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Receita suspeita: a esquerda deve esquecer o passado e olhar o futuro
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Receita suspeita: a esquerda deve esquecer o passado e olhar o futuro
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O cientista político e professor, Aldo Fornazieri, aprofundando a política dos setores que, dentro e fora do Partido dos Trabalhadores – inclusive da direita -, insistem na tese de que uma questão central seria a necessidade do partido fazer uma autocrítica, aponta em seu artigo “O grotesco no bolsonarismo e a inépcia das oposições“, publicado no site Brasil247, repete uma série de argumentos a favor dessa mea culpa.

Segundo Fornaziere, “o PT, por exemplo, se tornou um partido nostálgico, apologético de si mesmo e de Lula e perdeu a capacidade de indicar o futuro.” Bem a calhar com a campanha golpista, amplamente divulgada pela venal imprensa capitalista, transformada em política de esquerda por setores da direita do PT  de que, neste momento, se deve abandonar a defesa de Lula, deixar de lado a denuncia do caráter fraudulento da criminosa operação lava jato, esquecer que houve um golpe de Estado no País, “virar a página do golpe” pensar no futuro, mais particularmente nas eleições futuras.

Em uma situação em que algumas das principais lideranças da esquerda se destacam por buscar uma aproximação com setores da burguesia golpista e até mesmo do governo Bolsonaro, a quem figuras como Fernando Haddad e Ciro Gomes, desejaram “sucesso”, e quando os governadores da “oposição” apoiam – de fato – a famigerada reforma da Previdência de Bolsonaro e buscam sua ampliação para roubar também os servidores municipais e estaduais, o analista destaca como uma questão importante uma suposta situação em que lideranças das oposições “têm despendido uma energia enorme em atacar o fascismo de Bolsonaro”, o que nem de longe corresponde à realidade, na imensa maioria dos casos.

Fornaziere afirma que “os partidos de oposição não convocaram nenhuma manifestação contra o governo desde o início do ano”, sem assinalar diretamente qual deveria ser a política com a qual deveria se convocar tais manifestações, já que – segundo ele – o governo não deve ser chamado de “fascista”, não se deve fazer “apologia de Lula” etc. Tampouco ele se coloca à favor de uma política marcadamente presente na situação atual, defendida pelo PCO e por um número crescente de setores (e rejeitada pela maioria das principais direções da esquerda) que é a luta pelo “fora Bolsonaro”. Para o que deveriam ser então tais manifestações “contra o governo”?

Segundo ele, as essas direções “não foram capazes de se articular na reforma da Previdência e sofreram uma derrota vergonhosa” e “não estão sendo capazes de liderar a luta contra o desemprego”, o que ele afirma sem esclarecer qual teria sido especificamente a incapacidade, quando a esquerda fez de tudo justamente para buscar uma articulação com o “centrão” (desde antes quando boa parte votou em Rodrigo Maia, do DEM), com a oposição golpista, como o PSB e PDT, que deram muitos votos para a aprovação da reforma, da mesma forma como deram votos para a deposição de Dilma; com os sindicalistas patronais que apoiaram a reforma trabalhista e, agora, sabotaram a greve geral e levaram seus partidos a votarem a favor da “reforma”, como o Solidariedade, presidido pelo deputado Paulinho da Força, que deu 13 dos seus 14 votos para o roubo das aposentadorias.

Não há nenhuma crítica à essa política de “articulação” com setores golpistas e antioperários, apenas a constatação de um óbvio fracasso, sem que se aponte a causa real do mesmo: a resistência à promover uma ampla mobilização dos trabalhadores e suas organizações, com seus próprios métodos de luta, contra a raiz de todos esses ataques, o governo ilegítimo de Bolsonaro e o regime golpista.

Assinala Fornaziere que os dirigentes da esquerda “não são capazes de formar frentes amplas em defesa das universidades, do ensino, da saúde e das instituições de pesquisa”, ao nosso ver mais uma vez, uma crítica injusta, já que realizou-se um “esforço” para juntar em uma frente contra os ataques à Educação do governo Bolsonaro, notórios defensores e praticantes da destruição do ensino público, como os ex-ministros do PSDB e MDB do setor, que fizeram muito mais pelo ensino privado e contra o ensino público do que o governo atual conseguiu realizar até o momento. O mesmo se repetiu na Saúde e em outras áreas. O que mais queria o autor?

Como os resultados da política adotada pela esquerda, são todos ruins, a “crítica” do articulista, na maioria das vezes genérica, pode parecer a muitos incautos, como sendo a reprovação dessa mesma politica, quando o que vemos é que Fornaziere gostaria de ver essa mesma política adotada de forma ainda mais profunda, o que levaria a um desastre ainda maior. Pelo menos para os trabalhadores e a juventude e maioria da população explorada, que precisam de uma alternativa real, independente da burguesia golpista na etapa atual, que vá além de fórmulas vazias e da fracassa política de capitulação diante das alternativas que a burguesia e seus analistas procuram apresentar como “alternativas” para o povo e para a esquerda.