A farsa do “mal menor”
A política do “mal maior” e do “mal menor” é uma política, na melhor das hipóteses, confusa. Na verdade, não passa de uma armadilha para jogar as massas no colo de seus inimigos
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Joe Biden, atual presidente dos EUA | Foto: Robert F. Bukaty / AP
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Joe Biden, atual presidente dos EUA | Foto: Robert F. Bukaty / AP

Após uma série de episódios  que expressam a crise do regime político norte-americano, os últimos dos quais sendo a ocupação do Capitólio e o início da votação do impeachment de Trump, Joe Biden finalmente tomou posse como presidente do EUA.

O apoio massivo dos setores fundamentais da burguesia imperialista americana ficou explícito na cobertura do conjunto da imprensa pró-imperialista tanto dos EUA quanto do resto do mundo. A tônica da cobertura estava repleta de elogios e grandes expectativas. “Volta da normalidade democrática” e governo de “união nacional” ou “reconciliação” foram algumas das qualificações mais recorrentes encontradas nas  páginas dos principais órgãos da imprensa burguesa nacional e internacional. Diante de tantas evidências, é difícil negar que Biden era o preferido da fração dominante do imperialismo.

Mas, a despeito dessas flagrantes evidências, o que se notou da parte das principais direções e organizações da esquerda, no Brasil e no exterior, foi o apoio ao candidato principal do imperialismo. Entre Trump e Biden, o coração da esquerda pendeu para o segundo. E qual a justificativa usada para isso? A boa e velha “teoria do mal menor”.

Trump seria o representante do “fascismo”, do “obscurantismo”, um típico “machista e xenófobo”, ao passo que Biden seria “apenas” um “neoliberal”, um membro da direita tradicional ou, na melhor das hipóteses, um “democrata liberal” . Colocada a questão nesses termos, a esquerda não teve dúvidas em apoiar Joe Biden contra Donald Trump.

Essa análise e a política derivada dela, no entanto, não resistem a um exame mais atento da realidade. Para se chegar à conclusão de que Trump é o “mal maior” e Biden o “mal menor”, é preciso essencialmente ignorar as relações de classe reais que dão sustentação a cada um deles, é preciso desconsiderar  a prática política real levada a cabo por eles, é preciso, no final das contas, abdicar do mundo real, material, do mundo das relações políticas, econômicas, militares etc., e se encastelar no mundo dos discursos, da ideologia, da fraseologia e da aparência. Ao fazer isso, perde-se a noção do que é o principal e do que é secundário, ou melhor, invertem-se as coisas, o principal torna-se secundário e o secundário, principal.

Analisemos a questão mais concretamente. Trump seria de fato uma ameaça mais perigosa para os trabalhadores norte-americanos e os povos explorados do mundo do que Biden? A resposta é um rotundo não. Este Diário já ressaltou essa questão em inúmeras oportunidades. Trump não seguiu a linha consagrada há décadas em relação à política exterior norte-americana: as invasões militares, os golpes de Estado, as intervenções na política dos demais países ou foram inexistentes ou foram extremamente tímidas. Isso se explica pelas reais relações de classe que o governo Trump acabou por dar expressão. Trump não era um representante dos grandes monopólios capitalistas dos EUA, os quais fornecem a base de classe para a dominação e a política intervencionista dos EUA sobre o resto do mundo. Trump, ao contrário, conferia expressão política aos setores da burguesia industrial mais ligados ao mercado interno nos EUA, o que explica também a sua política econômica protecionista e sua retórica “patriótica” (“America First”) e “antiglobalista”. Esse fato, isto é, as relações de classe em torno das quais se estrutura um governo, por si só já coloca a questão em termos muito mais concretos e reais.

Ideologicamente, Donald Trump é um fascista, um racista assumido, é parte integrante dos setores mais retrógrados e atrasados da classe dominante estadunidense, mas não conseguiu aplicar sua política de maneira completa e foi retirado do governo porque sua política não estava de acordo com os interesses dos setores dominantes da burguesia imperialista norte-americana. O que seria mais importante na hora de estabelecer uma política para a classe operária: a ideologia do indivíduo, o seu discurso, ou as relações reais que ele mantêm com a classe social que explora a população?

Vejamos a situação de Joe Biden. Na mundo das aparências, nas ações de fachada, na verborragia e na retórica, Joe Biden seria um “democrata”, até mesmo um “progressista”. Formou chapa com uma mulher negra, deu indícios de que montará “o gabinete mais diversificado da história”, não polemiza com os imigrantes, negros, gays, lésbicas e transgêneros e assim por diante. Mas quando olhamos para a sua atuação prática ao longo da sua longa carreira política, quando olhamos para os vínculos reais que ele mantém com o capital financeiro e os grandes monopólios, tudo muda de figura. Biden é um homem ligado ao aparato militar e repressivo do Estado capitalista. Seu histórico de participação e apoio a invasões militares, intervenções e golpes de Estado ao redor do mundo é de fazer inveja a qualquer mercenário que presta serviços para os países imperialistas. Participou ativamente da guerra das Malvinas, da Iugoslávia, do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Síria, da Somália, do Paquistão e da Ucrânia e dos golpes de Estado em Honduras, Paraguai, Brasil, Equador, Egito, só para citar os casos mais emblemáticos.

Apesar das manobras de aparência, que enganam boa parte da esquerda, Biden já deu mostras de como será seu governo logo nos seus primeiros dias. Anunciou que uma das prioridades da sua gestão será o combate ao “terrorismo doméstico”, mais novo pretexto, à semelhança da “guerra às drogas” e ao combate ao “terrorismo internacional”, para estabelecer todo tipo de violações e ataques aos direitos democráticos da população, bem como promover a carnificina contra os pobres e oprimidos que sempre acompanha tais iniciativas do imperialismo.

Sabatinado no Congresso, seu Secretário de Estado foi categórico em defender Jerusalém como capital de Israel, uma posição pró-Israel que acirra os ânimos no Oriente Médio e evidencia que se trata de uma política do Estado norte-americano, e não uma idiossincrasia de Donald Trump, como parecia à primeira vista. Além disso, confirmou que continuará com o apoio ao golpista Juan Guaidó na Venezuela.

O governo Biden representa o governos dos monopólios imperialistas,  o governo de Wall Street e do parasitismo especulativo, o governo dos golpes de Estado e das invasões imperialistas contra os países atrasados. Seu governo tende a ser marcado por profundos ataques contra os direitos democráticos do povo e contra as manifestações e organizações populares.

Posta a questão em suas bases reais, concretas, a partir das relações de classe e analisando a prática política, e não simplesmente o discurso e a retórica, dos dirigentes políticos e seus governos, fica evidente que Donald Trump não é o único ser maligno na política norte-americana e, tenhamos claro, está longe de ser o principal deles.

A política do “mal maior” e do “mal menor”, fundamento para o apoio a Biden contra Bolsonaro,  é uma política, na melhor das hipóteses, totalmente confusa. Trump dirigiu um governo de extrema-direita que fez muito pouca coisa do ponto de vista prático. Foi uma governo marcado por uma retórica agressiva e uma prática essencialmente ineficaz. Muito do que  se propôs a fazer, como o muro entre EUA e México, nunca saiu do papel. Ele representaria  o “mal maior” simplesmente pelo que diz.

Biden, segundo a mesma teoria, seria o “mal menor”.  Mas, conforme vimos,  o “mal menor” desfruta de amplos poderes e possui condições políticas muito mais vantajosas para fazer o mal. Na prática, o “mal menor” consiste verdadeiramente no “mal maior”, e a teoria que serviria para embasar uma política justa e adequada para defender os interesses das classes dominadas, mostra-se, com efeito, no seu oposto: uma armadilha para jogar as massas no colo dos seus maiores inimigos.

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