Pacifista?
Menos de um mês após tomar a presidência, o “civilizado” Biden ensaia cancelar acordo para retirar tropas do Afeganistão e mergulhar país novamente em uma guerra infernal
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Quase 10 anos após execução de bin Laden -no Paquistão-, guerra no Afeganistão será mantida | Foto: Reprodução
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Quase 10 anos após execução de bin Laden -no Paquistão-, guerra no Afeganistão será mantida | Foto: Reprodução

Uma semana após indícios de que quebrará o acordo para retirar as tropas imperialistas do Afeganistão, realizado em fevereiro de 2020 com o ex-presidente Donald Trump, o presidente fantoche do Afeganistão, Ashraf Ghani, pediu na última sexta-feira (29) que o atual presidente norte-americano, Joe Biden, mantenha tropas estrangeiras no próprio país por mais tempo. O acordo, feito entre o governo Trump e o Talibã em Doha, previa que as forças americanas deixassem o país asiático a partir de maio deste ano.

O pedido de Ghani sucede uma série de declarações de Biden e seu gabinete, dadas no último dia 22 e que manifestavam o desejo do governo americano de “reexaminar o acordo de fevereiro de 2020 com o Talibã, para, em particular, avaliar se este último honrou o compromisso de cortar todos os vínculos com grupos terroristas, reduzir a violência e manter negociações sérias com o governo afegão e outros atores”.

No último dia 31, a agência de notícias Reuters divulgou uma matéria (“Foreign troops to stay in Afghanistan beyond May deadline”, 31/01/2021) informando que “não haverá retirada de tropas aliadas ao final de abril”, segundo as palavras de um dos quatro oficiais graduados da OTAN ouvidos pela Reuters em caráter de sigilo. Outro dos oficiais mencionou o pano de fundo político da decisão.

“Com a nova administração do governo americano, ajustes serão realizados na política, o senso precipitado de retirada que prevalecia será direcionado e veremos uma saída mais calculada e estratégica”, disse o oficial anônimo, que acrescentou: “as condições (para retirada das tropas) não foram atingidas”.

 

Talebã alerta para consequências

 

Por sua vez, o movimento nacionalista Talibã que a política de Biden, de quebrar o acordo para retirada de tropas em maio, terá consequências. Segundo a agência de notícias russa Sputnik, o porta-voz dos Talibãs, Zabihullah Mujahid, disse que o movimento irá manter-se comprometido com o acordo assinado em fevereiro de 2020 porém não aceitará nenhuma desculpa da OTAN (“Taliban Warns of ‘Consequences’ Amid Reports That Biden Has Scrapped Trump Pledge on Afghan Pullout”, 31/01/2021).

“Sem dúvida, se o acordo de Doha não for implementado, haverão consequências, e a responsabilidade recairá sobre o lado que não honrou o acordo”

disse o porta-voz, acrescentando que

“Nossas expectativas são também de que a OTAN irá pensar no fim do conflito e evitar desculpas para prolongar a guerra no Afeganistão”.

Iniciada em 2001 sob o governo de um dos apoiadores de Biden, o ex-presidente republicano George W. Bush, a Guerra do Afeganistão fora iniciada com a desculpa de capturar o líder da milícia Al-Qaeda, Osama bin Laden, supostamente organizador dos ataques com sequestro de aviões ocorridos nos EUA, em 11 de setembro de 2001.

Bin Laden foi encontrado 10 anos depois não no Afeganistão mas no Paquistão, onde foi executado pelo governo Obama -cujo vice-presidente, era Biden-. Ainda assim, 10 anos após a execução de Osama bin Laden, o governo americano continuou mantendo uma guerra que, oficialmente, matou mais de 140 mil pessoas.

Senhor da guerra

 

 Joe Biden deixa claro, mais uma vez, que tipo de monstro foi posto no comando do governo dos EUA. Aturdidos pela propaganda intensiva da imprensa dos EUA, uma parcela do povo norte-americano foi induzido ao erro de acreditar que Biden era o “mal menor” em relação a seu oponente, o republicano Donald Trump.

Com poucos dias de governo, sua política já revela um realinhamento de forças no imperialismo que ameaça mergulhar o povo afegão em sofrimentos ainda maiores do que os quase 20 anos de invasão americana já infligiram à população miserável da nação asiática. Contra o povo do próprio país, recai a conta de uma guerra cujo custo ultrapassa US$2 trilhões e que não tem sentido algum para a imensa massa de trabalhadores americanos, cada vez mais pobres.

Embora dado a declarações nojentas, a política de Trump para o Afeganistão era muito mais favorável ao povo afegão -e também aos americanos- do que a retomada da ofensiva militar imperialista contra o país, ensaiada por Biden, que mal assumiu a presidência dos EUA e já vem se esforçando para fazer jus à alcunha de “senhor da guerra”.

 

Mal menor pra quem?

Em poucos dias de governo, o democrata revela-se cada vez mais um mal muito maior -para as massas americanas e a humanidade de conjunto- do que seu antecessor. Menos, é claro, para a burguesia que o colocou no poder.

Interessada em aumentar a rapina contra os povos atrasados, o setor imperialista da burguesia tende a ser mais agressivo, tanto quanto a crise econômica, iniciada em 2008, se intensifica, o que tem acontecido de maneira acentuada após a emergência da pandemia do coronavírus.

Esta característica, de uma burguesia desesperada, deve ser levada em consideração pela esquerda, que não pode continuar caindo nas armadilhas deixadas pelas organizações dedicadas a promover uma política que atenda os interesses do capitalismo em decadência.

Isto passa, necessariamente, pela independência política da esquerda em relação à burguesia e um alinhamento maior deste campo político com as vanguardas populares, sobretudo os trabalhadores e estudantes.

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