Argélia: em meio à mobilização popular, imperialismo faz um reajuste político para atender a seus próprios interesses

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A Argélia vive desde o dia 22 de fevereiro grandes mobilizações populares contra o governo do presidente Abdelaziz Bouteflika. A oposição diz que ele não tem condições de governar em um quinto mandato devido a seu estado de saúde, uma vez que sofreu um AVC em 2013, somada a sua idade avançada (82 anos).

Os protestos, que já duraram quatro sextas-feiras, não cessaram com o anúncio de que Bouteflika renunciaria ao novo mandato e adiaria as eleições que estavam marcadas para o dia 18 de abril. Ele anunciou a criação de um governo de transição. Continuará na presidência ao menos até o ano que vem, mas o primeiro-ministro foi substituído e seu sucessor está encarregado de formar o novo governo, com a intenção futuro de aprovar uma nova constituição.

As manifestações são compostas por membros das classes populares mas contam com importante participação de setores da classe média e de parcelas da burguesia ligada a interesses imperialistas. A principal bandeira dos atos é a corrupção do regime, o que já indica uma demanda conservadora para os padrões populares.

Mas as classes populares têm uma expressiva participação porque a situação econômica da Argélia vem se deteriorando especialmente a partir de 2013, com a queda nos preços do barril de petróleo (o país é muito dependente da exportação de hidrocarbonetos). De 2014 para 2016, as exportações do óleo cru do país árabe caíram pela metade.

Assim, os subsídios estatais fornecidos pelo governo não conseguem conter o rebaixamento no padrão de vida do povo. Atualmente, um terço dos jovens está desempregado, o que é uma cifra muito grande para um país onde 70% da população tem menos de 30 anos.

O governo Bouteflika é caracterizado por ser um nacionalismo burguês extremamente moderado, apoiado nos militares e na oligarquia. Como tal, tem relações importantes com os países imperialistas. Por exemplo, nos últimos anos a exportação de gás para a União Europeia tem sido um fator fundamental de laços com a Europa. Na França, onde os argelinos representam a maior comunidade estrangeira com cinco milhões de imigrantes, 10% do gás consumido provém da nação africana.

Mas, por ser um governo nacionalista, muitas vezes entra em contradição com o imperialismo. Isso pode ser exemplificado com o aumento no comércio com a China nos últimos anos. A Argélia é um dos principais parceiros de Pequim na África, do qual recebe 6% dos investimentos na região e 17% de suas importações (a China é o principal país exportador para a Argélia).

Isso já pode ser o bastante para o imperialismo francês, especialmente, buscar um reajuste político na sua ex-colônia, a fim de que seus monopólios recuperem o mercado perdido. A possível saída de Bouteflika no ano que vem, bem como as reformas anunciadas, portanto, devem beneficiar o capitalismo internacional.

A Argélia pertenceu à França até 1962, quando uma revolução nacionalista levou o país do norte da África à independência. A guerra, que durou desde 1954, deixou ao menos meio milhão de mortos, dos quais muitos foram vítimas de tortura, massacres e terrorismo das forças francesas. Os paraquedistas enviados pelo governo francês atuaram de maneira muito semelhante às SS nos territórios ocupados pelos nazistas na II Guerra Mundial. Seus métodos bárbaros foram retratados no filme A Batalha de Argel (Gillo Pontecorvo, Itália/Argélia, 1966). Tanto é que, após a derrota na Argélia, os franceses ensinaram esses métodos na famosa Escola das Américas, para os militares fascistas brasileiros e de outros países sul-americanos, onde foram aplicados por suas respectivas ditaduras.

Assista ao filme A Batalha de Argel, legendado em português, e inscreva-se no canal do Diário Causa Operária no Youtube:

A organização responsável pela independência argelina foi a Frente de Libertação Nacional (FLN), que desde o início fez uso da luta armada, no campo e nas periferias das grandes cidades, particularmente da capital, Argel. Uma frente popular armada, inspirada em outros movimentos nacionalistas árabes (como o nasserismo no Egito) de países que haviam acabado de conquistar sua independência em relação à França.

O imperialismo francês já vinha sofrendo uma gigantesca decadência desde a II Guerra. No Oriente Médio e por toda a África, a França foi perdendo suas colônias, uma a uma, até o início da década de 1960. Além da Argélia, a derrota no Vietnã (1954) também foi um duro golpe para os colonialistas franceses.

Com a chegada no governo através da revolução, a FLN empreendeu uma série de reformas, como a agrária, a nacionalização de bancos e indústrias e o alinhamento à União Soviética e a Cuba, sem, no entanto, expropriar completamente a burguesia. Com o passar dos anos, o regime passou passou a fazer uma série de concessões, ainda que limitadas, à burguesia e ao imperialismo. No final da década de 1980, uma reabertura capitalista levou a uma grande crise econômica e social, com protestos poderosos e a emergência de um movimento islâmico de oposição que, devido à repressão do regime, iniciou uma luta armada que desembocou em uma guerra civil. Esta guerra preencheu toda a década de 1990 e só terminou em 2005.

Quem é considerado o responsável pela pacificação do país é justamente o presidente Bouteflika, eleito pela primeira vez em 1999.

Agora, com a nova crise (uma mini Primavera Árabe), há o temor de uma nova guerra civil. Mas, aparentemente, até o momento, embora os militares e a oligarquia não estejam dispostos a deixar o poder, a oposição pró-imperialista também não quer uma ruptura radical, atendendo aos interesses do imperialismo. Uma rearrumação política que traga a Argélia para mais próxima dos braços da França e dos outros países imperialistas parece ser a aposta da burguesia, o que, obviamente, não significaria nenhuma vitória para o povo argelino, mas sim um cenário pior em relação ao atual.