Fascismo à vista!
Eleições regionais tem baixo comparecimento nas urnas, elegem neonazistas e consolidam o crescimento do fascismo alemão em meio à crise do governo Angela Merkel.
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Alternativa para Alemanha (AfD), partido de extrema-direita, triplicou seus votos. | Foto: vfutscher/Reprodução
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Alternativa para Alemanha (AfD), partido de extrema-direita, triplicou seus votos. | Foto: vfutscher/Reprodução

Dos 14 milhões de eleitores do estado da Renânia do Norte-Vestfália, o mais populoso da Alemanha, habilitados para as eleições do último domingo (13/09), menos da metade compareceu às urnas para as eleições municipais. O fato por si só já demonstra o descrédito da política institucional e evidencia um terreno fértil para o crescimento do fascismo no país.

O circo eleitoral regional apenas confirmou a tendência de crescimento da extrema-direita: a União Democrata Cristã (CDU), partido da chanceler federal Angela Merkel seguiu estável no cenário político. O Partido Verde, uma espécie de centrão, está em ascensão, e o Partido Social Democrata (SPD) decaiu vertiginosamente.

O dado mais preocupante, entretanto, é o do crescimento alarmante obtido pelo partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) que ganhou 6% dos votos, triplicando o número de eleitores da última eleição em 2014 onde o partido registrara apenas 2,6% da preferência do eleitorado. Ou seja, cerca de 420 mil pessoas escolheram um partido fascista nas eleições regionais da Renânia.

A CDU registrou 3,2 pontos a menos do que o obtido nas eleições estaduais de 2014, permanecendo, entretanto como a legenda mais votada com 34,3% da preferencia eleitoral.

O SPD, cuja região oeste da Alemanha é um terreno eleitoral antigo, amargou mais uma queda nos votos, caindo de 31,3% para 24,3%. O partido já havia perdido o governo estadual para a CDU de Angela Merkel em 2017.

Os demagógicos do Partido Verde viram sua votação dobrar: Após obter em 2014 11,8% dos votos, dessa vez a legenda registrou 20%, confirmando uma tendência em nível nacional percebida principalmente nas eleições para o Parlamento Europeu. Na oportunidade os verdes obtiveram mais de 20% dos votos, o que consolidou a organização como a segunda força política da Alemanha.

Prelúdio para a eleição nacional

Com a crise instalada no governo Merkel e da direita tradicional alemã, a burguesia do país coloca a cavalaria para manobrar no sentido de substituir o partido do governo (CDU), caso seja necessário, tendo em mente duas opções viáveis: 1ª) o Partido Verde, que vem crescendo nas últimas eleições, para conter a polarização entre as classes socais e, 2ª) a extrema-direita fascista (hoje representada pela AfD), caso a situação política degringole para uma crise gigantesca incontornável.

Um dos candidatos a suceder Angela Merkel (CDU) é justamente o governador da Renânia do Norte-Vestfália e seu correligionário, Armin Laschet. O político conservador comemorou o resultado do partido alegando que foi o reconhecimento das medidas de relaxamento da restrição social durante a pandemia.

Os políticos do SPD, coligados de Merkel e da CDU no governo nacional, ficaram decepcionados com o resultado eleitoral do partido, eles esperavam ter uma maior votação após o anúncio de Olaf Scholz, atual vice-chanceler e também ministro das Finanças, como a candidato da legenda à sucessão de Merkel m 2021.

A coalização do SPD com o bloco conservador formado pela CDU de Merkel e pela União Social Cristã, ramificação bávara dos conservadores existe desde 2013. Após as eleições gerais de 2017 quando o partido obteve um resultado já considerado baixo para os padrões de comportamento da legenda (20,5%), iniciou-se uma disputa interna para romper o acordo selado com Merkel que estaria ofuscando o crescimento do partido.

Apenas com a saída do governo do Partido Liberal Democrático (FDP) liderado por Christian Lindner, e do Partido Verde ao final de 2017, os líderes do SPD decidiram retomar a aliança nacional para formar um novo governo de emergência.

País já havia eleito um neonazista em setembro

Os vereadores da pequena cidade de Waldsiedlung, perto de Frankfurt, elegeram por unanimidade Stefan Jagsch, um membro do Partido Nacional-Democrático da Alemanha (NPD) para prefeito.

O NPD é um partido ultranacionalista alemão, de matriz neonazista, fundado em 28 de novembro de 1964 em Hanôver. É considerado o sucessor do partido de Adolf Hitler.

A eleição no último dia 05 de setembro, na cidade localizada no estado de Hessen provocou protestos na Alemanha. Jagsch recebeu o voto de todos os vereadores por ser aparentemente o único interessado no cargo após o então mandatário, membro do Partido Liberal Democrático (FDP), anunciar sua renúncia em junho. O cargo estava vago há semanas.

Entre os que apoiaram a eleição do neonazista para a prefeitura estão membros da União Democrata Cristã (CDU) – partido da chanceler Angela Merkel –, do FDP e do Partido Social Democrata (SPD).

O vereador Nobert Szielasko, da CDU, disse que Jagsch foi eleito porque não havia nenhum outro candidato mais jovem que soubesse “usar computadores e mandar e-mails”.

“O SPD tem uma clara posição: não cooperamos com nazistas. Nunca! Isso se aplica no nível federal, estadual e municipal”, afirmou o secretário-geral do SPD, Lars Klingbeil, afirmando que a escolha não é justificável e precisa ser anulada.

O secretário-geral da CDU, Paul Ziemiak, também defendeu que a eleição seja anulada. “Estou chocado. A eleição de um membro de um partido que tem objetivos anticonstitucionais é uma vergonha”, ressaltou ele ao jornal Bild.

O líder da bancada do FDP no Parlamento alemão, Marco Buschmann, descreveu o caso como duplamente ruim: “Primeiro porque democratas votaram em alguém como ele [Jagsch], segundo porque não havia candidatos democratas para assumir essa tarefa”.

Lideranças regionais das legendas também se posicionaram contra a eleição do extremista de direita. “A eleição de um membro do NPD para prefeito com a participação de titulares da CDU me horroriza muito. Qualquer democrata que abre caminho para radicais num gabinete de Estado lida com seu mandato de forma irresponsável e alheia ao dever e à história”, afirmou Peter Tauber, deputado estadual pela CDU em Hessen.

No município de Waldsiedlung, que possui cerca de 2,5 mil habitantes, os moradores parecem divididos sobre o novo prefeito. “Jagsch é muito legal. O problema é que ele pertence ao partido errado e sou contra a promoção de membros do NPD”, disse Ingo Waldschmidt. Para Karl-Heinz Boller, a votação foi um erro. “Estou indignado. Isso precisa ser corrigido”, afirmou.

O representante do SPD na câmara municipal, Ali Riza Adgas, aparentemente não viu problema em eleger um neonazista. “Eu o conheço há anos e nunca tive problema com ele”, afirmou ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung.

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