As cores da Mídia Ninja

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Essa semana uma polêmica cromática foi colocada no topo das paradas esquerdistas da internet. A ministra dos “direitos humanos para humanos direitos”, Damares Alves, declarou em um vídeo particular que “menino veste azul e menina veste rosa”, algo, digamos assim, meio besta se comparado com as devastadoras medidas inaugurais do governo Bolsonaro. Mesmo assim, a gravação viralizou entre os perfis da esquerda das redes sociais, e no mesmo dia, foi marcado um ato contra Damares em evento no Facebook, pela Mídia Ninja.

Em um passado não muito distante, quando cortejava essa mesma esquerda sem notar a gravidade das suas escolhas, eu era frequentemente convidado para atividades do que hoje é a Mídia Ninja, braço “jornalístico” do que conhecíamos como Fora do Eixo. Na época minha visão era pouco crítica sobre a atuação desse grupo, enquanto os caras tinham entrada em governos, grana para passagens, hospedagem e um certo prestígio, apesar do visual mulambento. Apesar dos discursos pouco compreensíveis e das longas brisas cosmológicas das suas lideranças, seus eventos eram bastante animados e aparentemente “combativos”, para quem não sentia o fedor da sua política.

Diferente de outros coletivos com dificuldades financeiras em meio a uma recessão econômica, a estrutura e o alcance da Mídia Ninja crescia a olhos vistos desde as jornadas de 2013, quando se notabilizaram por suas coberturas ao vivo das manifestações. Os inúmeros relatos de abusos psicológicos, presepadas financeiras e acusações de utilização de trabalho escravo fizeram a credibilidade do Fora do Eixo ruir, e a marca Mídia Ninja foi utilizada para encobrir essas acusações. Existem reportagens que investigam minunciosamente a prestação de contas do grupo, beneficiado por recursos de obscuras ONG’s estrangeiras, mas esse não é o objetivo deste texto. O foco aqui é a política levada à frente por eles.

Sua ideologia, em parceria com outras organizações menores, atraiu grande parte da militância de esquerda desde junho de 2013, e serviu para corromper o viés de classe de incontáveis organizações, de movimentos sociais a partidos políticos. Muitos militantes sérios tiveram sua atuação reorientada pelo identitarismo propagado pelos ninjas, tal como por uma pretensa integração ao sistema através da publicidade de grandes empresas, apoiados nos conceitos de empoderamento e representatividade. Estes entraram de cabeça no ultrapassado conceito de revolução cultural pacifista, meio demodê entre a classe média desde Woodstock. Finalmente, a juventude da esquerda pequeno-burguesa, desencantada com os partidos políticos graças à propaganda da imprensa golpista, encontrou lar nas fedorentas casas coletivas.

Esse processo de estruturação financeira e de criação de uma “base social” na classe média deu respaldo aos ninjas, que garantiram entrada na grande mídia, tão atacada por eles em 2013, e conquistaram a simpatia da classe artística carioca (leia-se Rede Globo). Hoje, boa parte dos papagaios dos programas “inclusivos” da emissora da famiglia Marinho, são simpáticos às “causas” da Mídia Ninja, que realiza reuniões da pauta periódicas no famoso apartamento de Paula Lavigne no Leblon, para depois despejar suas fantásticas idéias em algum programa de opinião da GNT. Um grupo que se considera a vanguarda da esquerda no Brasil, mas que não passa de uma cambada amorfa de cirandeiros neo-hippies, moleques de bigode e saia, cicloativistas veganos, feministas autoritárias, parlamentares oportunistas, artistas e músicos liberais, e todo tipo de paga-paus de publicidade burguesa inclusiva. Pessoas que enxergam a realidade do Brasil através de uma luneta, num planetinha iluminado por um solzinho sorridente, que fica bem distante da realidade da classe trabalhadora. “Liberais” nos costumes, e porra nenhuma na economia.

O presidente Lula segue como refém do regime golpista em Curitiba, Bolsonaro e sua gangue de generais neoliberais vão levar o povo brasileiro de volta para a idade da pedra, bases militares norte-americanas serão colocadas em território brasileiro, mas, o que movimentou a esquerda no início de 2019, essa esquerda infectada pela orientação ideológica da Mídia Ninja e de seus associados, foi uma declaração sobre cor de roupa de uma completa lunática. No mesmo dia, enquanto uma das lideranças dos ninjas postava um texto falando sobre as dores e delícias de ter uma bunda desproporcional, Lula escreveu uma carta à esquerda que dizia: “parem de bater boca e foquem nas questões econômicas”. Por aí temos algumas pistas de quais são as prioridades da esquerda-burguesa para o próximo período. Uma política ultra-centrista, anti-classista, que morreu com o Golpe de Estado contra o qual eles não lutaram. Uma política mais preocupada com azul e rosa do que com vermelho.