Alemanha: Merkel não tem mais condição de continuar e chanceler não vai mais se candidatar em 2021

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A chanceler alemã Angela Merkel anunciou nessa segunda (29) que pretende permanecer no comando da Alemanha até 2021, mas deve deixar a presidência de seu partido, a Christlisch-Demokratische Union Deutschlands (CDU) [União Democrata-Cristã], a partir do final deste ano. A decisão foi anunciada após uma queda de 11 pontos percentuais na votação da coalizão liderada pela CDU nas eleições regionais de Hessel – região central da Alemanha. O revés vem na esteira de uma queda similar na votação da agremiação nas eleições regionais da Baviera há duas semanas. O anúncio é visto como uma estratégia para evitar a deposição de Merkel e viabilizar a nomeação de sua sucessora, a correligionária do CDU Annegret Kramp-Karrenbauer.

Merkel é considerada uma centrista pragmática, que aplicou políticas de austeridade na União Europeia mas também que cedeu à esquerda nas crises migratórias iniciadas em 2015. Tal política oportunista – bem-sucedida desde o pós-guerra – levou à erosão de sua capacidade de agregação da direita, levando-a a buscar apoio no centenário Sozialdemokratische Partei Deutschlands (SPD) [Partido Social-Democrata da Alemanha]. Foi um movimento simultâneo ao ressurgimento do nazismo no país e de movimentos xenofóbicos e anti-islâmicos como o Patriotische Europäer gegen Islamisierung des Abendlandes (Pegida) [Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente].

À queda da direita tradicional representada pela CDU, não corresponde porém um ascenso da esquerda, nem mesmo do Partido Verde (aliado com a própria CDU em várias regiões), mas dos grupos de extrema-direita como a Alternative für Deutschland (AfD) [Alternativa para a Alemanha] – tradicionalistas e defensores de pautas anti-imigração e racistas.

As democracias burguesas estão ruindo em todo o mundo. Nos países periféricos, como na América Latina, a ascensão da extrema-direita é implementada pelo imperialismo. Nos países centrais, como a Alemanha ou os Estados Unidos, a ascensão da extrema-direita decorre da quebra da hegemonia liberal – hoje dominada capital financeiro – dentro do próprio imperialismo. É um sintoma da crise do capitalismo global, iniciada na década de 1970, e aprofundada desde 2008. As contradições produzidas por esse sistema – que sempre manteve um alto grau de intervenção em países do Oriente Médio, África, Ásia e Américas – vêm produzindo fluxos migratórios, queda de investimentos e precarização dos empregos dentro da própria Europa.

Por outro lado, se a classe trabalhadora europeia certamente vem se movendo à esquerda, tal polarização ainda não vem se refletindo com clareza em fortes movimentos político-partidários verdadeiramente populares e independentes da social-democracia burguesa – há muito apartada dos problemas fundamentais resultantes do desenvolvimento das forças produtivas.

Nas causas de tal refluxo encontram-se não apenas os resquícios de bem-estar social que ainda garantem conquistas das lutas de décadas passadas que asseguraram melhores condições de vida à população, mas também a forte dominação de valores típicos da esquerda pequeno-burguesa, como o identitarismo ou o ecologismo.

Tais crises de liderança vêm retardando, por enquanto, o ressurgimento de uma esquerda verdadeiramente revolucionária na Europa de hoje. A construção de partidos operários e revolucionários, ou seja, a organização independente da classe operária em partidos próprios nesses países e em todo mundo, é uma tarefa central para a superação da crise atual de um ponto de vista progressivo, revolucionário.