Ataques a exposições de obras de Picasso: a direita é ignorante e destruidora da cultura

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De outubro de 1971 a 1975, cidades espanholas foram palco de ataques anticulturais por parte da extrema direita.

No início, foram alvos livrarias, editoras, galerias que expunham obras e retratos em homenagem ao 90º aniversário de Pablo Picasso. A historiadora da arte Nadia Hernández recuperou a memória de tal onda de violência e publicou o livro intitulado Picasso em el Punto de Mira – editora Memoria Artium, em espanhol.

Para realizar esse trabalho ela contou com distintas fontes de pesquisa:  a imprensa oficial e a clandestina – documentação inédita como o arquivo pessoal de Josep Maria de Porcioles, prefeito de Barcelona entre 1957 a 1973, depositada no Arquivo Nacional da Catalunha – e entrevistou o ultradireitista Blas Piñar e Maya Picasso, filha do pintor.

“Em seu 90º aniversário, ficou em evidência o insólito de que fosse homenageado em toda a Europa, e que na Espanha fosse como se não existisse. Por isso, o governo espanhol, com Manuel Fraga Iribarne à frente, elaborou uma estratégia de recuperação para dar uma imagem positiva fora do país”, segundo a historiadora da arte. Mas a extrema direita reagiu, sobretudo pela ação do Blas Piñar – criador, em 1966, da Fuerza Nueva Editorial S.A., e em 1976 do partido radical Força Nova. “Os ataques partem de um erro. Quando Piñar fica sabendo que as gravuras da Suíte Vollard estavam expostas na galeria Theo, acha que são os mesmos desenhos de Sonho e Mentira de Franco. Escutei todos os seus discursos e quase sempre ataca Picasso. E cada vez se sucede um ataque a uma livraria ou galeria que o homenageia”, conta Nadia Hernández. No atentado à Theo foram destruídas as 24 obras expostas. Os autores do ataque entraram, amordaçaram a secretária e um estudante que estava na sala, quebraram as vitrines e jogaram ácido e tinta. Piñar foi acusado de ser o instigador.

O ultradireitista insistiu no erro a vida toda. “Em suas memórias, escritas 40 anos depois, dedica um capítulo a falar do assunto e diz, outra vez, que as obras expostas eram as das charges e justifica suas ações dizendo que eram cópias.”

Em suma, uma série de ações foram realizadas pela extrema direita espanhola, desde atos de pequena intensidade, como a quebra de vitrines e o lançamento de tinta vermelha nas livrarias Antonio Machado, Visor e Cultart, em Madri, até a destruição completa das gravuras da Suíte Vollard expostas na galeria Theo, também na capital espanhola, e o ataque com coquetéis molotov que destruíram a galeria Taller de Picasso e a livraria Cinc d’Oros, ambas em Barcelona.

Todavia, cabe ressaltar, ainda que de modo breve, que o verdadeiro inimigo da extrema direita espanhola não foi exatamente o ‘homem’ Pablo Picasso. A violência descrita acima não foi motivada meramente porque o artista foi filiado ao Partido Comunista Francês (1944 – 1960), porque empenhou-se em denunciar em diferentes obras a violência das guerras capitalistas – em 1937, pintou“Guernica” retratando a guerra civil espanhola; em 1945, pintou “O Ossuário”, denunciando o massacre nazista nos campos de concentração; em 1951, pintou “Massacre na Coréia”, desta vez se colocando contra a invasão norte-americana –, ou, ainda, porque foi  fiel às ideias do partido comunista mesmo após seu afastamento; mas a verdadeira inimiga da extrema direita espanhola (e mundial) é a obra de Picasso, leia-se a cultura socialmente legitimada. A extrema direita é inimiga da cultura!

Historicamente, ao ascender ao poder, a extrema direita busca ter controle sobre a arte/cultura, a fim de manipular a opinião pública em prol da mobilização para a guerra. Fora assim no fascismo de Mussolini e no nazismo de Hitler, por exemplo. Instrumentalizaram a arte para a propaganda de regimes assassinos. Tanto para os ditadores quanto para o ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels,  filmes, peças teatrais e musicais, artes visuais tem valor propagandístico vital às manifestações da massa. Desse modo, instrumentalizaram a arte para justificar, alimentar o monstro da barbárie.

São regimes que, quando se apropriam da cultura, destroem-na, ora no âmbito do simbólico, ora no sentido físico como o livro de Nadia Hernandez nos mostra. E por que a destroem? A nosso juízo, Picasso responde: “a arte é uma mentira que diz a verdade.” Portanto, a verdade é intrinsecamente revelada por meio da obra de arte/da cultura. Ao revelar a verdade ela se faz resistência. Ora, a extrema direita não sobrevive no mesmo espaço que a verdade. Pois a extrema direita é essencialmente fake.