Menu da Rede

Pandemia

Ao negro se tornou impossível fazer isolamento social

Ficar em casa é privilégio de poucos. A maioria da população não pode parar de trabalhar

Tempo de Leitura: 4 Minutos

Moradores de rua ficaram totalmente expostos ao Covid-19. – Foto: Reprodução

Publicidade

A pesquisa Trajetórias Ocupacionais, publicada pela Fundação Sistema Estadual de Analise de Dados (Fundação Seade) revela que apenas “17% dos negros empregados fizeram isolamento social e trabalho remoto na região metropolitana de São Paulo”. 

A burguesia, através da sua imprensa, de maneira cínica, afirma que a culpa da disseminação do Covid-19 é do povo que não obedece o isolamento, quando, pelo que foi apresentado, 83% da população negra, por exemplo, não teve condições de realizar o isolamento social.

Na verdade, os negros já vivem um “isolamento” há tempos. Morando em periferias, longe das oportunidades de emprego e sem acesso à saúde ou educação.

Trajetórias Ocupacionais cita que “essa menor possibilidade de manter o isolamento por meio do trabalho remoto se deve ao fato de, entre os negros, ser maior a parcela em ocupações não protegidas e em atividades consideradas essenciais durante a pandemia, como transporte e serviços de limpeza”.

Segundo dados da Secretaria Municipal de Promoção e Igualdade Racial de São Paulo, a população negra está concentrada na periferia de São Paulo, onde vivem sujeitos às piores condições de vida e trabalho. 

Os bairros do extremo das Zonas Sul e Leste de São Paulo lideram o ranking dos distritos com o maior número de negros. Mas também existe uma grande comunidade negra na Zona Norte, lembrando que a Brasilândia foi o bairro com maior número de mortes no início da pandemia.

De acordo com dados, os distritos que representam os maiores números de mortes também são os que concentram a maioria da população negra.

Celso Athayde da CUFA (Central Única das Favelas) confirma que a população negra tem poucas condições de seguir em quarentena e disse “o colapso do sistema acerta em cheio os mais vulneráveis, aqueles que têm cor”.

Bairros com mais favelas concentram maior número de mortos pela Covid-19. As favelas são formadas de casas que na maioria não são divididas em cômodos, com apenas um banheiro e sempre sujeitas à falta da água, sem saneamento básico. 

Porém a mesma burguesia que culpa o povo por não cumprir o isolamento é a mesma que não hesita em solicitar serviços desses moradores. O trabalhador, para sobreviver, faz uma verdadeira via sacra diariamente para chegar ao trabalho, geralmente na região central. 

Saindo das comunidades onde não chega o transporte, a jornada não apenas é longa, mas cansativa. Aglomerados, numa situação propícia para a contaminação com o vírus Covid-19. O povo segue, pulando de ônibus, para trem, e viajando espremido em vagões lotados para cumprir trabalho presencial. 

Isso sem contar a população de rua. São catadores de lixo, flanelinhas e tantas mais funções e bicos, o trabalho de famílias despejadas, sobrevivendo nas ruas. Muitos existem, fora de qualquer estatística, não possuem RG, certidão de nascimento ou comprovante de endereço para solicitar auxílio emergencial. Este foi o maior diferencial observado na pesquisa que revelou: o auxilio emergencial proporcionaria a renda para poder sobreviver em quarentena; entre os negros, 33% receberam o auxilio, percentual superior ao de não negros (27%).

Exigir que a população de rua fique em casa, lave as mãos e mantenha distanciamento chega a ser ofensivo. Lembrando que logo estaremos no inverno. E o frio que mata todo ano? Basta dizer pra fazer isolamento térmico? O abandono é criminoso.  

De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, um trabalhador negro recebe em São Paulo uma renda média domiciliar 2,5 vezes menor do que de um cidadão branco. Nessa pandemia muitos não recebem nada. Aumentando cada vez mais a desigualdade.

Segundo a pesquisa Trajetórias Ocupacionais: a cada 100 negros que estavam ocupados em 2019, 24 ficaram sem trabalho em 2020. Sendo que metade desses ficou desempregada e a outra metade, desalentado. Imaginem os números de 2021.

A pesquisa ainda diz que os motivos quais os negros não procuram trabalho, são diferente dos não negros. 28% têm mais dificuldade, e outros 18% por problemas de saúde. Obviamente há muitos mais motivos e razões por detrás da tamanha desvantagem que a população negra vive. 

Os pequenos burgueses, iludidos desde o início da pandemia, diziam que o Covid-19 igualou a população, que seria uma oportunidade para rever conceitos, estilo de vida, prioridades. A burguesia jurava que sairíamos melhores da pandemia. Até hoje seguem revendo seus conflitos internos, planejando como viver no futuro e adaptar ao “novo normal” com melhoria na qualidade de vida. 

Enquanto isso, a “linha de frente”, formada majoritariamente pela população negra, segue sem possibilidade de fazer isolamento, e trabalho remoto, mas é indispensável para executar as atividades consideradas essenciais durante a pandemia. O transporte, entregas, estocagem e serviços de saúde que necessitamos e a limpeza, lembrando que 1 em cada 4 mulheres negras são trabalhadoras domésticas no país. 

Mas o que esta pesquisa e a realidade ao nosso redor mostra: a maioria dos vacinados não são parte da população negra e da periferia. Que segue sendo contaminada e morrendo. 

Os médicos dizem que, mesmo quando grande parte da população estiver vacinada, é fundamental que medidas de proteção — em especial o distanciamento social — sejam mantidas. Isso não vale para a “linha de frente”, que continuará sacrificando a própria vida.

E ainda há muito a ser investigado em relação a Covid-19, diferentes sintomas ainda surgem, novas variantes, que parecem ser mais letais, risco de reinfecção e sequelas a longo prazo, só que por hora um prazo indeterminado 

A pandemia na verdade só piorou a situação do negro e caiu como uma luva para esconder a mão suja de sangue desse governo golpista e assassino que tem a população negra como alvo predileto. 

Os números podem ser muito maiores, e nem o Censo vai revelar. Especialmente em ano pré-eleitoral. 

A mensagem “Vida, pão, vacina e educação” aparece em projeções e em prédios no centro da cidade de São Paulo durante a noite e a esquerda pequeno burguesa segue fazendo suas lives para arrecadar comida e temporariamente solucionar o que eles chamam de “insuficiência alimentar” e “situação de rua”. Nomes mais bonitinhos para a fome e a miséria. 

É preciso sair às ruas e exigir a quebra das patentes, vacinação em massa, auxílio emergencial para todos os trabalhadores de, pelo menos, um salário mínimo. Os atos de  1º de Maio, realizados tanto na Praça da Sé, em São Paulo, como em vários países revelou o caminho e a necessidade de se manifestar pelos direitos elementares do povo. 

Ficar em casa não resolveu e não vai resolver o cenário de descaso, e a luta do negro não pode depender da boa vontade da esquerda pequeno burguesa que só atua em redes e passa bem longe dos terminais de ônibus, do aperto nos metros, das filas para receber um prato de comida, etc.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Populares na Rede
[wpp range="last24h" limit="3"]
NA COTV

70 ANOS DA REVOLUÇÃO CHINESA - COM RUI COSTA PIMENTA (CURSO COMPLETO)

362 Visualizações 5 horas Atrás

Watch Now

Send this to a friend