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Diante da crise do regime político, o resgate histórico da fracassada frente ampla operada na época da ditadura militar tem sido utilizado para justificar a aliança com a direita
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Tancredo Neves. | Foto: Wikimedia Commons

Com o aprofundamento da crise capitalista em todo o planeta, vai crescendo também a crise do regime político brasileiro. Nessa condição, cresce também o número de falsificações históricas produzidas pelos ideólogos da burguesia e da pequena burguesia. Elas refletem, de maneira cada vez mais intensa, o desespero da classe dominante em controlar as massas por meio da política da frente ampla. Uma das falsificações mais utilizadas é a de apresentar a campanha das “Diretas Já!” como uma vitória.

Um dos elementos da esquerda nacional que expressou essa tese da “vitória” da campanha das “Diretas Já!” foi o coordenador nacional do MTST e ex-presidenciável, Guilherme Boulos (PSOL), por meio de seu programa no YouTube “Café com Boulos”:

“Talvez o melhor exemplo seja o movimento pelas “Diretas Já!” no Brasil. Começou a frente pela anistia e depois foi o palanque pelas “Diretas Já!” que ajudou a derrubar a ditadura militar no Brasil. Ali tava todo mundo, bicho. Ali tinha desde oligarca que rompeu com a ditadura até o Luís Carlos Prestes, liderança comunista, o Lula, na época sindicalista operário, o Brizola, Ulisses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso… Era um monte de diferença interna e ninguém deixou de afirmar.”

A fala de Guilherme Boulos deixa claro qual é o objetivo de ressuscitar o exemplo das “Diretas Já!”: defender uma frente que englobe todos os setores da política nacional, da esquerda autodenominada comunista até a extrema-direita. De fato, no mesmo vídeo, Boulos afirma que defende a formação de uma frente sem nenhum tipo de filtro:

“A luta pela liberdade e pela democracia não escolhe esse ou aquele aliado. Qualquer um, de qualquer partido, de qualquer lugar, que esteja disposto a lutar para que o Brasil não vire uma ditadura tem que fazer parte dessa trincheira contra o fascismo.”

No entanto, tanto a frente ampla defendida por Boulos – que hoje englobaria até quem apoiou o golpe de 2016 e quem apoiou a candidatura do fascista Jair Bolsonaro – quanto a campanha das “Diretas Já!” constituem verdadeiras aberrações e pavimentam o caminho para a derrota. Hoje, a frente ampla “contra o fascismo” traria para si desde o Partido dos Trabalhadores (PT), que sofreu um golpe e possui uma ampla base entre os trabalhadores, o PSDB, o MDB e o DEM, que foram os principais articuladores do golpe, e João Doria e Wilson Witzel, que são conhecidos por assassinar o povo de seus respectivos Estados. Não é preciso muita imaginação, nem sequer vasto conhecimento histórico, para se dar conta de que tal aliança levará a um desastre. Se a frente sair vitoriosa, a situação mudará muito pouco para os trabalhadores, pois entre Witzel, que atira na população de helicóptero, e Bolsonaro, que quer enquadrar toda a esquerda na lei antiterrorista, a diferença é imperceptível a olho nu. Se, o que é mais provável, os trabalhadores decidirem abandonar essa frente, visto que uma aliança com seus inimigos não é um elemento que favoreça a mobilização, a extrema-direita deverá impor-se de maneira ainda mais estrondosa.

O exemplo das “Diretas Já!”, que é citado como um argumento para tentar impor a política da frente ampla àqueles que não viveram os acontecimentos da década de 1980, comprova exatamente essa tendência. Não houve vitória alguma, mas sim a derrota e a desmoralização de um movimento que poderia ter dado origem a um governo popular. A traição das organizações da esquerda nacional, que se aliaram a elementos da burguesia que apoiavam a ditadura militar até o dia anterior, fez com que a possibilidade de haver novas eleições fosse implodida. No fim das contas, o poderoso movimento operário, que tinha condições de liquidar completamente o regime político, foi contido pelos acordos da esquerda com a burguesia, conservando tudo o que era mais essencial para a burguesia da ditadura militar. Tanto é assim que a atual Constituição prevê a possibilidade de intervenção das Forças Armadas, o que acabou por não trazer nenhum ganho real para os trabalhadores.

Ao fim e ao cabo, o único resultado concreto que poderia ser apontado do movimento das “Diretas Já!” seria a vitória de Tancredo Neves. Isso, por sua vez, não representa vitória alguma. Tancredo foi “eleito” com apoio da própria burguesia e era odiado pelo movimento operário. José Sarney, que acabou sucedendo-o, revelou-se um completo inimigo do povo, matando a população de fome em favor dos capitalistas e reprimindo brutalmente os trabalhadores, como no caso da CSN.

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