O novo senhor da guerra
Joe Biden vai impulsionar a política do imperialismo contra a Síria, um bloqueio economico que pode levar o país ao total colapso, após uma década de guerra civil

Por: Redação do Diário Causa Operária

Nesta semana, o novo presidente americano, Joe Biden, confirmou que continuará a política conhecida como a “Lei de César” contra a Síria, que foi iniciada no governo anterior, de Donald Trump.

A declaração foi feita pelo porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Ned Price.

A Lei de César, oficialmente chamada de Lei de Proteção dos Civis Sírios César, é uma legislação que impõe sanções contra o governo sírio, incluindo o presidente Bashar Al-Assad, que é acusado pelos americanos de crimes de guerra contra a população de seu país. Essa lei foi aprovada pelo Congresso Americano em 2019, sancionada por Trump e colocada em prática em 17 de junho de 2020.

O bloqueio econômico imposto pelo governo americano vai afetar ainda mais a recuperação de um país completamente arrasado após uma guerra civil que dura mais de dez anos, que visa instigar uma população cansada, faminta e ferida a se levantar contra o presidente legítimo e nacionalista Bashar al-Assad.

Segundo o porta-voz Price, o governo americano defenderia a manutenção de um processo diplomático, adotando medidas humanitárias para chegar a uma solução pacífica na Síria. Isso logicamente apenas se Assad se rendesse.

A Lei de César é apenas a mais recente de uma série de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos à Síria desde o início da Guerra Civil Síria em 2011. É um bloqueio econômico semelhante àquele aplicado em países como Venezuela e Cuba, que buscam sufocar os governos destes países com a falta de petróleo e seus derivados, medicamentos, produtos alimentícios e outros materiais básicos para sua sobrevivência.

A nova ofensiva americana reforça a posição exposta por este Diário Causa Operária, de que a política de Joe Biden será endurecer contra os países de capitalismo atrasado, como é o caso da Síria, Irã e Venezuela. Lembramos que Biden foi o vice-presidente da administração Barack Obama e o principal articulador de sua política externa, que reforçou o militarismo americano e aplicou golpes de estado em Honduras, Brasil, Paraguai, Bolívia e vários outros países da América Latina.

Ao contrário do que pensa boa parte da esquerda brasileira, o governo Donald Trump será lembrado como quase inofensivo perto do que promete ser o governo Biden.

Sobre a atuação de Biden no governo Obama foram publicadas várias matérias, entre elas esta:

Biden, o senhor da guerra (2): um milhão de mortos no Iraque

A presença americana na Síria

A Síria vem sendo governada por Bashar al-Assad desde 2000 e anteriormente por seu pai, Hafez al-Assad, que esteve no poder de 1971 a 2000. Em sua história a Síria teve inúmeros conflitos com o estado de Israel, um país, cujos governos cumprem o papel de ser o representante dos imperialistas naquela região.

A interferência dos Estados Unidos na Síria remonta a até antes da Guerra Civil Síria, que se iniciou em 2011. Em 2003 o Congresso Americano aprovou a Lei de Responsabilidade da Síria e Restauração da Soberania Libanesa. O objetivo dessa lei era acabar com o que os americanos consideravam como o apoio do governo da Síria ao terrorismo. Os americanos alegavam que a Síria estava desenvolvendo armas de destruição em massa (armas químicas) e pretendiam acabar com a importação ilegal de petróleo do Iraque e o envio de armas para combater as tropas americanas no Iraque. Esta alegação de fabricação de armas químicas viria a ser repetida várias vezes ao longo dos anos.

Em suma, os Estados Unidos alegavam que a Síria seria um estado terrorista e autoritário, cuja democracia deveria ser restaurada por eles.

A Guerra Civil Síria começou inspirada pelas revoluções da Primavera Árabe, com demonstrações pacíficas, mas logo as tensões seriam intensificadas pelo abandono de soldados do exército para a formação de um novo Exército de Libertação da Síria, que seria impulsionado pelos governos americano e os da Turquia, Qatar, Arábia Saudita e França. Ao lado do governo sírio estavam as forças do Hezbollah e dos governos do Irã, Rússia e Iraque.

Em 21 de agosto de 2013 a região de Ghouta, próxima a Damasco, um local controlado pelas forças de oposição ao governo de al-Assad, foi atingido por foguetes contendo o agente químico sarin. Centenas de pessoas morreram nesse ataque. O acontecimento foi amplamente usado pelo governo americano como prova de que o governo de al-Assad tinha um estoque de armas químicas. Na ocasião, o vice-presidente americano Joe Biden declarou que não restavam dúvidas de que o responsável pelo ataque havia sido o governo de Bashar al-Assad.

Este evento foi usado pelo governo americano como desculpa para uma mais clara intervenção do imperialismo no país. O ministro russo Sergei Lavrov condenou a histeria e declarou que os americanos deveriam mostrar as provas de que o regime de Assad estaria por trás disto. Naquela ocasião, os governos do Reino Unido e da França já estavam prontos para se juntar aos americanos em um ataque militar. O imperialismo recuou naquele momento, mas continuou fomentando a guerra nos bastidores.

No ano seguinte, em Istambul, Turquia, usando de uma demagogia inacreditável, Biden anunciou uma ajuda humanitária de 135 milhões de dólares para alimentar os civis, vítimas do conflito na Síria. Segundo ele, até então, os Estados Unidos já haviam providenciado 3 bilhões em ajuda humanitária ao povo sírio. Esta ajuda seria dirigida especialmente aos sírios que fugiram do país, indo para a Turquia e outros locais.

Na Guerra Civil Síria, o governo americano armou o Exército de Libertação da Síria, treinou e equipou mais de 15.000 rebeldes, gastando mais de 1,5 bilhão de dólares nesta guerra. Em 2014 os Estados Unidos atacaram as tropas do EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) com bombardeios aéreos na Síria e no Iraque.

O dia 7 de abril de 2017 foi a data em que os Estados Unidos deliberadamente atacaram as forças do governo sírio, entrando com a sua força militar. Foi um ataque com mísseis na base aérea de Shayrat, marcando o início de inúmeras ações militares diretas. Em janeiro de 2018, já sob o governo de Trump, os americanos indicaram que iriam prolongar indefinidamente sua presença no solo sírio para combater a influência do Irã e para derrubar Bashar al-Assad.

Vale lembrar também a atuação da propaganda imperialista com o uso de grupos como os Capacetes Brancos, uma ONG “humanitária”, que fez vídeos falsificando a realidade da guerra e dos Médicos Sem Fronteiras, que também não tem nada de isenção, sendo outro organismo do imperialismo.

Por aquela época, 2018, o governo sírio ganhou muitos territórios e derrotou vários grupos de oposição, chegando próximo à vitória. Após a retirada de boa parte dos exércitos americanos, a guerra continuou pela via econômica. O saldo da guerra civil é de mais de 300 mil mortos.

Imperialismo, raiz de todo mal

Por trás desta intensa e longa campanha contra a Síria está o desejo dos Estados Unidos de atacar o governo do Irã, liderado pelo nacionalista Ali Khamenei, ferrenho opositor do imperialismo. Logicamente os americanos fazem a propaganda de que o governo iraniano é autoritário e repleto de abusos dos direitos humanos. É a mesma campanha de sempre, apoiada por órgãos como o Observatório dos Direitos Humanos, a ONU e outros, que não passam de organismos ligados ao imperialismo.

O Irã representa uma das maiores potências do Oriente Médio, com o segundo maior suprimento de gás natural e a terceira maior reserva de petróleo do mundo. A vitória da Síria representaria uma enorme derrota para o imperialismo, algo intolerável para o capitalismo neste momento de enorme crise mundial.

A intenção de Biden é claramente a de ser o oposto de Trump, que não levou adiante nenhuma nova frente de guerra. Biden deve ser o continuador da política de Obama, um novo senhor da guerra.

Send this to a friend