Confusão
Foram as disputas no interior do bloco golpista, e não a cor da pele, que fizeram o ministro da Educação abandonar o cargo
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decotelli
Presidente ilegítimo Jair Bolsonaro ao lado de Carlos Decotelli | Foto: Reprodução/Twitter

Após a saída de Abraham Weintraub do governo Bolsonaro, o oficial da reserva Carlos Decotelli foi nomeado para o Ministério da Educação. Em seu quinto dia no cargo, contudo, Decotelli acabou abandonando o governo, intensificando a crise do regime político.

Tanto a saída de Weintraub como a saída de Decotelli refletiram, no alto escalão do governo, a disputa em vigor no interior do bloco golpista. No entanto, esses acontecimentos não foram bem assimilados por um setor da esquerda. A saída de Weintraub já foi debatida em outros momentos por este Diário. Dedicaremos esse artigo à discussão dos motivos que levaram à queda de Decotelli, polemizando com o argumento levantado por setores da esquerda pequeno-burguesa de que o racismo teria cumprido, neste caso, um papel significativo.

Uma das pessoas que apresentaram essa tese foi o jornalista Leonardo Sakamoto, em seu artigo “O “surto moralizante” do governo vai derrubar apenas o ministro negro?”, publicado no dia 30 de junho. No texto, Sakamoto considera, corretamente, que Decotelli não saiu por interesse próprio do governo, mas sim que foi colocado para fora: “Decotelli se demitiu por livre e espontânea pressão”. No entanto, Sakamoto chama a atenção para o fato de que a mesma pressão que foi colocada sobre Decotelli não foi vista sobre outros elementos igualmente imorais que ocupam cargos importantes no governo:

[Bolsonaro] Deveria, portanto, aproveitar este momento “moralização” e fazer um pente-fino em todas as pastas de sua administração e não apenas nos próximos candidatos à vaga que era do espalhafatoso Abraham Weintraub….

E credita essa política a uma suposta discriminação racial ao ex-ministro:

Tem tanta coisa moralmente e eticamente errada que pode ser encontrada com uma passada de olhos sobre esse governo que fica até difícil ser irônico. O fato é que se esse surto moralizante servir apenas para o primeiro e único ministro negro, vai ficar parecendo aquilo que já está parecendo.

Como se vê, para Sakamoto, o fator decisivo para que Decotelli não permanecesse no governo seria o fato de ele ser negro. Mas qual seria o fundamento para tal afirmação? Afinal, se Bolsonaro não admite ministros negros, por que chegou a nomear Decotelli? Antes de começar a responder essa pergunta, apresentamos aqui outro artigo que aponta um outro lado da confusão que a esquerda pequeno-burguesa tem feito sobre o tema.

Quando o nome de Decotelli apareceu como o novo ministro da pasta, o portal Geledés, vinculado a organizações do movimento negro, afirmou que “Decotelli adota fala neutra, mas afirma cotas para diminuir desigualdades”. Ou seja, para o portal, Decotelli seria um direitista “mais à esquerda” que outros elementos do governo Bolsonaro, pois defenderia as cotas raciais.

Decotelli seria, portanto, aos olhos da esquerda pequeno-burguesa, um ministro “especial” dentro do governo Bolsonaro. Seja pelo simples fato de ser negro, seja pelo fato de que, supostamente, defenderia uma política favorável aos negros. Ambos argumentos podem ser facilmente refutados.

Se o fato de Decotelli ser negro representasse algum progresso, precisaríamos perguntar: qual é o progresso que foi feito quando Sérgio Camargo assumiu a presidência da Fundação Palmares? E qual o progresso que o movimento negro fez quando Fernando Holiday se tornou vereador? Ou, em último caso, o que os negros ganharam com a vitória de Barack Obama, nos Estados Unidos? Em todos esses casos, vemos claramente que colocar um negro reacionário em um cargo de confiança do regime político racista não representa, por si só, nenhum avanço para o povo negro, nem mesmo necessariamente põe em risco os planos dos capitalistas. A burguesia tolera um ministro negro, uma ministra mulher ou até mesmo um ministro indígena, dese que defenda a política genocida do governo Bolsonaro.

A suposta defesa das cotas é, por sua vez, um puro diversionismo do fato de que Carlos Decotelli é um homem vinculado aos militares e que foi escolhido pela direita para assumir o MEC. Se Decotelli de fato for a favor das cotas, isso não teria influência alguma em sua gestão: Decotelli, enquanto ministro, seria apenas um funcionário do governo Bolsonaro, e só poderia fazer o que fosse autorizado por seu patrão. Defender as cotas, portanto, é apenas uma maneira de apresentar o governo Bolsonaro como “democrático”, que toleraria um ministro que pense de maneira diferente a ele.

A queda de Decotelli não tem coisa alguma a ver com o racismo. Muito pelo contrário: colocar Decotelli no Ministério contribuiria para que o governo Bolsonaro fizesse ainda mais demagogia com o negro para aprofundar seus ataques a esse povo. Decotelli caiu por causa da crise do bloco golpista, pela disputa entre o presidente ilegítimo Jair Bolsonaro e os setores mais tradicionais da burguesia, que sabotam, de maneira muito limitada, o governo, na tentativa de firmar um acordo favorável em nome da estabilidade do regime político.

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