Esquerda cirandeira
Defender o desarmamento do povo é o oposto de ser comunista e revolucionário
PM apontando arma manifestação
Para a esquerda, só a polícia pode estar armada. | Arquivo
PM apontando arma manifestação
Para a esquerda, só a polícia pode estar armada. | Arquivo

Seria possível pressupor que um revolucionário comunista, ou seja, aquele que diz acreditar na tomada violenta do poder pela classe operária deveria defender o armamento do povo? Sim, não fosse a esquerda pequeno-burguesa, tão acostumada a defender uma coisa na teoria e fazer o completo oposto na prática.

Isso porque a esquerda pequeno-burguesa, como o próprio nome diz, segue a política da classe média que não é nada mais do que a repetição da propaganda imperialista. E é esse o problema da esquerda na questão do desarmamento.

O youtuber e militante de Internet do PCB, Jones Manoel, fez um comentário no Twitter na ocasião do decreto de armas de Bolsonaro. Segundo ele insinua, o único partido que “defende o decreto de Bolsonaro” seria o PCO, então, a polêmica sobre o caso seria desnecessária, já que ninguém da esquerda defende o armamento.

Fora o PCO, que só viaja, quem mesmo da esquerda tá comemorando o decreto de armas de Bolsonaro? Porque, na moral, é um monte de pessoas criticando “a esquerda que tá comemorando isso”, mas quem tá comemorando mesmo???

Não se trata simplesmente de “comemorar” o decreto de Bolsonaro. Na realidade, Bolsonaro está fazendo demagogia com os setores sociais que o apoiam e seu decreto é muito limitado mas não dá para ignorar que as contradições entre a extrema-direita bolsonarista e a direita tradicional acabam abrindo alguma brecha na lei antidemocrática do desarmamento.

Se o PCO defende ou não o decreto de Bolsonaro isso é o menos importante. Uma vez que o PCO defende o armamento ilimitado do povo. O que deveria estar em debate é a posição da esquerda sobre o armamento da população.

Ao criticar a posição do PCO, que estaria comemorando o decreto de Bolsonaro, Jones Manoel revela a política reformista e pró-imperialista sua e da esquerda.

A esquerda é contra o armamento do povo. Essa posição, por si só, já descredencia todos os que procuram se apresentar como revolucionários. Jones Manoel e a esquerda pequeno-burguesa acreditam que só a burguesia pode estar armada, por meio da polícia e de suas milícias, seguranças particulares, guardas e jagunços. Tal é a conclusão lógica da defesa do desarmamento do povo.

Dissemos acima que a posição dessa esquerda é reformista. Mas até mesmo para um reformista de verdade, ou seja, aquele que defende reformas no Estado capitalista e para isso é necessário defender os direitos democráticos básicos do povo, o armamento do povo deveria ser uma reivindicação.

No caso de Jones Manoel e da esquerda brasileira, trata-se simplesmente de uma posição pró-imperialista. A esquerda não tem personalidade, não tem um programa independente, por isso repete tão caninamente o que diz o imperialismo.

Quem tem interesse em desarmar o povo se não a burguesia, mais especificamente os setores mais poderosos da burguesia imperialista? A burguesia faz uma campanha incessante nos jornais e na TV contra o armamento. Mesmo com a derrota do desarmamento no plebiscito de 2005, a burguesia na prática vem restringindo cada vez mais o armamento. Fica claro que a burguesia procurou conquistar certa legitimidade para sua política antidemocrática, sendo derrotada, simplesmente passou por cima do resultado.

Em primeiro lugar, de um ponto de vista do direito burguês, a população deveria ter o direito de comprar e portar armas livremente. Isso é expressão da política seguida pela Revolução Americana e pela Revolução Francesa. Não se trata aqui, logicamente, de acabar com a opressão estatal apenas com o armamento do povo, mas com certeza esse é um direito que garante ao cidadão não ser um completo escravo.

Do contrário, como faz a esquerda pequeno-burguesa, estamos defendendo que apenas a polícia possa se armar.

Toda a esquerda pequeno-burguesa mostra que sua política não é revolucionária. Mais correto seria dizer que a política de Jones Manoel e a esquerda desarmamentista é uma política hippie, cirandeira, pacifista rasteira. Os comunistas não acreditam nas flores vencendo o canhão, porque isso é simplesmente impossível.

Aqui há uma observação bem interessante a se fazer sobre Jones Manoel. Em geral ele se apresenta como marxista, revolucionário, um “comunista raiz” ao mesmo tempo que procura desconversar quando dizem que ele é stalinista, mesmo sendo ele um ardoroso defensor de um certo stalinismo moderno. Sua posição sobre o armamento, no entanto, revela qual a realidade. Entre ser marxista, leninista e revolucionário e ser stalinista, a posição de Jones Manoel é semelhante à dos stalinistas.

Se o desarmamento não tem nada de marxismo, não se pode dizer o mesmo do stalinismo que desarmou boa parte das revoluções no mundo no Século XX com uma política abertamente contrarrevolucionária. Começando pelos próprios trabalhadores russos.

A esquerda que se diz comunista abandonou os princípios do marxismo e quer ver o povo desarmado, enquanto a burguesia está armada até os dentes. Deveria explicar como fazer a revolução sem armas. Com flores, dancinha, abraços? No fundo, embora a maioria não diga isso abertamente, a esquerda pensa exatamente assim, que com amor faremos a revolução.

Por trás dessa concepção pró-imperialista do desarmamento está uma ideologia de que o povo não poderia se armar porque é muito bárbaro para ter uma arma. Mais uma ideologia típica da classe média, que é a reprodução da campanha da burguesia. Por isso, boa parte desses esquerdistas vão dizer que são contra o armamento não por que são contra a revolução, mas porque o armamento vai significar mais violência contra o povo.

O velho argumento da briga de trânsito, que parece muito bom para um pequeno-burguês bem pensante, revela bem que o problema seria que o povo é mal educado, bruto, violento etc. Não dá para confiar no povo, só dá para confiar na burguesia, ou seja, no Judiciário e na polícia. Esse é o pensamento da esquerda pequeno-burguesa.

Como fica claro, trata-se de uma política covarde porque não confia no povo e reacionária porque acredita que apenas a burguesia seria capaz de se armar, deixando o povo totalmente desprotegido. Ignora que os sem-terra morrem aos montes no campo vítimas dos jagunços, que os trabalhadores morrem na periferia graças à essa política genocida da polícia. O povo está cada vez mais desprotegido.

A política correta é mostrar que o decreto de Bolsonaro é insuficiente e serve na maior parte apenas para os seus amigos. É preciso uma política independente, verdadeiramente revolucionária que é a defesa ampla e irrestrita do direito ao armamento de toda a população, como sempre advogaram os verdadeiros revolucionários.

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