Resultado inevitável
Expressar-se deixa de ser um direito, de ter um caráter universal, para passar a privilégio, concedido pelo censor de acordo única e exclusivamente com seus interesses
Parler vs Google, Apple e Amazon
Parler, rede social boicotada pelos monopólios da Internet | Reprodução
Parler vs Google, Apple e Amazon
Parler, rede social boicotada pelos monopólios da Internet | Reprodução

O recente bloqueio das contas de Trump no Facebook e Twitter fez com que um amplo setor da esquerda apoiasse o maior inimigo da população mundial: o imperialismo, representado pelas empresas gigantes do monopólio da tecnologia e pelo Estado burguês norte-americano. Baseada em considerações como “incitação à violência” e “fake news”, a esquerda apoiou a censura contra o presidente de extrema-direita norte-americano, Donald Trump e a rede social Parler, ambos banidos da internet por empresas como Google, Facebook, Twitter e Amazon, com a cobertura do Estado. Essa capitulação total da esquerda diante do imperialismo, uma espécie de carta branca para a censura, entretanto, é uma espécie de pedido de repressão contra si mesma, dado que a censura, inevitavelmente se voltará contra a esquerda.

Pau que bate na extrema-direita, bate na esquerda

Em primeiro lugar, apoiar a censura, independentemente de contra quem se dirija, é uma iniciativa para generalizá-la. Pois se é possível cassar o direito de um cidadão (de direita), é possível cassar o direito de outros cidadãos (de direita e de esquerda) e até mesmo de todos os cidadãos.

Outro agravante é que Trump não é um cidadão comum. Ele é presidente dos Estados Unidos da América, ou seja, o cargo que envolve a principal figura pública do mundo. Se o direito democrático elementar da liberdade de expressão foi revogado para o presidente dos EUA, isso quer dizer que pode ser revogado para todos, principalmente para o cidadão comum norte-americano, como os trabalhadores e estudantes que saíram às ruas contra Polícia e sua brutal repressão policial, vide assassinato de George Floyd, por exemplo.

No caso dos EUA, a censura e o banimento de Trump foram feitos pelas empresas mais poderosas do mundo, com o apoio do próprio Estado imperialista norte-americano. A esquerda, por exemplo, não tem poder nenhum para censurar ninguém, logo, o que ela está fazendo é apoiar o imperialismo contra a extrema direita.

Não há como proibir só a extrema-direita

Apoiar a censura significa apoiar a destruição da liberdade de expressão! Em última instância, a existência da censura contra um significa a ameaça de censura contra todos.

Se existe censura, expressar-se deixa de ser um direito, de ter um caráter universal, para passar a ser um privilégio, concedido pelo censor de acordo única e exclusivamente com seus critérios/interesses. O critério das empresas monopolistas e do Estado norte-americano para censurar Trump – de que ele estaria incitando a violência contra as instituições do regime – poderia ser qualquer outro, pois trata-se na verdade de um pretexto para exercer seu interesse de classe, que se chocou contra Trump e a extrema direita. Isso porque na disputa pelo poder, eles acabaram denunciando a enorme fraude eleitoral para eleger Joe Biden e escancararam a ditadura que é o regime imperialista nos EUA, a maior “democracia” do mundo.

Se Trump, para se manifestar, precisa da autorização dos seus censores, não há mais liberdade de expressão. A partir de agora, qualquer cidadão americano precisará de autorização do imperialismo para se manifestar. Em outras palavras, se Trump, que é um elemento do próprio regime imperialista, um capitalista de extrema direita, foi censurado porque atingiu interesses do imperialismo, o que acontecerá com a classe operária norte-americana, esta sim a maior ameaça à burguesia imperialista norte-americana?

O fato é que a esquerda vai cair nessa censura. Sobretudo nos locais onde der vazão para as reivindicações da classe operária, ela inevitavelmente vai se chocar contra o imperialismo, dado que os trabalhadores – diante das suas condições de miséria total – tendem a se levantar contra o nível de super-exploração absurda do capitalismo monopolista.

Combate às “fake news”

Desprezando a ameaça iminente de uma verdadeira ditadura mundial, a esquerda utiliza outro argumento para apoiar a censura contra Trump: as “fake news” (notícias falsas).

No Twitter, muito antes de de ser banido completamente, Trump passou a ter suas publicações marcadas como “conteúdo duvidoso” pela empresa. Uma distorção completa, dado que o mesmo Twitter não rotula conteúdo da imprensa burguesa mundial como “conteúdo duvidoso”, apesar de ser público e notório que a imprensa capitalista é a maior máquina de mentiras e manipulação mundial.

É como se vê no Brasil, também. Onde a esquerda defende a censura contra Bolsonaro. O que Bolsonaro e a extrema direita falam é “fake news”, o que João Doria e a Rede Globo falam não, “é ciência”. Em outras palavras, se o interlocutor não tem o apoio da burguesia, é “fake news”, se tem, é “ciência”, é “notícia”, é “verdade”. O que é uma absurda fraude, dado que quando a extrema direita cumpria o papel de ponta de lança contra o PT, no golpe de Estado, suas acusações contra esquerda não eram “fake news”.

Logo, as “fake news” são uma cobertura para que o setor mais poderoso da burguesia defenda seus interesses e ataque os setores que, apesar de não serem seus inimigos, como o caso da extrema direita, tornaram-se inconvenientes.

A prova disso é que desde que essa ofensiva do imperialismo foi lançada nos últimos anos, sobretudo a partir de 2016, inúmeros sites e redes sociais de governos não alinhados ao imperialismo sofreram da censura. O canal de TV Telesur, da Venezuela (incluindo canal no Youtube do próprio Maduro), veículos de Cuba, Sputinik e RT na Rússia, veículos da Coreia do Norte, China, o canal Press TV do Irã, entre muitos outros, foram nos últimos anos pelo menos vítimas de algum tipo de censura, como bloqueio, suspensão ou mesmo exclusão completa de contas.

Com a esquerda não foi diferente. Diferente dos veículos destes países citados acima, como o caso da Telesur e da Press TV, a esquerda não possui grandes veículos de comunicação de massas. O que há é uma verdadeira guerra contra as plataformas como Google/ Youtube, Facebook, Twitter, etc. O portal Brasil 247 foi tirado do ar pelo Facebook, que durante as eleições de 2018 também bloqueou as contas de todos os editores deste Diário na plataforma.

Sem contar os casos de conhecimento mundial como Edward Snowden e Glenn Greenwald, que foram por diversas vezes vítimas da censura por parte do imperialismo e da sua repressão contra a propagação de informações que se oponham a seus interesses. Neste sentido, o apoio à censura, que a esquerda tem realizado, inevitavelmente se voltará contra ela, dado que o agente da censura é o Estado e os monopólios, que são essencialmente opostos a qualquer direito democrático da população, como a liberdade de expressão.

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