A crença nos golpistas
O ex-ministro Tarso Genro, depois de pedir a Doria que conduza a luta contra Bolsonaro, também pede ajuda das Forças Armadas
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Generais sustentam Bolsonaro. | Arquivo.
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Generais sustentam Bolsonaro. | Arquivo.

O ex-ministro Tarso Genro publicou, no dia 22 de janeiro, no sítio A terra é redonda, uma coluna intitulada “A responsabilidade da instituição militar” na qual ele procura defender a tese de que parte das Forças Armadas não são coniventes com os crimes do governo Bolsonaro.

“O golpe contra Dilma e a Constituição Federal pode ter tido a simpatia de uma parte das forças militares do país, mas não foi promovido por nenhuma delas. É compreensível que o cenário de barbárie suscite a rejeição de todo o ‘sistema de poder’ montado após as eleições que levaram Bolsonaro ao poder, mas não é correto – nem tática nem estrategicamente – colocar todas as instituições no mesmo saco.”

Tarso Genro acredita que as forças militares, apesar de terem sido “simpáticas”, não promoveram o golpe. Poderíamos crer que essa posição denota uma completa ingenuidade política do ex-ministro, isso se fossemos nós os ingênuos. Na realidade, a posição de Tarso Genro é apenas uma continuidade de sua política de frente ampla, que busca reunir a esquerda detrás da direita com sob o pretexto de derrotar o fascismo, no caso do Brasil, derrotar Bolsonaro.

Para isso, na frente ampla de Tarso Genro, que já recorreu a João Doria para liderar a salvação nacional contra Bolsonaro, cabe inclusive os generais das Forças Armadas. Depois de chamar João Doria a liderar a luta contra o fascismo, Genro também apela aos generais.

Para justificar essa política, Tarso Genro atribui às Forças Armadas um papel que eles não tiveram. Apesar de terem sido “simpáticas” ao golpe elas respeitaram os “protocolos republicanos”.

“No caso, esta atribuição aos militares do Exército  pode contribuir para dar maior opacidade à política, amortecendo as responsabilidades principais do que ocorre aqui, que não foi provocado pela instituição que, no fundamental, respeitou os protocolos mínimos republicanos da nação.”

Qual a realidade dessa afirmação? Vejamos, não com base nos desejos dos que defendem a frente ampla, mas com base na realidade.

De um ponto de vista geral, um golpe de Estado não se dá sem no mínimo a conivência das Forças Armadas. Em política, em particular nos momentos de maior polarização, não existe neutralidade. Se estamos de acordo com isso, deveríamos dizer então que se houve conivência das Forças Armadas, elas estiveram diretamente ligadas o golpe.

Mas não foi apenas conivência. As Forças Armadas tiveram papel direto no golpe de Estado. A presença de generais já no governo Temer deixou claro isso. Mais ainda, se houvesse uma divergência significativa no interior das Forças Armadas, tal crise seria exposta durante o processo golpista. No entanto, o que se presenciou foi um apoio coeso dos generais.

Mas há, ainda, outro aspecto importante sobre esse tema. Há uma confusão de Genro na análise da relação entre os generais e Bolsonaro. O ex-ministro quer sensibilizar os generais que não compactuam com o bolsonarismo, mas essa política recai no mesmo erro dos que acreditam que os golpistas dos partidos tradicionais fazem oposição a Bolsonaro.

Embora haja contradições entre os golpistas tradicionais e Bolsonaro, isso não significa nem que eles têm real interesse em combater o bolsonarismo, nem que eles seriam menos fascistas do que os bolsonaristas e nem mesmo que estão dispostos a derrubar Bolsonaro.

Esse é o problema fundamental da frente ampla. É uma política que coloca a esquerda a reboque da direita mais nociva para os trabalhadores. O livro de Eduardo Cunha, escancarando os principais personagens da articulação golpista, ajuda a entender porque é falsa a ideia de que uma aliança com a direita tradicional seria capaz de combater Bolsonaro. São eles os principais responsável pela sustentação do próprio Bolsonaro.

Nas Forças Armadas ocorre exatamente a mesma coisa. Bolsonaro conta com um importante apoio dos setores baixos dos oficiais e da tropa. Os generais, provavelmente a maioria deles ou seus setores mais importantes, estão mais alinhados aos interesses da direita tradicional. Não deixa de ser uma contradição. Mas é preciso entender exatamente o que isso significa.

Os generais podem não compactuar com os excessos do bolsonarismo e até mesmo temer a influência nas camadas baixas das Forças Armadas. Isso, porém,  não significa que os generais tenham interesse em derrubar Bolsonaro, até mesmo porque, até agora, o que parece ser a política dos generais, é o temor de que um impeachment possa gerar uma crise incontrolável dentro das próprias Forças Armadas.

Nesse sentido, o papel dos generais é parecido com o dos golpistas dos partidos tradicionais. Procuram sustentar Bolsonaro ao mesmo tempo em que pressionam o governo no sentido de sua política.

Tarso Genro ignora esse problema e acredita nas boas intenções das Forças Armadas. Uma ideia tão ingênua quanto aquela que crê que elas respeitaram os “protocolos republicanos” durante o golpe.

Tarso Genro é um bom ideólogo da frente ampla entre a esquerda porque deixa bastante claras as intenções dessa política. Como deixou claro na sua carta a João Doria, é uma política que pretende colocar a esquerda a reboque da direita golpista, anulando completamente a independência política.

Não é apenas um erro de tática, mas um erro que pode levar a esquerda e suas organizações a uma catástrofe. Bolsonaro deve ser combatido com as armas da esquerda. A política da frente ampla liga a esquerda ao regime político completamente degenerado assim como estão degenerados os partidos que dão sustentação a esse regime. A participação da esquerda nesse regime só pode guardar para ela o mesmo fim: uma crise terminal.

O bolsonarismo é produto dessa crise e só pode ser derrotado através de uma política que passe totalmente por fora desse regime falido e que portanto também derrote a direita tradicional. Não dá para lutar contra Bolsonaro junto com os principais responsáveis pelo bolsonarismo.

Não há saída que não seja a mobilização real das organizações de esquerda que levante a palavra de ordem de fora Bolsonaro e de todos os golpistas e que defenda a candidatura de Lula como uma política que coloque em xeque o regime político podre da burguesia.

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