Humor e política
Barão de Itararé, o jornalista expoente do humor político brasileiro e a importância da liberdade de expressão para a crítica política.

Por: Redação do Diário Causa Operária

No dia 29 de janeiro de 1895 nascia o Barão de Itararé ou Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, um dos precursores do humorismo político no Brasil, cuja influência ressoa até hoje na imprensa brasileira e no repertório dos analistas políticos. Também apelidade de Apporelly, o escritor e jornalista nasceu no final do século XIX no extremo sul do país. Perdeu sua mãe ainda criança, o que levou seu pai a enviá-lo para o internato dos jesuítas em São Leopoldo – RS.

Ainda na juventude sofreu um acidente vascular cerebral, fato que marcou uma reviravolta na vida do autor. Com isto, largou a medicina em seu quarto ano de estudos para começar a escrever sonetos e artigos para jornais e revistas como a revista “Kodak”, “A Máscara” e “Maneca”. Até que sete anos depois, em 1925, Apporelly estreou seu trabalho no jornal recém criado O Globo de Irineu Marinho, antecessor do atual monópolio golpista de comunicação.

Após a morte de Irineu, o autor foi convidado por Mario Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, para escrever para o jornal “A Manhã”. No final deste mesmo ano, já estava nas primeiras páginas com seus sonetos sobre a situação política da época, em especial sobre uma personagem política local. No ano seguinte tornou-se colunista do jornal com a sua coluna icônica ” A Manhã tem mais…”. Não demorou muito para que ele criasse seu próprio jornal denominado “A Manha” que nos anos seguinte se tornou o maior jornal humorístico brasileiro.

Com títulos como “Quem não chora não mama”, a crítica política e a expressão do humor dirigido nos versos sobre as principais personagens da política nacional foram imortalizados na história do jornalismo brasileiro. Aos poucos, o jornal tornou-se independente, o que contribuiu para a liberdade de crítica e de expressão, dois componentes fundamentais para a política e para o jornalismo.

Em 1930, quando Getúlio Vargas caminhava até a capital federal, até então Rio de Janeiro, na Revolução de 1930, a imprensa brasileira marcava o encontro das tropas na cidade de Itararé no Sul do estado de São Paulo. Para evitar o que seria “a batalha mais sangrenta da América Latina”, foram feitos diversos acordos.

Pela batalha que não houve, a crítica do jornalista foi se autoproclamar Barão de Itararé. A piada ficou famosa e o título nobilitário se tornou um apelido permanente até sua morte. Fundou em 1934 o Jornal do Povo e nos dez dias de atividades publicou trechos da história de João Cândido, o herói negro da revolta da chibata. Logo após, foi sequestrado em represália por oficiais da marinha. A Manha permaneceu sendo publicado até 1935, quando o “Barão” foi preso por envolvimento com o partido comunista brasileiro, o PCB. O jornal seria publicado com frequência irregular até 1959.

Como crítico que foi, a liberdade de expressão foi sua grande aliada e permitiu que suas contribuições, muitas delas críticas ácidas, fossem influentes o suficiente para serem imortalizadas. Hoje, com a cultura do “cancelamento”, ou seja, da censura por razões subjetivas, não poderia existir uma tão profunda crítica, principalmente porque muitas das críticas de Barão de Itararé eram dirigidas diretamente aos figurões da época. Suas críticas eram piadas , um dos mais frequentes alvos dos inquisidores atuais e que rende processos até mesmo para humoristas. Mas é da simplicidade da piada que está o essencial: suas críticas eram concretas e acessíveis ao leitores populares.

Portanto, hoje, com todo o julgamento inquisidor dentro e fora da internet, gênios consagrados da comunicação como Apporelly não teriam sua liberdade política, de criação e expressão respeitadas. Obviamente, isto é uma grande perda para o desenvolvimento da consciência política da população pois, quanto mais restrito forem os meios de comunicação, mais controlados pelos inimigos do povo eles são. Neste sentido, a campanha de cancelamento é um desserviço por clamar censura sobre o debate público, o que impossibilita que temas importantes sejam discutidos e relega a comunicação à manipulação da burguesia.

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