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A reboque do imperialismo
Após o golpe e instauração de ditadura, PSTU pede eleições na Bolívia
O PSTU, que apoiou o golpe no Brasil, na Ucrânia e em tantos outros países, surge agora alinhado com os golpistas bolivianos
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A reboque do imperialismo
Após o golpe e instauração de ditadura, PSTU pede eleições na Bolívia
O PSTU, que apoiou o golpe no Brasil, na Ucrânia e em tantos outros países, surge agora alinhado com os golpistas bolivianos
Luis Camacho, liderança da extrema-direita boliviana. Foto: Marco Bello/ Reuters
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Luis Camacho, liderança da extrema-direita boliviana. Foto: Marco Bello/ Reuters

O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) já ficou conhecido por adotar a mesma posição que a direita pró-imperialista em dezenas de oportunidades, como nos casos dos golpes e ataques imperialistas contra os povos ucraniano, brasileiro, sírio, venezuelano, nicaraguense etc. Dessa vez, sem causar nenhuma grande surpresa para quem tem acompanhado, nos últimos anos, as análises completamente delirantes da agremiação morenista, o PSTU saiu em defesa de eleições gerais para a Bolívia.

No dia 11 de novembro, o PSTU publicou, em seu sítio eletrônico, a declaração da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), que é uma pequena junção de organizações com a mesma política sectária dos morenistas, sobre a crise política na Bolívia. A declaração tem como centro a convocação de novas eleições na Bolívia, revindicação essa que tem sido propagada pelo PSTU por meio de seus memes:

O primeiro termo da declaração já revela a total incapacidade de o PSTU e a LIT-QI analisarem os acontecimentos de acordo com a realidade:

1 – Foi consumado um golpe contrarrevolucionário na Bolívia, dirigido por Camacho, as Forças Armadas e a polícia, que manobraram e se utilizaram de uma mobilização popular, no início progressiva, contra a fraude eleitoral feita por Evo Morales.

Logo de cara, já chama a atenção o fato de que a declaração oculta a participação do imperialismo no golpe contra a Bolívia. O golpe teria sido dirigido, portanto, por Camacho – uma figura que seria tão poderosa a ponto de destituir todo um governo que está no poder há mais de uma década – e pelos militares, que não tomaram o poder para si de imediato. Qual o sentido disso?

Luis Camacho, liderança da extrema-direita religiosa boliviana, não é nada mais que um fantoche dos capitalistas, assim como tem sido Bolsonaro no Brasil. Camacho não foi responsável pelo golpe, mas apenas um vigarista que aproveitou a sabotagem que a burguesia vinha promovendo contra o governo para, com o apoio da própria burguesia, incitar as ações dos grupos fascistas e dar uma aparência muito fajuta de insatisfação popular. Os militares, por outro lado, embora detenham um poder muito grande no regime, visto que são o braço armado do Estado, derrubaram o governo obedecendo ordens superiores – as do imperialismo, que controla a cúpula das Forças Armadas em praticamente toda a América Latina.

Ainda no primeiro termo da declaração, os morenistas defendem que houve uma fraude eleitoral na Bolívia. Mas que indícios levaram a essa conclusão infundada? O presidente boliviano Evo Morales venceu as eleições do dia 20 de outubro com uma vantagem superior a 10% em relação ao segundo colocado. A vantagem de Morales era tamanha que a própria direita não discutia se Evo Morales havia ficado em primeiro lugar ou não, mas apenas se teria havido uma fraude para impedir a realização de segundo turno. Seja como for, nenhuma fraude foi comprovada, restando o parecer da Organização dos Estados Americanos (OEA), que, além de não apresentar provas, não merece nenhuma confiança, uma vez que representa os interesses do imperialismo.

Se os morenistas insistem que houve fraude eleitoral, onde exatamente o PSTU e a LIT-QI querem chegar? Que as eleições, que mostraram uma larga vantagem de Morales, deixaram de ser legítimas por causa de algumas acusações feitas pela própria direita? Ou que o povo boliviano foi traído por um processo eleitoral injusto, que poderia ter dado a vitória ao verdadeiro candidato do povo?

Se o objetivo da declaração é afirmar que o candidato do povo seria o segundo colocado, supostamente sabotado por Evo Morales, então os morenistas consideram que o candidato Carlos Mesa seria o candidato que verdadeiramente expressaria os interesses dos trabalhadores. Nada poderia ser mais falso: Mesa é um típico representante da direita neoliberal, como o golpista argentino Mauricio Macri.

Não, o PSTU e a LIT-QI não chegam a afirmar que Carlos Mesa seria o candidato do povo – pelo menos, não diretamente. No entanto, a afirmação de que haveria uma mobilização popular contra o governo Morales mostra a dificuldade dos morenistas em fincar o pé na realidade. Não houve mobilização popular no governo, mas sim atos encabeçados pela extrema-direita – o fato de o principal líder dos protestos ser Luis Camacho é uma prova disso -, sendo impulsionados pela burguesia para parecerem maiores e mais populares do que de fato são. As manifestações na Bolívia contra a reeleição de Evo Morales eram os famosos “coxinhatos”, como aconteceram no Brasil.

Essa concepção de que as mobilizações contra o governo Morales teriam sido mobilizações “progressistas” partem de um vício dos morenistas de qualificar todos os governos nacionalistas dos países atrasados como governos da direita. O segundo termo da declaração põe essa tese em evidência:

O governo de Evo Morales era burguês, a serviço das multinacionais e da burguesia boliviana. Fez inúmeras concessões a essa mesma burguesia golpista de Santa Cruz. Manteve o apoio da maior parte do grande capital enquanto foi capaz de conter o movimento de massas. Em 13 anos no governo, não houve nenhuma mudança real na dominação capitalista do país.

Da mesma maneira como caracteriza o governo de Evo Morales como burguês, o PSTU vai fazer o mesmo com o governo Chávez/Maduro, na Venezuela, o governo Assad, na Síria, o governo Ortega, na Nicarágua, e o governo Lula/Dilma Rousseff, no Brasil. Essa tese, no entanto, vai completamente de encontro à análise da luta de classes real. Todos esses países são países atrasados e oprimidos pelo imperialismo, de modo que seus governos sempre vão ser pressionados a entrarem em choque com os interesses do imperialismo. Não é uma questão moral, de querer ou não enfrentar a burguesia internacional, as próprias condições de opressão dos países atrasados os coloca nessa posição.

Os governos que estão sendo ou já foram derrubados pelo imperialismo e são criticados pelo PSTU são, todos eles, governos que possuem relações com o movimento popular, o que faz com que a pressão das massas para que seus líderes entrem em confronto com o imperialismo se torne ainda maior. Por isso, remover os governos nacionalistas para dar lugar a um governo pró-imperialista é diminuir as contradições entre os governos da América Latina e o imperialismo, entravando a luta dos trabalhadores e promovendo o ataque a suas condições de vida.

A análise completamente invertida da situação só poderia dar lugar a uma política invertida por parte dos morenistas. Por isso, a declaração da LIT-QI, apoiada pelo PSTU, institui o seguinte eixo de luta:

“Abaixo o Golpe na Bolívia!

Por eleições livres, sem restrições!”

Embora pareça uma solução democrática, a reivindicação em torno da realização de novas eleições é exatamente aquilo o que a direita estava pedindo antes de a crise estourar na Bolívia! O golpe militar não era o “plano A” da direita pró-imperialista, visto que é uma operação de alto risco. Assim, se colocar contra o golpe militar e pedir novas eleições é uma posição pró-imperialista.

Toda a esquerda deveria ser contra o golpe militar, é fato. No entanto, aqui parece que a LIT-QI o coloca em sua declaração apenas para fazer alguma demagogia esquerdista que esconda a frente única com o imperialismo que está propondo. Na prática, os morenistas não são contra o golpe militar, pois lutar contra o golpe militar na Bolívia é lutar contra a derrubada do governo Morales, é lutar contra o imperialismo.

No Brasil, os morenistas não fizeram diferente… Para derrubar o governo do PT, toda palavra de ordem era válida – até mesmo um tal de “Fora todos” que, na verdade, significava “Fora Dilma”. Agora, com a extrema-direita no poder, se mostram incapazes de pedir o “Fora Bolsonaro”…