“Estancar a sangria”
Não questionar e não enfrentar os crimes cometidos pela força tarefa é uma política capituladora diante do golpe de Estado e da fraude eleitoral
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Ex-presidente Lula, principal caniddato do País segue com os direitos políticos cassados | Reprodução: EBC
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Ex-presidente Lula, principal caniddato do País segue com os direitos políticos cassados | Reprodução: EBC

O candidato do “se…”

Em entrevista recente, Fernando Haddad afirmou que o ex-presidente Lula falara com ele para que “botasse o bloco na rua”, preparando-se para ser candidato na eventualidade do STF (Supremo Tribunal Federal) manter a cassação dos direitos políticos do ex-presidente.

Haddad foi lançado candidato pela ala direita do PT, que quer ser eleita com a anuência da burguesia e do imperialismo, evitando confrontos. O lançamento da candidatura do Haddad vem na contramão do que precisaria ser a campanha do momento. Ao invés de fazer campanha para ele, deveria ser feita uma campanha pela restituição dos direitos políticos do ex-presidente Lula.

A crise da Lava Jato é extraordinariamente grande. As revelações que apareceram são muito comprometedoras. A rigor, MPF, STF, deveriam ter tomado a iniciativa de abrir um inquérito formal para averiguar o que houve na Lava Jato.

Isto porque não é apenas um problema de processo fraudado. Trata-se de um crime contra a Justiça, contra os direitos políticos do réu (Lula), contra os direitos da população, contra o país (dado que eles se aliaram com governos estrangeiros, como EUA e Suíça). Toda uma série de medidas ilegais adotadas pela Lava Jato para condenar o ex-presidente Lula.

As últimas revelações são gravíssimas, mostram o enorme conluio de procuradores, juízes, promotores, agentes públicos buscando manipular o processo para chegar a uma condenação. Chegou-se a gravidade do procurador Deltan Dallagnol dizer que “a prisão do Lula é um presente da CIA.”

Ou seja, toda a força-tarefa deveria ser objeto de um inquérito. No entanto, o regime brasileiro não é democrático, o que não dá lugar a uma reação imediata, que é necessária.

No marco desta desmoralização total da campanha de perseguição política, ao invés de falar que é necessário desmantelar essa verdadeira quadrilha que é a Lava Jato, Fernando Haddad (PT) declarou que a operação é “uma coisa boa”, mas que o problema seriam as pessoas de Curitiba, como se o resto não fosse igualmente criminoso. Óbvio que a Lava Jato do Rio de Janeiro, do juiz golpista Marcelo Bretas, também é parte da mesma conspiração contra o povo brasileiro.

Com essas declarações, muito semelhantes as que foram feitas nas eleições de 2018, quando elogiou a Lava Jato, dá a impressão que a candidatura do Haddad é para impedir o Lula de ser candidato. Se fossem atribuídas a qualquer elemento de direita, não seria estranho.

Mas a realidade é totalmente o contrário. A Lava Jato é uma enorme conspiração contra o povo brasileiro, contra as leis, as próprias instituições etc. Porém os juízes do STF só não anulam todos os processos e indiciam os responsáveis – principalmente Moro e Dallagnol – porque estão fazendo política e sabem que qualquer julgamento minimamente democrático levaria à punição dos integrantes da Lava Jato e à restituição dos direitos políticos de Lula. Isto é uma prova clara de que eles não querem que o ex-presidente seja candidato.

Se ele for candidato desde já, a possibilidade de um candidato de direita, como Luciano Huck, João Doria (PSDB), desaparecia completamente e a burguesia teria que apoiar desde início o Bolsonaro. Esta situação levaria a uma polarização política ainda maior que a atual, demarcaria claramente os lados em disputa, servindo como um impulso a organização dos trabalhadores para se confrontarem com os golpistas e sua política.

Obviamente que se o PT lançar outra candidatura ela vai ter voto, dado que Lula sendo cabo eleitoral o candidato sempre vai ter voto e possibilidade de ir para o 2º turno. No entanto, a luta política perde a intensidade.

O que é necessário neste momento é organizar uma mobilização pela liquidação da Lava Jato, o que é um duro ataque contra a política dos golpistas de 2016, dado que a operação foi uma peça chave, utilizada o tempo todo para fazer uma campanha em favor do golpe de Estado de 2016. Logo, questionar a Lava Jato com a mobilização popular é questionar o golpe de Estado. Este é o caminho democrático e também o revolucionário para levar adiante a luta na situação política.

Por isso, não questionar, não enfrentar o que aconteceu na Lava Jato, é uma política capituladora diante do golpe de Estado. Como se vê na postura da esquerda, de minimizar tudo o que a Lava Jato fez, ter sido uma operação golpista, operada de fora do País, que tinha como objetivo derrubar a presidenta eleita, etc. Tudo isso num momento em que a operação desmorona diante dos olhos de um setor cada vez mais amplo da população.

É preciso ter a clareza de que a operação foi a ponta de lança da ofensiva dos golpistas contra a esquerda, o governo Dilma, Lula, etc. Logo, na medida que a operação desmorona, as posições dos que foram por ela perseguidos se fortalecem. Por isso, não combater a Lava Jato neste momento e ainda elogiá-la, como Haddad fez, é uma tentativa de salvar o braço jurídico do golpe de 2016.

É neste sentido que abrir mão da candidatura de Lula – como visto no fato da ala direita do PT e de setores da esquerda tratarem Haddad como candidato – é um equívoco total, pois vai justamente no sentido de “estancar a sangria”, de salvar a moribunda operação Lava Jato, que já não tem mais onde se apoiar.

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