Ao contrário que Bolsonaro diz, os militares deram o golpe em 1964 porque não tinham apoio popular

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Diferentemente do que é apontado pelo presidente golpista Bolsonaro, pelas atuais peças publicitárias oficiais e financiadas pela burguesia, pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas do golpe de 1º de abril de 1964, apontam que o presidente deposto pelos militares, João Goulart, contava com amplo apoio popular.

Não poderia ser, uma vez que, invocando e enfrentado o plebiscito sobre a forma e o sistema de governo do Brasil (1963), Jango obteve uma massiva votação a favor de si e do presidencialismo, com 82% dos votos, contra o parlamentarismo, implantado como arremedo de golpe, com a participação do nosso velho conhecido, o ensaboado primeiro ministro Tancredo Neves, que viria futuramente mais uma vez se imiscuir na presidência da república com a ajuda dos militares.

Os números apontam que Jango ganharia as eleições do ano seguinte, e entrevistas feitas na semana anterior deixam claro que quase 70% da população aprovavam as medidas do governo. As famosas “Reformas de Base” entre as quais encabeçavam, ainda que muito limitadamente, a reforma agrária, implantação do método Paulo Freire de alfabetização e universalização do ensino, sufrágio universal e limitação da remessa de lucros ao exterior.

A pesquisa foi encomendada ao Ibope pela Federação do Comércio de São Paulo (Fecomércio), opositora ao governo Jango, motivo pelo qual os documentos foram doados à Universidade de Campinas (Unicamp) somente em 2003, sondagens arquivadas sem serem veiculadas à época.

Uma vez que apenas recentemente foi revelado o amplo apoio popular ao governo democraticamente eleito, desmonta-se a velha e a nova farsa construída pelos militares e repetida por Bolsonaro em conluio com a imprensa golpista, esta que não divulgou os dados aos quais sempre teve acesso e como partícipe do golpe não apenas os negou, como fez propaganda dessa fraude, de que “Ressurge a democracia!” como estampou a capa de “O Globo” de 1º de abril de 1964.

Diante desses dados, fica claro que uma vez confrontado, o capital, não só por uma crise estrutural deste, mas também por um governo democrático com amplo apoio popular que apontava um caminho de reformas estruturantes, levou a burguesia a se utilizar da tríade; militares, imprensa golpista e classe média como aríete para implantação de uma ditadura militar. Isso fica ainda mais patente, uma vez que a política econômica e a sujeição dos militares ao ideário neoliberal se mostraram presentes desde o primeiro instante. Contrariando os anseios populares e subvertendo frontalmente o discurso ideológico moralista de austeridade, nacionalismo e desenvolvimentismo com os quais embasaram tanto o golpe de 64 quanto o de 2016.

Subversão esta, explicitada na destruição das instituições democráticas e direitos trabalhistas, o que possibilitou a implantação internamente no país, de um corporativismo burguês, onde ao mesmo tempo que o governo ditava o valor do salário, erodindo-o, através da manipulação dos índices de inflação e, por conseguinte, dos reajustes salariais indexados a este, influindo nos modos de organização do trabalho, constituindo-se em cartéis e monopólios.

Em outra fronte, a burocracia militar aplicava uma política de sujeição econômica total ao império, com a sucessiva prática de empréstimos vultosos de instituições estrangeiras, além de possibilitar o afluxo do capital especulativo sem barreiras, assim como da remessa de lucros.
Uma conjunção de fatores que explicam o salto da dívida externa, de 4 bilhões de dólares no pós golpe de 64, para o patamar de 100 bilhões de dólares em 1982, sob o governo Figueiredo, levando o Brasil a recorrer ao FMI. Encerrando o ciclo catastrófico da ditadura e condenando-nos a uma dívida que persiste, impagável e não auditável.

Toda essa farsa baseada nas “amplas massas” da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, estas financiadas pela burguesia, estampadas nas capas dos jornalões, numa manipulação que se repete ainda hoje, com ângulos fechados de câmeras e repetições de imagens aéreas em close, mas era algo que se via ainda mais amplificado pelo limitado acesso à informação e inexistência da imprensa alternativa para apontar a manipulação. Por fim, confrontada com os frios números do Ibope, fica claro que tratava-se de uma diminuta parcela da classe média, formada por indivíduos histéricos comprimidos entre a rapina da burguesia e a insatisfação das massas operárias.

Evidente, que embora o capital possa se utilizar dos novos meios de comunicação, estes são apenas meios, que não alteram a metodologia desenvolvida pela burguesia através do fascismo, diferindo ainda menos quanto à sua finalidade, que é a destruição das organizações populares, o único anteparo real a impedir a implantação de um sistema de extração de mais valia que possa superar em eficiência até mesmo o escravismo.

Cabe a toda a classe operária se atentar quanto a realidade de 1964 e percebê-la refletida em 2016, permanece o fato de que em ambos os casos se tratam de regimes tíbios, sem apoio popular, mas que se deixados à própria sorte, podem se agigantar. É necessária a oposição real dos trabalhadores na rua, como tem feito nossos irmãos venezuelanos, de forma a tornar impraticável tanto física quanto economicamente o aprofundamento do regime e sua conversão em ditadura burocrática.