Chicote contra o povo
Prefeituras colocaram a guarda e a polícia para impedir que foliões fizessem qualquer ato de carnaval
Desfile do Bloco Mudança do Garcia durante Carnaval 2019 de Salvador
Manifestações políticas são tradição do carnaval. | Arquivo
Desfile do Bloco Mudança do Garcia durante Carnaval 2019 de Salvador
Manifestações políticas são tradição do carnaval. | Arquivo

Uma parte importante da história do carnaval é a história da luta entre as classes dominantes e o povo oprimido para tentar impor essa festa popular. Pelo menos desde que o carnaval começou a se tornar um fenômeno de massas, a burguesia procurou reprimir e carnaval em um primeiro momento e depois controla-lo.

Fato é que a burguesia tem medo da manifestação espontânea e de massas e com razão. É uma tradição do carnaval a sátira política contra o regime vigente, o que no caso do Brasil ganha contornos de grandes mobilizações de massas. Nos últimos anos, com o golpe de Estado, pudemos ver como o carnaval se tornou um grande palco de manifestações contra o golpe.

Por isso veio muito bem a calhar a pandemia para os governos da direita. Tanto em São Paulo, como no Rio de Janeiro, as prefeituras estão colocando a guarda municipal e a polícia para impedir que aconteça qualquer manifestação carnavalesca. Eduardo Paes, por exemplo, afirmou que vai tratar qualquer tentativa de formação de blocos clandestinos como crime. A prefeitura de Bruno Covas colocou viaturas nos pontos mais tradicionais do carnaval em São Paulo, como o Bixiga, para impedir aglomerações.

Essa é a tradicional política da burguesia brasileira contra o povo. Acostumada a tratar a população como escrava, a burguesia quer impor à força sua política, violando o direito do povo.

O governo está restringindo a abertura de bares por conta da pandemia, o que é feito de uma maneira simplesmente ditatorial. Mesmo assim, no entanto, isso é algo muito menos grave do que proibir as pessoas de saírem na rua. O comércio pode ser regulado, mas a rua não. Proibir as pessoas de saírem na rua é ilegal, é passar por cima de um direito fundamental. As pessoas não podem ser proibidas de irem para a rua, se movimentar e se associar. Na prática, quando essas prefeituras colocam a polícia para impedir o carnaval na força, é isso o que está acontecendo.

Uma coisa é defender que não se faça uma festa nessa situação, outra coisa é defender que o povo seja proibido de sair na rua na base da chicotada. Se existe o problema da aglomeração e isso é perigoso por conta da pandemia, a obrigação dos governos é conscientizar a população. Mas isso passa muito longe dos planos da burguesia.

Não há propaganda de convencimento para que as pessoas não vão para o carnaval, assim como não há uma política séria de combate à pandemia.

A crise do carnaval foi ocasionada pela própria burguesia. Primeiro porque não tomou nenhuma medida efetiva contra o coronavírus, segundo porque ao mesmo tempo em que quer impedir o carnaval na base da força, está fazendo campana para a volta às aulas. Pode-se estudar, mas não se pode ir para o carnaval. Na realidade, pode-se fazer tudo – estudar, trabalhar, pegar transporte público etc – só não pode sair na rua para o carnaval.

Há, ainda, o fator econômico. Não há nenhuma política séria para as milhões de pessoas que dependem do carnaval. A única solução é o chicote. No futebol, por exemplo, deram um jeito, por mais que se possa criticar a maneira como estão fazendo, mas por que no caso do carnaval não se procurou as pessoas envolvidas para pensar em uma saída para o problema?

Mais uma vez, a solução da burguesia é o chicote. É preciso repetir: não importa os motivos, governar na base da repressão é fascismo.

O apoio da esquerda

Na sanha de fazer campanha para que as pessoas não saiam no carnaval, uma parte da esquerda está apoiando essa política de tipo repressiva, uma política fascista. A pandemia não pode ser pretexto para tratar o povo como escravo e violar todos os direitos do cidadão.

É preciso deixar claro que para atacar direitos fundamentais da população como o direito de ir e vir, o direito de manifestação e de expressão, seria preciso que o governo decretasse um estado de exceção. Resta saber se a esquerda deveria ser a favor que um governo da burguesia, ainda mais sob o comando da direita golpista, pudesse decretar uma situação como esta; mais ainda, decretar o estado de exceção como desculpa para impedir o carnaval.

Estamos dispostos a aceitar que o governo golpista decrete o Estado de exceção por causa do carnaval? Claro que não! Se não estamos de acordo com isso, por que, então, deveríamos aceitar que os direitos fundamentais do povo sejam atacados usando a pandemia como pretexto?

A atitude dos governos é na realidade típica de quem não está disposto a resolver o problema. É uma política burocrática de quem quer “resolver” o problema na brutalidade. Isso inclusive indispõe a população contra o combate à pandemia. Não seria estranho se muita gente decidisse sair à rua com raiva do poder público. E a esquerda ficaria com o mico na mão.

O carnaval demostra como foi a pandemia toda: em vez de explicar e conscientizar, a burguesia prefere tratar o povo com o chicote.

O que está acontecendo no carnaval é tudo o que a burguesia quer: acabaram com a manifestação popular, que é um desejo antigo. Aumentaram a repressão, colocaram a culpa da pandemia no povo, mais uma vez. E além de tudo isso, acabaram com o feriado da população. Com o cancelamento do carnaval, muitos patrões se recusaram a dar o feriado para o trabalhador. É uma expropriação do descanso e do lazer do trabalhador.

Uma prova de que a política repressiva é fascista é que Jair Bolsonaro, que até agora vinha fazendo demagogia e cavalo de batalha com a pandemia com os governadores, que defende desde o início a abertura total, na questão do carnaval ele se cala. Bolsonaro está de acordo com a repressão e com o ataque ao direito de manifestação do povo. A burguesia está unida contra o carnaval e pela repressão.

A esquerda que apoia isso é tão primitiva quanto esses senhores de engenho que é a burguesia brasileira. Se estivéssemos numa democracia, tudo isso poderia ser feito de maneira razoável, ou como a esquerda gosta de dizer, conscientizando o povo. Não usando a força policial. O domínio do Estado sobre as pessoas é típico da ideologia nazista: o Estado manda, o povo obedece e ponto final.

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