Seletividade classista
Na prática, e mais uma vez, o cerceamento da livre expressão se volta contra os setores de esquerda e progressistas
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Ator José de Abreu processado pela direita que quer arrancar-lhe a voz | Foto: Reprodução
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Ator José de Abreu processado pela direita que quer arrancar-lhe a voz | Foto: Reprodução

A Justiça de São Paulo condenou na última semana o ator José de Abreu a pagar uma indenização de R$ 50 mil por danos morais a Bia Doria, esposa do governador João Doria (PSDB) , em razão de processo movido pela dama fascista em 2016, quando o ator por meio de piada fez uma crítica política à esposa de Dória.

José de Abreu expôs por meio de seu twitter o seguinte: “STF proíbe vaquejada mas permite que a Bia Doria dê entrevista? é um crime contra os animais…”

Para o juiz Douglas Iecco Ravacci, da 33ª Vara Cível da Comarca de São Paulo, que deu o veredito, José de Abreu realizou “uma construção de frases sem a mínima coerência”. De acordo com o Juiz: “As críticas, tanto à proibição da vaquejada quanto às declarações da autora, poderiam ser feitas de inúmeras maneiras, inclusive com espírito jocoso ou por meio de piada, mas tendo por objetivo as declarações, e não a pessoa que as fez, muito menos equiparando – a um animal”.

Os advogados de Abreu, nos autos do processo defenderam que o ator agiu “com intenção humorística e irônica”, mas não pretendeu ofender Bia Doria, não havendo dano moral, mas “mero desconforto subjetivo não indenizável”. Os advogados agora se preparam para recorrer  da decisão.

O fato acima é outra demonstração do que ocorre quando a esquerda identitária, ou setores confusos da esquerda recorrem à justiça burguesa com o suposto intuito de se defender de acusações de cunho racista, machista, homofóbico ou de outra ordem. Pois basta se recordar do que ocorreu no início deste ano quando a primeira-dama fascista afirmou que “não é correto” dar marmita às pessoas em situação de rua. Nas suas palavras as pessoas em situação de vulnerabilidade têm que “se conscientizar”, caso contrário, as ruas passam a ser um “atrativo”. Ou seja, a mesma justiça que condena Abreu, faz vistas grossas quando uma representante da elite paulista, em outras palavras, chamam moradores de rua de “vagabundos”.

O que se coloca neste e em outros casos é que se encontra em marcha a aniquilação da liberdade de expressão no país. Está em aniquilação o estado democrático de direito, com o apoio de importantes setores de esquerda. Pois, só é possível existir o Estado democrático de direito como tal se há a completa liberdade para que todas as posições políticas possam ser expressas. Caso contrário, estamos vivendo em um regime não democrático, em uma ditadura da burguesia, onde apenas uma única opinião – ou um conjunto determinado de opiniões – poderia ser defendida.

Por mais abominável que seja uma determinada fala, uma determinada política, pressupõe-se que numa democracia pode-se omitir opinião e que se possa responder livremente a essa opinião. Ou seja, se Bia pode chamar à outros de vagabundos, Abreu pode dar sua opinião irônica ou não a qualquer coisa.

E nessa luta, quem ganha é quem possui tem mais poder. Não precisamos ser grandes analistas políticos para saber que a direita domina o Estado e suas instituições e que a esquerda será calada.

No fim, qualquer tentativa de limitar a liberdade de opinião só pode se voltar contra a própria esquerda, que é quem de fato necessita desse direito para poder existir. A burguesia já conta com o Estado e suas instituições, o Judiciário, a polícia, o monopólio da imprensa.

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