De onde vem o identitarismo
A ideologia serve para encobrir os verdadeiros promotores da opressão do negro
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Fórum Econômico Mundial de Davos ocorreu virtualmente em 2021 | Foto: World Economic Forum/Pascal Bitz
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Fórum Econômico Mundial de Davos ocorreu virtualmente em 2021 | Foto: World Economic Forum/Pascal Bitz

A suprema injustiça consiste em parecer justo não o sendo, assim afirma Glauco a Sócrates no livro II da República de Platão, que trata da Justiça ou melhor de suas vantagens e desvantagens para a vida feliz. A máxima de Glauco a Sócrates ao tentar mostrar que é mais proveitoso ser injusto do que justo, serve, contudo, abstraído seu contexto, muito bem para descrever um fato contemporâneo: a ideologia identitária.

Fazer passar os piores opressores da humanidade, inimigos dos trabalhadores do mundo inteiro, e em particular dos negros, responsáveis diretos por todas as suas mazelas, por respeitáveis promotores da luta antirracista, antissexista, anti-LGBTfobia e do combate a desigualdade, eis a deplorável tarefa desta ideologia identitária e da política dela decorrente. Tornar o injusto, justo.

Um caso chocante e recente diz respeito ao negro. De 25 a 29 de janeiro ocorre a semana Davos, evento do Fórum Econômico Mundial (FEM), organização imperialista que agrupa as grandes empresas do imperialismo e líderes mundiais a pretexto de discutir os problemas econômicos e sociais do planeta. Por conta da pandemia o evento dos grandes magnatas do capital imperialista e seus representantes políticos, acontece de maneira virtual, o evento presencial anual foi transferido da cidade de Davos, na Suíça, para Singapura e ocorrerá em maio.

Já no primeiro dia o FEM lançou uma coalizão “antirracista”, na qual 48 gigantes, incluído Google, Coca-Cola, MasterCard, dentre outras, se comprometem a melhorar a justiça racial e étnica no ambiente de trabalho, o “Partnering for Racial Justice in Business” (Parceria para Justiça Racial nos Negócios, em tradução livre). Trata-se da tão alardeada pelos identitários mudança de práticas, transforma-se assim o problema do negro em mera questão de consciência e os responsáveis pela opressão do negro e de muitos outros povos e “raças” no mundo, uma vanguarda da consciência antirracista.

A política que ideologia identitária postula, de correção dos meios, por assim dizer, superestruturais, como a forma de combater o racismo, uma vez que reduzem o problema da opressão do negro ao racismo, tem por objetivo, de um lado promover uma aproximação entre setores opostos, oprimidos e opressores, como se estes dois polos não lutassem um contra o outro, um pela sua libertação outro pela manutenção de seus privilégios oriundos da opressão de outrem, mas como se lutassem juntos contra uma  forma de consciência antiquada, o racismo.

De outro, ao reivindicar maior espaço para o negro, e não sua libertação total, que levaria necessariamente aos fundamentos da sociedade capitalista, privilegiam a camada dessa população oprimida que poderá usufruir deste espaço, caso ele aumente de fato; assim a pequena-burguesia negra ao reivindicar o identitarismo advoga em causa própria, pois são eles mesmo os beneficiários da representatividades, da ocupação dos espaços de poder e comando e não as massas negras paupérrimas.

A política identitária é uma arma que a burguesia imperialista se vale para cooptar um setor do povo negro oprimido e para distensionar a luta de classes; criando falsas soluções, falsas lutas, engajando pessoas, muitas vezes de sinceras, que querem lutar, em uma política confusa, diversionista e sem perspectiva política alguma.

Evidentemente, da parte da Fórum Econômico Mundial, que é uma organização imperialista, é pura demagogia, nem mesmo a política limitadíssima de abertura para os negros nos altos cargos ocorrerá, uma vez que medidas como essa levariam a uma crise com os brancos que são privilegiados pela opressão racial do negro. Mas ainda sim, mesmo que ações como essa fossem tomadas, o que não nos opomos, seriam completamente inócuas do ponto de vista da situação do negro em geral.

O problema do negro, diferentemente do que afirma os identitários , não se resume ao racismo, esse não é mais do que uma consequência dele. O problema da opressão do negro tem um fundo econômico e está relacionado com o desenvolvimento do capitalismo.

A chamada acumulação primitiva de capital que permitiu a revolução industrial e a moderna sociedade capitalista consumiu uma parcela enorme dos negros nas fazendas de cana de açúcar e outros gêneros na América. A expansão do imperialismo em luta pelo mercado mundial privou a África de suas riquezas e do desenvolvimento econômico normal, foram reduzidos a colônias; sua riquezas e o trabalho de seu povo explorados pelos grandes monopólios, muitos dos que hoje proclama práticas antirracistas.

A igualdade, a liberdade e a fraternidade, ideais do liberalismo nascente não se realizaram para a esmagadora maioria das massas, em particular para o negro, ao incorporar o negro, a moderna sociedade capitalista tem o mantido na soleira da sociedade na América e na África em beneficio do sistema. O valor que burguesia imperialista lucra, seja diretamente pelos baixos salários do negro e o peso que esse exerce no valor da mão de obra no mundial, seja pelo não investimento estatal necessário a incorporação do negro, seja pelas riquezas roubadas ou pelos pesados juros impostos pela agiotagem imperialista na África, ainda está para ser valorado.

O resultado desta situação de opressão, do ponto de vista da consciência, é o racismo, que é uma forma irracional de compreensão e justificação da situação de fato, que a burguesia estimula profundamente, embora a situação não permita que faça de maneira direta, como em outros momentos da história o fez.

Nesse quadro é que a burguesia impulsiona a ideologia identitária , apresentando a si mesma, e para isso cooptando uns membros do setor oprimido a corroborar, não como os responsáveis pela situação de fato, os responsáveis pela rebaixamento salarial do negro, pela perseguição estatal ao negro, pelo saque constante as riquezas dos países negros, pela marginalização do negro, pela falta de cultura escolar do negro, pela política neoliberal que levou o povo negro a uma situação limite em todo mundo, mas como pessoa que se solidarizam com a luta antirracista e que condenam o racismo.

Assim muitos capitalistas dissimulam sua responsabilidade no fato, adotando uma linguagem antirracista, politicamente correta, condenando em palavras o racismo, fazendo campanha ideológica sobre o negro, se colocando como um aliado na luta antirracista, tudo isso, evidentemente apoiado na ideologia identitária e nos identitários que os aplaudem.

Assim chegamos ao cúmulo do cinismo, os grandes monopólios – muitos, como a Cola-Cola, acusados diretamente de manter trabalho escravo, muitos destes monopólios que apoiaram golpes de estado na África, que apoiaram a política neoliberal, muitos acusados de exploração de trabalho infantil negro – se juntarem no FEM para lançar uma campanha antirracista sendo eles parte dos mantenedores da opressão do negro em escala global. Ao propor que é mais proveitoso ser injusto do que justo e que a injustiça perfeita é parecer ser justo não o sendo, ou seja o problema da justo seria questão aparência, Glauco conta a história do anel de Giges, que daria o poder de ser invisível a quem o possuísse, assim poder-se-ia, em posse do anel, cometer as maiores injustiças em beneficio próprio e mesmo assim parecer aos olhos dos outros o mais justo dos homens, a ideologia identitária tem a mesma função do anel de Giges no discurso de Glauco.

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