 Sobral participou das eleições municipais para vereador. O partido, contudo, era o PMDB (atual MDB).

Não custa lembrar, 2016 foi o ano em que o PMDB realizou o golpe de Estado, em conluio com o PSDB e orientados, naturalmente, pelo imperialismo.

Na época em que Cido Sobral candidatou-se à vereança de Marabá Paulista, seu partido tinha como lideranças proeminentes Michel Temer e Eduardo Cunha, dois articuladores que protagonizaram a derrubada do governo de Dilma Rousseff, alterando de uma maneira muito profunda a correlação de forças no País, o que culminaria com Bolsonaro na presidência.

Demonstrando um total descompromisso ideológico com qualquer interesse minimamente ligado à esquerda, foi justamente com o partido que atuou em defesa do golpe, apoiado pelo imperialismo, que o hoje prefeito eleito pelo PSOL candidatou-se no último pleito municipal.

Cido Sobral, como pode ser observado, está longe de representar um ponto fora da curva. O suposto crescimento do PSOL não implica num fortalecimento da política do partido mas justamente no seu enfraquecimento, ao menos, enquanto algo além de uma legenda de aluguel.

Dos 5 prefeitos eleitos pelo partido, 3 transitaram pela direita, um dos quais declaradamente não mudou sua política em nada, caso do latifundiário do MS.

 

Comunistas de direita

 

No PCdoB, a quantidade de candidatos com um passado político no mínimo duvidoso é igualmente grande, marcando uma tendência da política pequeno-burguesa.

Prefeito eleito de Caetanos, cidade baiana a 300 km de Salvador, Paulo de Reis disputou também o cargo de prefeito nas eleições 2012, porém concorrendo pelo PSL. No site do TSE, consta em sua declaração de bens um total de R$290 mil, dos quais R$140 mil referentes a sua residência e R$150 mil referentes a terras de sua propriedade.

Se em 2012 o atual “comunista” concorrera pelo partido com o qual Bolsonaro se elegeria 6 anos depois, nas eleições municipais de 2020, a chapa vencedora seria formada pelo PCdoB de Reis e o DEM de seu vice, Edicio Marcelino.

Na cidade de Senador Alexandre Costa, cidade maranhense a cerca de 400 km de São Luís, o atual prefeito, Dr. Orlando foi reeleito em uma chapa contendo dois partidos bolsonaristas: PSC e PP.

Tal qual o companheiro de partido baiano, Dr. Orlando também disputou as eleições municipais de 2012 por outro partido, o PPS ( atual Cidadania). Sua chapa, na época, era um verdadeiro “sortido”: PP, PTB, PPS, PSDC, PSB, PV, PRP, PSDB e PCdoB.

Também no Maranhão, na cidade de Araioses, Luciana Trinta, empresária, compõe o novo quadro de prefeitos do PCdoB com currículo duvidoso. Isto por que, em 2012, a prefeita eleita disputou o mesmo cargo, porém pelo PSD, partido de notórios golpistas como Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo, e o governador do Paraná, Ratinho Jr.

Tendo perdido na ocasião, em 2012 o arco de alianças de Luciana Trinta incluiria o PSL e PRP (atual PATRIOTA). Eleita no pleito atual, a “comunista” manteve a parceria com o PSL, partido que compõe a chapa pela qual a candidata do PCdoB se elegeu (os outros partidos são o PROS e o PT).

Por fim, no mesmo estado, a prefeita reeleita de Anapurus, Professora Vanderly, elegera-se em 2016 pelo PSDB, tendo seu primeiro mandato graças a um dos principais partidos da burguesia imperialista. Reeleita em aliança com o Republicanos, a “nova comunista” declarou como bens dois carros: um Voyage, com valor declarado de R$25 mil e uma caminhonete HILUX, de R$130 mil.

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