125 anos
Revolucionário na arte, revolucionário na política
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Rivera, Trótski e Breton | Arquivo
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Rivera, Trótski e Breton | Arquivo

Há 125 anos, no dia 19 de fevereiro de 1896, nascia André Breton, um dos mais importantes nomes dos movimentos artísticos de vanguarda do Século XX.

Foi poeta e fundador do surrealismo, uma das mais revolucionárias correntes artísticas do Século XX. Procurou vincular a sua criação como escritor e suas ideias sobre a arte com o movimento revolucionário.

Breton rompeu cm o Partido Comunista, já dominado pela burocracia stalinista, e se tornou um partidário de Trótski, tendo escrito, junto com ele, o “Manifesto por uma arte revolucionária e independente”, criando a FIARI (Federação Internacional dos Artistas Revolucionários e Independentes) como forma de combater o controle da arte pelo stalinismo e o imperialismo, tanto o dito democrático quanto o fascista.

Justamente por ter sua vida e sua obra relacionada ao movimento revolucionário Breton não recebe o tratamento devido e sua importância é frequentemente obscurecida. Mais ainda, é obscurecida a sua participação política revolucionária.

Para comemorar seus 125 anos, publicamos a seguir um texto de André Breton sobre o texto de Leon Trótski, “Lênin”.

Leon Trotski:”Lenine”

De certas alusões que aqui mesmo e noutros locais foram feitas, poderia pensar-se que assentáramos, de comum acordo, num julgamento muito pouco favorável sobre a revolução russa e o espírito dos homens que a dirigiram, e que, se nos abstínhamos de críticas mais vivas a seu respeito, era menos por vontade de exercer sobre eles a nossa severidade do que para não tranquilizar definitivamente a opinião pública, feliz por ter de contar apenas com uma forma original de liberalismo intelectual igual aos tantos que já conhecera e tolerara, em primeiro lugar por daí não resultarem consequências, pelo menos consequências imediatas, e em seguida porque, em rigor, esse facto poderia ser considerado, relativamente às massas, como capaz de exercer um poder de descongestão. Não é menos verdade que, por minha parte, me recuso absolutamente a ser considerado solidário com este ou aquele dos meus amigos na medida em que pensaram poder atacar o comunismo em nome de, por exemplo, qualquer princípio – mesmo daquele, aparentemente tão legítimo, da não aceitação do trabalho. Penso efectivamente que só o comunismo, existindo como sistema organizado, permitiu que se realizasse a maior transformação social nas condições de. duração que lhe eram próprias. Bom ou medíocre, defensável ou não do ponto de vista moral, como esquecer que foi eIe o instrumento graças ao qual puderam ser abatidas as muralhas do antigo edifício e que se revelou como o mais maravilhoso factor de substituição de um mundo por outro até aí desconhecido? Para nós, revolucionários, pouco importa saber se o mundo antigo é preferível ao outro e, aliás, não chegou ainda o momento de o julgarmos. Tratar-se-á, quando muito, de saber se a revolução russa acabou, o que não creio. Acabada uma revolução daquela amplitude, acabada assim tão depressa? Já os atores novos estarão tão sujeitos a caução como os antigos? Vamos, não somos tão cépticos que nos fixemos em tal ideia. Se entre nós se encontram homens a quem semelhante receio deixa ainda hesitantes, não deixe de se dizer que me oponho a que se apropriem, pouco que seja, do espírito geral de que nos reclamamos, espírito que só deve aplicar-se para a realidade revolucionária, obrigando-nos a atingi-la por todos os meios e a todo o custo. Nestas condições, é livre Louis Aragon de informar Drieu La Rochelle, por carta aberta, que jamais gritou: Viva Lênin! mas que”o berrará amanhã, uma vez que lhe proíbem esse grito”; também eu, ou qualquer um de nós, é livre de julgar que não havia uma razão suficiente para um tal comportamento e que será dar belos argumentos aos nossos piores detractores, que são também os de Lênin, fazê-los supor que agimos apenas por desafio. Pelo contrário, Viva Lênin! mas só porque é Lênin! Compreende-se bem que não se trata de um grito que se perde, mas da afirmação sempre muito veemente do nosso pensamento.

Seria desagradável, com efeito, que em maténia de exemplo humano continuássemos conotados com o dos Convencionais franceses, e que só pudéssemos viver com exaltação esses dois anos, aliás belíssimos, após os quais tudo recomeça. Não é com um sentimento poético, por muito interessante que seja, que convém abordar um período mesmo longínquo de revolução. E temo que a cabeleira de Robespierre e o banho de Marat confiram um prestígio inútil às ideias que, sem eles, já não nos surgiriam tão claramente. Violência à parte – pois é bem essa violência que mais eloquentemente falava por eles -, há toda uma faceta do seu carácter que nos escapa; por isso a substituímos pela lenda. Mas se estamos, como creio, sobretudo à procura de meios insurrecionais, pergunto a mim próprio, e para além da emoção que eles nos fizeram inegavelmente sentir, pergunto, em termos prálticos, porque esperamos. O mesmo não sucede com os revolucionários russos,  tais como enfim os conseguimos conhecer um pouco. Aqui estão pois os homens de quem ouvimos dizer tanto mal e que nos eram apresentados como os inimigos do que ainda pode significar algo para nós, como os responsáveis de não sei que maior desastre prático do que aquele a que assistimos. Eis que, libertos de todas as reservas políticas, eles se nos apresentam em toda a sua humanidade; se dirigem a nós, já não como executores impassíveis de uma vontade que jamais será ultrapassada, mas como homens chegados ao topo do seu destino, e que subitamente se analisam, e nos falam, e se interrogam. Renúncio a descrever as nossas impressões.

Trotski recorda Lênin. E a tantas perturbações sobrepõe-se uma tão clara razão que é como se uma magnífica tempestade se acalmasse. Lênin, Trotski, o simples impacto destes nomes vai mais uma vez fazer oscilar muitas e muitas cabeças. Compreenderão? Não compreenderão? Aqueles que não compreenderem, mesmo assim aproveitarão algo? Trotski fornece-lhes, ironicamente, pequenos acessórios de gabinete: o candeeiro de Lênin no velho Iskra, os papéis não assinados que redigia na primeira pessoa e mais tarde… enfim, tudo o que permite fazer o balanço cego da história. Juraria que nada falta, em perfeição e em grandeza. Ah! é evidente que não são os outros homens de Estado, de quem aliás o povo da Europa se defende cobardemente, que poderiam ser vistos a esta Iuz!

Pois a grande revelação deste livro, e não será demais insistir, é o facto de que muitas das ideias que nos são mais caras e das quais nos habituámos a fazer depender estreitamente o sentido moral particular que possamos ter, não condicionam de modo algum a nossa atitude no que respeita ao significado essencial que decidimos adoptar. No plano moral em que resolvemos colocar-nos, julgamos que um Lênin é absolutamente inatacável. E se me objectarem que, segundo este livro, Lênin constitui um modelo e que os modelos não são homens, pergunto qual será aquele de entre os nossos pensadores bárbaros que terá a coragem de sustentar haver aqui e além algo a modificar nas apreciações gerais feitas por Trotski sobre os outros e sobre si próprio, e de continuar a detestar verdadeiramente este homem sem em nada se deixar impressionar pelo seu tom de voz, que é perfeito.

É necessário ler as brilhantes, as precisas, as definitivas, as magníficas páginas de refutação consagradas aos Lênin de Gorki e de Wells. É preciso meditar longamente sobre o capítulo consagrado a essa recolha de textos infantis sobre a vida e a morte de Lênin, sob todos os pontos de vista dignos de comentário, e sobre os quais o autor exerce uma crítica tão fina e tão desesperada:”Lênin gostava de pescar. Nos dias quentes pegava na linha e sentava-se à borda de água, pensando durante todo esse tempo em como poderia melhorar as condições de vida dos operários e dos camponeses.

Viva pois Lênin! E aqui saúdo humildemente Leon Trotski, a ele que pôde, sem o recurso de muitas das ilusões que nos restam e talvez sem como nós acreditar na eternidade, manter, para nosso entusiasmo, esta invulnerável palavra de ordem:”E se no Ocidente se ouvir o dobre a finados – e ele ouvir-se-á – poderemos estar então enterrados até o pescoço nos nossos cálculos, nos nossos balanços, na N.E.P., mas responderemos à chamada sem hesitação e sem demora: somos revolucionários da cabeça aos pés, fomo-lo e assim nos manteremos até ao fim.”

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