Malandro não vacila
Também conhecido como “Embaixador dos morros e favelas”, o músico e artista Bezerra da Silva estaria completando 92 anos hoje
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Pintura a mão de Bezerra da Silva | Foto por Rafae Silva
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Pintura a mão de Bezerra da Silva | Foto por Rafae Silva

“A favela, que agora puseram um nome mais bonito: comunidade, porque o remorso é tanto. Eles sabem que o favelado é vítima de uma sociedade famigerada.” Frase de José Bezerra da Silva, o Bezerra da Silva, também conhecido como “Embaixador dos morros e favelas”, foi um cantor, compositor, violonista, percussionista e intérprete brasileiro dos gêneros musical coco e samba, em especial de partido-alto. Nascido em Recife, no dia 23 de fevereiro de 1927, hoje estaria completando 92 anos de idade, mas infelizmente veio a falecer aos 77 anos em 17 de janeiro de 2005, na cidade do Rio de Janeiro.

Bezerra foi para o Rio de Janeiro aos 15 anos de idade, fugindo da fome e apenas com a roupa do corpo. O pernambucano Bezerra da Silva acabou virando porta-voz de cronistas que retratam uma realidade na maioria das vezes cruel. Desde de que chegou na cidade carioca, começou a trabalhar na construção civil como pintor de paredes e tinha como endereço a obra no centro da cidade, onde exercia sua profissão.

Iniciou sua carreira na música pelo coco de Jackson do Pandeiro, começou, em 1950, como ritmista na Rádio Clube, onde tocava tamborim, surdo e instrumentos de percussão em geral. Gravou seu primeiro disco compacto em 1969, pela Copacabana e suas primeiras composições foram “O Preguiçoso” e “Meu Veneno”. Bezerra da Silva estudou violão clássico por oito anos.

Como ele próprio explica, sua ligação com o mundo musical se deu por causa do “medo da fome”. Diz também que a única saída que tinha era “lutar por dias melhores”, pois “tinha dias que trabalhava e não comia”. Como era cantor e compositor, com uma criação ácida, sempre atirando contra as injustiças sociais que sempre sofreu, assim como as pessoas próximas dele.

Um bom exemplo disso é a faixa “Partideiro Sem Nó na Garganta” do disco “Presidente Caô Caô”, na qual canta: “Dizem que sou malandro, cantor de bandido e até revoltado/Porque canto a realidade de um povo faminto e marginalizado”. E outra faixa também é da música “Vítima da Sociedade” de seu disco “Malandro Rife”, na qual afirma:

“Se vocês estão a fim de prender o ladrão.
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho.”

 

Suas músicas tiveram quase sempre também parcerias de outros compositores, a maioria que ele cultivava amizade há muitos anos. Seus parceiros são poetas dos morros como 1000tinho, Barbeirinho do Jacaré, Baianinho, Em Cima da Hora, Embratel do Pandeiro, Trambique, Zé Dedão, Popular P., Pedro Butina, Simão PQD, Wilsinho Saravá, Rubens da Mangueira, Pinga, Dunga da Coroa, Jorge Laureano, Adelzo Nilto, Edson Show, entre tantos outros.

Antes de se tornar neopentecostal ao final da vida, Bezerra foi ligado à umbanda, macumbeiro, filho de Ogum e assíduo frequentador do terreiro do Pai Nilo, em Belfort Roxo, sendo o rosto de uma grande parcela do povo brasileiro que não aparece nos veículos de propaganda. Já virou tese de doutorado e livro, “Bezerra da Silva: Produto do Morro”, mas permaneceu longe das imprensas burguesas, onde sempre é mostrado aquilo que se vende rápido, para depois desaparecer. Diferente da arte de Bezerra da Silva que é imortal.

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