A hegemonia do STF no Jornal Nacional

Há duas semanas, iniciei meu novo programa, o Antijornal Nacional, uma live de comentários e bate-papo com internautas, que tem como objetivo fazer um contraponto às fake news divulgadas diariamente pelo Jornal Nacional, principal telejornal do país.

Começa sempre às 21:30, de segunda a sexta.

Confesso que há muitos anos eu não assistia à tv globo, e aconselho vigorosamente aos leitores para que não dêem ibope à emissora do golpe. É melhor deixar a missão para profissionais, como modestamente eu me considero.

Uma das observações que gostaria de partilhar com vocês, a partir dessa minha nova experiência, é que o Jornal Nacional não mostra, à diferença de qualquer outro telejornal no mundo, o que diz o governo e a oposição. Michel Temer não apareceu no Jornal Nacional durante toda a semana. Um dia ou outro, aparece um ministro de estado, e apenas quando participa de uma situação em que não é possível escondê-lo.

Por exemplo: quando a Europa decidiu suspender a importação de carne de frango das maiores empresas do setor, a Globo deu alguns segundos para o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, se pronunciar. O ministro da segurança pública, Raul Jungmann, também teve aparição relâmpago, numa reportagem sobre os desdobramentos das investigações sobre o assassinato de Marielle.

Michel Temer não deu as caras.

Igualmente, não se mostra, em nenhum momento, as falas da oposição.

Em contrapartida, ao longo de toda semana, o Jornal Nacional deu blocos enormes, intermináveis, sobre votações no STF, exibindo trechos longos de votos dos ministros, os quais, imagino eu, o telespectador comum não deve entender patavinas, pelo teor técnico das falas.

Não sei até que ponto isso é planejado, mas essa escolha de pauta reflete onde reside o núcleo de poder do regime golpista: no judiciário e na mídia.

A Globo não tem sequer o cuidado de entrevistar juristas de diferentes tendências, para lhes perguntar o que acham das discussões constitucionais em andamento no STF.

Não, as opiniões dos ministros são dadas como expressão absoluta da sabedoria política e jurídica, como se estivéssemos diante de um Conselho de Sábios da Antiga Mesopotâmia.

O confronto necessário entre as opiniões social, popular, acadêmica, especializada ou leiga, sobre questões constitucionais, é substituído pela opinião isolada, atomizada, de cada ministro.

A Globo, igualmente, não disfarça de que lado está: suas posições se alinham aos ministros mais subservientes ao regime de exceção, à interpretação criativa e monocrática das leis, à ideologia punitivista, irmã siamesa do populismo penal, ou seja, aos ministros Luis Roberto Barroso, hoje líder intelectual e político desse movimento, Edson Fachin, lavajateiro de Curitiba, Alexandre de Morais, Luiz Fux, Rosa Weber, a maria-vai-com-as-outras, e Carmen Lucia.

O foco da Globo sobre o STF explica muita coisa: além de refletir a brutal concentração de poder político no judiciário, é também uma maneira da Globo manter os ministros no cabresto. Como se a Globo repetisse, no ouvido de cada um, todos os dias: estamos de olho no que vocês estão fazendo!

Esse controle midiático imposto ao STF tem uma função essencial nesse momento: não permitir que o STF liberte Lula.

Com esses seis (num total de 11 ministros), o golpismo formou uma maioria. Em certo sentido, é uma maioria consentida pelo conjunto do STF, como se fosse tudo um teatro. Caso um ministro do status quo mudar de lado, as pressões aumentarão para que um de seus colegas da “oposição” mude de lado, e ele muda, de forma que o golpe mantenha sempre uma maioria, sem, todavia, impedir que o plenário desempenhe um simulacro de direito à livre expansão de suas consciências.