Golpe à vista?
Artigo da revista The Economist escancara a política imperialista que aguarda os países oprimidos com a posse de Joe Biden nos EUA
capa the economist joe biden
Capa da The Economist com o título "Porque precisa ser Joe Biden" | Foto: The Economist
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Capa da The Economist com o título "Porque precisa ser Joe Biden" | Foto: The Economist

No dia 14 de janeiro a revista britânico “The Economist” publicou um artigo com o título “Joe Biden mudará marcha na América Latina”, republicado no dia 20 pelo jornal golpista Estadão.

Como já é de costume, é possível identificar alguma palavras-chaves do vocabulário imperialista que logo denunciam o caráter reacionário e oportunista do artigo: “Venezuela“, “Cuba”, “ditadura”, “corrupção”, “crise humanitária”, “populismo”, “democracia em retrocesso” e “governos autoritários” são algumas delas.

A revista já é uma conhecida voz do imperialismo, dos especuladores internacionais, dos bancos e capitalistas britânicos. Além disso, abertamente apoiou o candidato do Partido Democrata dos EUA, Joe Biden, para a presidência do país, chamando-o de “um bom homem que restauraria a estabilidade e a civilidade à Casa Branca”.

No mesmo sentido, a The Economist pede a Biden para que “resgate a democracia” na América Latina se baseando em dados estatísticos que afirmam que, desde 2010, houve uma queda drástica no “índice de democracia” de determinados países da região — apenas esquecem de falar que são eles mesmos as causas para a desgraça vivida pelo povo latino americano.

O artigo começa “rasgando elogios” para Biden, afirmando que ele “não tem o estilo intimidador de Trump” e “promoverá o estado de direito e esforços para combater as mudanças climáticas” (afinal, não poderia faltar uma demagogia). O texto também realça que Joe Biden terá sua consideração exigida para “emergências regionais, da migração em massa à cada vez mais fechada ditadura na Venezuela”, além de compartilhar “do consenso pré-Trump segundo o qual a estabilidade na vizinhança depende do estado de direito, de uma sociedade civil forte e de um capitalismo mais justo”.

Destacando (e lamentando) a falta de atuação de Donald Trump — do Partido Republicano, eleito em 2016 — no terreno internacional, o artigo afirma que “o mundo de Biden considera equivocada uma visão que restringe a promoção da democracia a três países”, em referência ao que teria sido feito por Trump: “promover a democracia” não ia além dos limites do que o texto chamou de “tríade da tirania”, Cuba, Nicarágua e Venezuela — três dos inúmeros países oprimidos que são esmagados pelo imperialismo dia após dia e, por divergirem da política imperialista e tentarem fugir dela o máximo possível, são bombardeados de calúnias e bloqueios econômicos, piorando imensamente a situação de sua população.

Na mesma linha demagógica de “levar democracia” à América Latina, Biden afirma um investimento de US$ 1 bilhão ao ano para “melhorar as condições da América Central”. De acordo com o The Economist, o novo presidente dos EUA deverá desfazer “pactos de Trump com os três países do Triângulo Norte da América Central — Guatemala, Honduras e El Salvador — segundo os quais os EUA podem enviar imigrantes de volta a esses países”. Mas qual seria o motivo de tudo isso? A resposta é logo avistada: “A corrupção está cada vez pior no Triângulo Norte”!

A outra parte da América Central não está em melhores condições nas mãos de Biden: até López Obrador, presidente do México e um conciliador de primeira categoria, é acusado de ser “insustentável” por exigir o monopólio estatal do petróleo mexicano, ou seja, por defender elementos cruciais da soberania de seu próprio país em vez de minar o país com empresas de sustentabilidade americanas. De acordo com o texto, ele terá que enfrentar a “pressão verde de Washington”.

É claro que o Brasil não estaria fora desse bolo todo de ameaças e pedidos dos bancos britânicos ao mais novo presidente dos EUA: Joe Biden vai criar um fundo de US$ 20 bilhões para “proteger a Amazônia”, mas Bolsonaro teria afrontado a ideia por achar tal medida um ataque à soberania nacional — sabemos que essa é também mais uma demagogia de Bolsonaro, mas nem por isso a afirmação deixa de ser verdade.

Biden vai retomar a luta por melhor governança. Embaixadores americanos farão pressão sobre governos para nomear juízes e funcionários honestos. O governo Biden deverá propor o estabelecimento de uma agência anticorrupção que dê conta de toda a América Central, que apoiaria promotores e procuradores-gerais, mas que seja menos invasiva do que a Cicig [Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala] e a Maccih [Missão Contra a Corrupção e a Impunidade em Honduras]. Uma lição da bem-sucedida política de intimidação de Trump a respeito da migração é que os EUA têm grande poder de barganha na região”. Em resumo, o imperialismo irá usar a cartada de sempre — a da corrupção — para colocar quem quiser, em qual cargo quiser e em que país quiser com seu “poder de barganha” — leia-se ameaça, sanções, bloqueios, calúnias e diversos outros abusos cometidos pelos EUA em caso de desvio da política exigida pelo imperialismo.

A “cereja do bolo” do artigo é a tentativa de mascarar o conflito entre frações da burguesia dentro do mais notório país capitalista do mundo e o principal representante do bloco imperialista:

Para Bolsonaro e alguns outros líderes da região, a mudança de rumo em Washington deve causar um solavanco. Alguns dirão que os EUA não estão em posição, hoje em dia, de repreender outros países. Mas, afirma um conselheiro de Biden, o fracasso dos ataques contra a democracia americana demonstram o valor de instituições fortes. Se os EUA são capazes de superar esses ataques, também poderão ser capazes de ajudar seus vizinhos a fazer o mesmo.

Em suma, assim como já afirmado diversas vezes por este Diário,  Biden é o representante da burguesia imperialista e é uma ameaça gritante para os povos oprimidos de todo o mundo. Sua posse — apoiada pela esquerda pequeno-burguesa — representa um passo importante para a recuperação do regime imperialista americano e o consequente esmagamento do tradicional quintal dos EUA: a América Latina. 

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