A esquerda e a crise epidêmica
Setores da esquerda nacional que sempre se recusaram a organizar a luta pelo “Fora Bolsonaro” são também responsáveis pela crise que está instalada no País
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"Foto - Reprodução" - Esquerda tem parcela de responsabilidade na crise epidêmica |

No dia 29 de outubro de 2018, um dia após a proclamação do resultado final das eleições gerais que sufragou Jair Bolsonaro como presidente da República, o Partido da Causa Operária ousou – acertadamente, como veremos – levantar a palavra-de-ordem que nenhuma outra força política de esquerda do País cogitou empunhar: o “Fora Bolsonaro”. As alegações para não exigir que o hoje criminoso e genocida presidente sequer tomasse posse se alicerçavam em considerações totalmente artificiais e descabidas, onde se podia ouvir coisas do tipo: “Bolsonaro foi eleito democraticamente”; “Bolsonaro tem apoio popular”; “é preciso respeitar o voto” “vamos aguardar as primeiras medidas” e outras baboseiras do gênero.

Não faltaram, inclusive, os dirigentes da esquerda burguesa que desejaram “boa sorte” e “sucesso” para o ex-militar  fascista, o que – por certo – representaria a desgraça do povo brasileiro.

No entanto, contrariamente ao juízo vulgar e idiotizado da esquerda nacional, o repúdio e a rejeição a Bolsonaro e seu governo neoliberal de ataques às condições de vida das massas já pode ser percebido na maior e mais importante festa popular do País, o Carnaval, que em fevereiro de 2019, nas mais diferentes regiões do Brasil, o grito que se ouviu foi “Ei Bolsnaro, vai tomar no….Várias foram as escolas de samba e blocos carnavalescos em várias cidades que desfilam entoando cânticos de críticas e chacotas ao presidente fascista. O recado das ruas, portanto, há mais de 1 (um) ano atrás já era claro, muito diferente da postura da esquerda, que nunca se dispôs a traduzir este repúdio da população em luta e enfrentamento político ao governo, assumindo a bandeira da luta pelo “Fora Bolsonaro”.

O resultado desta cegueira política da esquerda brasileira é que neste momento o Pais encontra-se às vésperas e na iminência de uma gigantesca e descomunal catástrofe, onde centenas de milhares e talvez milhões de brasileiros se encontram ameaçados de terem suas vidas destroçadas pela epidemia mundial do Coronavírus, que se dissemina rapidamente por todo o território nacional, atingindo principalmente o conjunto da população pobre, explorada, desassistida e desamparada, em todas as regiões.

Sim, Bolsonaro e sua política criminosa contra os trabalhadores é o grande responsável pelo caos que se avizinha, mas aqueles que lutaram bravamente contra a idéia de levantar a bandeira do “Fora Bolsonaro”; aqueles que sempre opuseram os mais descabelados argumentos para não organizar a luta contra os neoliberais genocidas, devem ser também responsabilizados pela crise que atormenta e ameaça toda a nação neste momento.

O fato é que cresce em todo o País, nas mais diversas regiões, o sentimento generalizado de revolta e repúdio contra Bolsonaro e seu governo, com a ocorrência de manifestações espontâneas do “Fora Bolsonaro”. Todavia, pela ausência de uma política clara que canalize esta insatisfação e repúdio para uma ação organizada e dirigida contra o governo, esta se manifesta de forma dispersa e confusa em “panelaços” e outras ações esporádicas. Setores da esquerda, que de certa forma vêem incentivando estas manifestações (panelaços) nas redes sociais são os mesmos que orientam a população trabalhadora e pobre a ficar em casa, obviamente esperando a morte chegar, pois este é o desfecho trágico e inevitável desta política, que não pode ser adjetivada com outro nome, senão a de abandono – por parte da esquerda – dos trabalhadores e da população explorada e desassistida do País.

No entanto, em função da omissão e da recusa da esquerda em organizar a luta pelo “Fora Bolsonaro”, o desfecho da crise pode ir para as mãos da direita, da burguesia, que certamente já se movimenta para encontrar uma alternativa ao desastrado e repudiado presidente fascista. No entanto, nas mãos da direita, a “solução” encontrada será uma espécie de “bolsonarismo” sem Bolsonaro, com um desfecho de impeachment, colocando na cadeira presidencial o troglodita general Mourão, militar da chamada “ala profissional do Exército”, tão ou mais fascista que o seu efetivo. Mourão significa a preservação de todos os aspectos essenciais do atual regime, de exploração e miséria, de submissão ao imperialismo, sem, contudo, manifestar as mal criações de Bolsonaro, sem a sua ignorância, sem o seu medievalismo obscurantista, sem terraplanismo, vale dizer, um ocupante mais “palatável” para o Planalto.

Desta forma, pelo fato de ter passado todo o último período sem uma política clara de enfrentamento ao governo, sem querer mobilizar as massas populares, apostando na política fracassada da “luta institucional”, a esquerda certamente se engatará ao vagão da burguesia, apoiando a alternativa dos golpistas que querem se livrar da carga incômoda que Bolsonaro passou a representar. E não nos surpreendamos se o apoio a Mourão vir mais rápido do que imaginamos, de todos os setores da obtusa, desorientada e confusa esquerda nacional.

A burguesia, a direita e todos os demais setores que apoiaram a subida do mais inepto, direitista, reacionário, fascista e incapaz presidente de toda a história republicana do País preparam o golpe, que muito provavelmente já está em curso, sem que a esquerda nacional perceba, assim como não percebeu que o desejo popular sempre foi o de se livrar do inquilino clandestino, fraudulento, do Palácio do Planalto, o que nunca foi compreendido e assimilado pela esquerda brasileira.

Ainda há tempo, mas é necessário agir com a maior celeridade, com a maior determinação. A CUT e as demais organizações de luta dos trabalhadores devem convocar imediatamente um “Congresso do Povo”, que aglutine os setores populares e de luta das mais diversas categorias para discutir e colocar em marcha um plano para o enfrentamento da crise – econômica e epidêmica – que tenha como resultado a adoção de um programa de ação que responda aos interesses e aos anseios das massas populares; que exija do Estado e do poder público a assistência médica para o atendimento das famílias operárias e populares, para a população pobre e explorada, de todo o território nacional.

 

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