Crise
Os sindicalistas precisam abandonar a paralisia e chamar os trabalhadores a se mobilizar sob um programa de luta real contra os patrões

Por: Redação do Diário Causa Operária

No início do ano, a Ford anunciou o fechamento de todas as suas unidades no Brasil. A situação acarretou na demissão de 5 mil metalúrgicos empregados diretamente nas unidades de Taubaté (SP), Horizonte (CE) e Camaçari (BA), a maior delas. Além disso, a tradicional unidade em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, já tinha sido fechada em outubro de 2019.

Além dos cerca de 5 mil empregos diretos que foram afetados pela saída da montadora do País, há ainda um efeito dominó. Fábricas de autopeças, fornecedoras da montadora e outras atividades econômicas que estão ligadas à produção da fábrica. Como relatado, por exemplo, pelo jornal Nacional da rede Globo, dos 2.500 cegonheiros que trabalhavam em Camaçari, 98% parou de trabalhar. A reportagem cita também a queda brusca de 50% das vendas nas concessionárias da Ford.

Isso tudo apenas para citar alguns exemplos da devastação econômica causada no País e as maiores vítimas, como sempre, são os trabalhadores.

Uma devastação econômica

O episódio da Ford não é o único no País. As demissões se agravaram durante o ano de 2020, quando os capitalistas se aproveitaram da crise da pandemia para colocar na rua milhares de trabalhadores.

Ao mesmo tempo, o governo golpista de Bolsonaro, com a desculpa cínica de evitar essas mesmas demissões que aconteceram em massa durante o ano, liberou que os capitalistas pudessem rebaixar os salários e suspender os contratos de trabalho. A medida é um crime contra os trabalhadores brasileiros, permitindo uma ilegalidade feita pelos patrões, que é a diminuição salarial.

O quadro, como está claro, é catastrófico e deve piorar. Junta-se a tudo isso o aumento vertiginoso do desemprego, chegando a 50% da força de trabalho segundo dados oficiais, a inflação, o salário mínimo reduzido, a reforma da Previdência, as privatizações.

O papel do movimento sindical

A política levada adiante por todo o movimento sindical esteve totalmente na contramão do que se esperaria de representantes dos trabalhadores.

Em primeiro lugar, não dá para esquecer a política dos sindicalistas durante a pandemia. Enfeitiçados pela campanha da burguesia do fique em casa, os sindicatos fecharam as portas. Isso enquanto os trabalhadores, que deveriam ser representados, continuavam sendo obrigados a sair de casa para trabalhar.

Alguns sindicatos, como o Sindicatos do Professores do Distrito Federal, chegaram a oferecer a sede para os governos golpistas transformarem em leitos de hospital.

Ao mesmo tempo em que esses sindicalistas fecharam os sindicatos e foram para casa, se recusavam a impulsionar qualquer tipo de mobilização real contra a política de Bolsonaro e todos os golpistas e contra os ataques econômicos sofridos pelos trabalhadores.

Sobre a a MP 936, que permitia o rebaixamento salarial, os sindicalistas foram cúmplices do governo golpista. Em matéria recente, publicada no último dia 29 no sítio da CUT, defende-se que a MP seja aprovada novamente para este ano, “nos mesmos moldes”:

“a bancada dos trabalhadores voltou a discutir esta possibilidade [de reduzir salários e suspender contratos], mas somente nos mesmos moldes da MP nº 936, em que o governo federal fazia um aporte financeiro para quem teve redução de salário ou contrato suspenso.”

Essa mesma política foi colocada em prática durante o ano passado. Os sindicalistas substituíram a mobilização pelo acordo com os patrões. Qualquer um que conhece o movimento sindical deveria saber que essas negociações funcionam assim: o patrão aponta o revólver e os trabalhadores são ameaçados a aceitar qualquer coisa.

A única negociação possível para o trabalhador é a sua força que é a sua mobilização. No entanto, o que aconteceu durante o ano de 2020, e a declaração da CUT parece prever que deve se repetir em 2021, é que os sindicatos procuraram ajudar os patrões a rebaixarem os salários dos trabalhadores. E como dito acima, isso de maneira nenhuma impediu que as demissões se espalhassem por todas as categorias.

O caso da Ford também parece prever que a política da CUT e dos sindicatos tende a ser ainda mais adaptada aos patrões em 2021.

Qual a saída?

A burocracia sindical, paralisada diante da situação, só consegue enxergar uma falsa saída para a crise, que é a busca de acordo com os patrões. Essa política torna-se cada vez mais inviável. Diante da crise, a margem de manobra é cada vez menor. Os patrões querem abrir mão de cada vez menos coisas. Ao mesmo tempo, a crise tende a colocar os trabalhadores na defensiva política e econômica.

É inegável que esta defensiva seja um fator de dificuldades para a mobilização. Isso não significa que os representantes dos trabalhadores não devam apresentar uma proposta concreta de luta e mobilização. O oposto disso é aceitar o ataques dos capitalistas até o ponto em que os trabalhadores voltarão ao regime de escravidão.

A política dos sindicalistas apenas reforça a defensiva dos trabalhadores. As demissões, o rebaixamento salarial, o corte de direitos, tudo isso favorece a paralisia do movimento operário.

Para superar essa etapa é preciso uma política que mostra qual o caminho, que chame os trabalhadores a se mobilizarem não apenas contra os patrões, mas contra a política que os golpistas estão colocando em prática.

A gravidade da situação exige medidas de força radicais. Uma greve por si só não é capaz de frear os patrões. Dois exemplos em 2020 mostram bem esse problema: a greve dos Correios, que durou cerca de um mês, mostrou uma tendência de mobilização, mas terminou com a derrota dos trabalhadores. A mesma coisa com a greve da Renault de São José dos Pinhais, na grande Curitiba, contra as demissões. A greve também mostrou enorme tendência de luta, mas acabou derrotada.

Note que há uma tendência latente de luta dos trabalhadores, o que faltou nesses dois casos foi uma iniciativa mais enérgica. As direções sindicais se preocuparam em buscar um acordo comum com os patrões, se apoiando apenas nas greve. No entanto, eram necessárias medidas de força mais radicais.

Nesse sentido, diante das demissões é necessário chamar os trabalhadores a ocuparem os setores de trabalho. Chamar demitidos e não demitidos a uma luta unificada, que coloque os patrões contra a parede. É preciso um programa de luta real contra as demissões como a estatização e o controle da produção pelos trabalhadores, a redução da jornada de trabalho sem redução salarial. Esses são apenas alguns pontos.

No caso da Ford nem mesmo a greve foi convocada o que resultou numa derrota silenciosa.

Esse programa de luta está muito longe da tentativa da CUT e demais direções sindicais de buscarem acordos com o governo golpista e os patrões que são na realidade um ataque contra a classe operária.

A burocracia sindical, em sua paralisia tradicional, costuma objetar que não há condições para essa política. Não é assim. Como explicado, há uma tendência de luta que deve ser impulsionada. Além disso, é papel das direções sindicais mostrar o caminho da mobilização, educar os trabalhadores sobre qual deve ser a política correta para enfrentar os patrões. Mais precisamente, é preciso orientar os trabalhadores no sentido da mobilização. A outra opção é a escravidão.

Send this to a friend