Reformismo barato
Dirigente do PSOL entra de cabeça na propaganda da burguesia e defende que o voto em Guilherme Boulos seria a mais importante tarefa da esquerda no momento
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
boulos
Guilherme Boulos em campanha | Foto: Reprodução

Valério Arcary, dirigente do Resistência/PSOL, um dos entusiastas da candidatura de seu correligionário Guilherme Boulos a prefeito de São Paulo, decidiu publicar mais um artigo para justificar suas posições reformistas durante as eleições de 2020. O texto, publicado em 12 de outubro pela Revista Fórum, tem como título “O caminho para derrotar Bolsonaro passa por levar Boulos ao segundo turno” e procura apresentar a tese de que a campanha eleitoral do PSOL em São Paulo seria a mais importante tarefa da esquerda no momento.

Arcary reivindica para si o título de trotskista e revolucionário. O PSOL, por sua vez, se diz socialista. Socialismo e trotskismo nada tem a ver com a política reformista e de colaboração de classes. Assim, para tentar justificar sua capitulação perante o avanço do golpe de Estado, Arcary tenta justificar da seguinte maneira o seu entusiasmo com as eleições:

“(…) eleições alteram a relação política de forças entre os partidos de forma direta. E vitórias ou derrotas eleitorais incidem na relação social de forças entre as classes”.

Trata-se de uma farsa completa. As eleições, em si, não alteram a relação entre os partidos, mas simplesmente expressam o desenvolvimento de uma luta política em curso. Seguindo o raciocínio de Arcary, seríamos forçados a concluir que o Congresso Nacional é reacionário e golpista simplesmente porque os reacionários e os golpistas foram os que conseguiram se eleger. O que nos levaria à propaganda da burguesia de que basta eleger “o candidato certo” para que o Congresso Nacional se torne uma instituição que defenda o povo.

Não, o Congresso é golpista porque a burguesia conseguiu, diante das condições, impor, goela abaixo, os seus representantes. E conseguiu isso por meio do uso do monopólio da imprensa, da corrupção, do Judiciário reacionário etc. Sabe-se lá, inclusive, se não fraudou diretamente as urnas.

A única maneira de alterar a relação entre as classes sociais de maneira favorável aos trabalhadores é, portanto, travando uma luta contra a burguesia. Uma luta em defesa de seus interesses e com seus próprios métodos. Se a esquerda ignora a necessidade de lutar contra o regime político e entra de cabeça em uma campanha para eleger um candidato, apenas está dando espaço para que seus inimigos fortaleçam ainda mais a sua dominação.

A consideração inicial de Arcary não só é vergonhosa de um ponto de vista revolucionário, pois corrobora com a ordem social vigente, mas é também um desastre de um ponto de vista minimamente tático para a esquerda.

Da política reformista, que traz a vantagem para o pequeno-burguês que quer se abster da luta política, Valério Arcary parte, no mesmo artigo, para uma crítica bizarra da política reformista do PT:

“(…) o governo liderado pelo PT em 2016 não convocou as massas às ruas quando do golpe parlamentar. O discurso de defesa que Dilma fez no Senado foi de grande dignidade. Mas, infelizmente, naquele contexto, a direção do PT não teve a clareza estratégica de que era necessário que o governo usasse todos os imensos recursos da presidência para se defender”.

De fato, a direção vacilante do PT deu uma resposta muito aquém de seu potencial ao golpe. No entanto, a conclusão de Valério Arcary para combater as vacilações do PT é… apoiar setores ainda mais vacilantes e confusos: Guilherme Boulos e Luiza Erundina. Erundina é a figura que só tem uma certa carreira na política porque foi eleita prefeita pelo PT, mas que abandonou o partido para apoiar o governo Itamar Franco e ajudar a consolidar a manobra da burguesia contra novas eleições. Boulos, por sua vez, se recusou, em vários momentos, a lutar contra o golpe, preferindo, ao invés disso, lutar contra a política do governo de Dilma Rousseff (ajuste fiscal, Copa do Mundo etc.). Não bastasse essa posição confusa diante do golpe, Boulos sabotou abertamente os atos pelo Fora Bolsonaro que ocorreram em São Paulo neste ano.

Essas incoerências são apenas a demonstração de que a política de colaboração de classes, que é a política que Valério Arcary está propondo, é uma política insustentável de um ponto de vista racional. Defender o regime político e suas eleições fraudulentas, bem como defender a candidatura de Guilherme Boulos e sua política de alianças com o Judiciário, a imprensa burguesa e Fernando Henrique Cardoso, somente é possível por meio de malabarismos como esse.

No fim de seu artigo, o dirigente do Resistência/PSOL apresenta seus maiores delírios:

“Mas o mais importante é que Boulos se consolidou como a candidatura nos setores organizados da classe trabalhadora, que foi por onde o PT se construiu nos anos oitenta. Neste momento, levar Boulos ao segundo turno é o maior desafio da esquerda brasileira. Conquistar nas grandes cidades trincheiras para deter o neofascista é a maior tarefa das eleições”.

Qual o dado concreto que Valério Arcary apresenta para justificar sua caracterização como candidato da “classe trabalhadora”? Absolutamente nenhum. Porque não há: Boulos apenas tem alguma influência, e muito pouca, sobre setores da pequena burguesia. Sua política não diz respeito aos interesses mais imediatos da população — vale lembrar que Boulos não é contra o armamento da guarda municipal — e, mais importante que isso, não está ligado a movimento algum de massas. O fato é que Boulos nem é popular, nem mesmo conhecido entre os trabalhadores. O mesmo pode ser dito do PSOL.

Por fim, entremos no último absurdo: o de que a grande “trincheira” contra o bolsonarismo seria a vitória eleitoral de Guilherme Boulos. O resultado dessa política não pode ser outro a não ser uma dispersão total e uma derrota profunda dos trabalhadores. Se acontecer de Guilherme Boulos ganhar, os trabalhadores não terão ganho algum: terão como prefeito uma figura comprometida em manter o regime e até mesmo o governo Bolsonaro de pé. E terá sacrificado uma série de oportunidades de se mobilizar contra a direita. Se perder, que é, de longe, o mais provável, permitirá a extrema-direita avançar no controle do Estado e ainda causará uma enorme desesperança, uma vez que a “solução” das eleições se mostrou inviável.

É preciso ter uma política diametralmente oposta à proposta por Arcary. A única maneira de derrotar o bolsonarismo é por meio da mobilização independente dos trabalhadores. É preciso utilizar as eleições somente como tribuna para denunciar o processo eleitoral fraudulento e para convocar os trabalhadores para lutarem pelo Fora Bolsonaro e todos os golpistas.

Compartilhar no facebook
Compartilhe no seu Facebook!
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no reddit
Reddit
Compartilhar no facebook
Compartilhe
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Relacionadas