“Racismo reverso”
BBB mostra como o identitarismo alimenta a extrema-direita
Captura de Tela 2021-02-11 às 18.09.18
Bolsonarista quer atacar a luta dos ngeros | Reprodução
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Bolsonarista quer atacar a luta dos ngeros | Reprodução

O deputado estadual bolsonarista, Anderson Moraes (PSL-RJ), apresentou contra a participante do Big Brother Brasil, Lumena Aleluia, notícia-crime na Delegacia de Combate a Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), no último dia 9. A intenção do elemento de extrema-direita é a abertura de inquérito para apurar a prática de racismo contra outra participante do jogo da rede Globo, a psicóloga Carla Diaz.

“Detalhe” importante: a acusada do suposto crime racismo é negra e a suposta vítima é branca. A acusação de injúria racial é baseada no comentário de Lumena, que afirmou que Carla Diaz era “sem melanina”, “desbotada” e tinha “olho de boneca assassina”.

A acusação é uma típica provocação do deputado bolsonarista, numa tentativa de desmoralizar a luta do negro. Na porta da delegacia, Anderson Moraes gravou vídeo declarando que pedia para a Decradi “apurar os fatos e se manifestar pela expulsão dela do programa. Se fosse o contrário, o que seria igualmente crime, já teriam se mobilizado para combater o racismo”.

A provocação bolsonarista é baseada na ideia absurda de “racismo reverso”, ou seja, se o negro pode denunciar um branco por ser racista, o inverso também seria válido.

Não existe “racismo reverso”

Apesar de ser uma clara provocação da extrema-direita, é preciso explicar porque a ideia de que haveria um racismo ao contrário é absurda e totalmente errada.

De um ponto de vista geral, o racismo é a expressão ideológica para justificar a opressão dos negros. É preciso explicar que essa opressão é baseada em algo concreto, que é a dominação e exploração econômica.

Se o racismo é uma determinada forma de opressão e se concordamos que se trata da opressão e exploração dos negros ou etnias consideradas “inferiores” pelos opressores brancos não há como existir a opressão dos brancos pelos negros. Não é possível, mesmo de um ponto de vista lógico, que todos possam ser oprimidos ao mesmo tempo.

Daí decorre que, diferente do que afirma o deputado bolsonarista, não existem as duas vias de racismo. Ou concordamos que são os negros os oprimidos, ou concordamos que são os brancos. As duas coisas ao mesmo tempo é impossível.

Como o deputado bolsonarista não tem coragem de afirmar abertamente que não existe racismo, ele faz uma provocação na tentativa de desmoralizar a luta do negro.

A concepção identitária alimenta a provocação bolsonarista

É preciso denunciar a extrema-direita racista que procura atacar a luta dos negros. Mas é necessário explicar de onde vem o argumento absurdo do deputado bolsonarista sobre o “racismo reverso”.

O programa da Globo tem sido um verdadeiro circo das posições identitárias. A emissora, representante e porta-voz do imperialismo no Brasil, decidiu colocar no BBB representantes do identitarismo para fazer propaganda dessa ideologia, que na realidade, é uma demagogia reacionária usando uma pseudo preocupação com a luta dos negros, LGBTs e mulheres.

O identitarismo é uma ideologia reacionária que foi adotada pela esquerda, enfeitiçada pela propaganda demagógica imperialista, que como fica claro na atitude da Rede Globo, tem interesse em impulsionar essa ideologia. A demagogia com a questão do negro, da mulher e do LGBTs serve apenas para esconder esse caráter reacionário.

Ele consiste em substituir a luta concreta dos negros e outros setores oprimidos – grosso modo uma luta por determinados direitos sociais e políticos – por uma “luta” idealista, ou seja, no mundo da moralidade, da linguagem e acima de tudo procura dar um caráter individual a uma luta que obviamente é coletiva. Um exemplo disso é a ideia de “empoderamento”, que em suma acredita que o indivíduo se tornaria poderoso, bastando que ele tomasse consciência diante de sua condição de oprimido. Para os identitário, o “empoderamento” é um determinado indivíduo se impor sobre o outro, sempre no terreno da linguagem, do comportamento e da moralidade. A luta social e coletiva, portanto, dá lugar a uma luta individualista por uma espécie de ascensão social dentro dessa sociedade de classes. O problema da opressão estaria resolvido, sem ser necessário solucionar o problema social.

Os identitários, portanto, ignoram que são justamente as condições sociais e econômicas que baseiam a opressão e que sem uma luta por modificá-las o problema do negro não será resolvido de fato.

A crença na mudança individual e no capitalismo, coisas que estão relacionadas, é o que justifica a política identitária que busca nas instituições do Estado capitalista, na criação de leis repressivas, a resolução dos problemas dos oprimidos. Ao Estado capitalista é dado o poder de impor, por meio de leis repressivas, um comportamento considerado moralmente de acordo com as normas identitárias.

A crença no capitalismo se materializa na crença nas instituições do Estado capitalista.

Por isso dentro do BBB o comportamento dos identitários é tão absurdo. Eles procuram se impor, eles se sentem à vontade de humilhar aqueles que consideram não se enquadrarem em suas normas morais etc. Esse comportamento “funciona” apenas em pequenos âmbitos sociais, em que os envolvidos estejam dispostos a aceitar tais imposições. Por isso Karol Conká e a própria Lumena Aleluia são tão manipuladoras dentro da casa, mas estão gerando grande asco entre a maioria da população.

É aí que entra o deputado bolsonarista… A provocação mostrou muito claramente o problema central da ideologia identitária. Baseado na ideia de que o racismo seria um problema moral, de linguagem e de ideias, o deputado se sentiu à vontade para afirmar que Lumena estava sendo racista com Carla Diaz. Ele se utilizou da mesma lógica identitária para atacar a luta dos negros.

E aí há outro problema: enquanto Karol Conká e Lumena se “empoderam” dentro de uma casa com meia dúzia de pessoas, o deputado bolsonarista, verdadeiramente poderoso, vai utilizar a lei de racismo contra os próprios negros. Quem pode mais, chora menos e com certeza, quando se trata de leis repressivas quem pode muito mais são os bolsonaristas, que dominam a polícia, o Judiciário etc. É o que sempre dissemos: quanto maior o poder do Estado capitalista, responsável pela opressão e exploração da maioria da população, pior para os negros, não importam as boas intenções dessas leis repressivas.

A extrema-direita, assim, diante do reacionarismo e do confusionismo da ideologia identitária, encontra uma oportunidade, uma política que justifica a sua ação, para aumentar a repressão contra os setores mais oprimidos da sociedade, aqueles que o identitarismo finge estar defendendo.

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