A esquerda que a direita gosta: Chico Alencar agradece os aplausos de bolsonaristas em sua despedida do Congresso

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O jornal O Globo recentemente publicou um texto em que elogia o deputado federal pelo PSOL, Chico Alencar. O texto é intitulado “A despedida do historiador”.

O simples fato do órgão das Organizações Globo, golpista e cria da ditadura militar, tenha escrito essa matéria, revela muito sobre Alencar e o próprio PSOL do Rio de Janeiro.

Em outros textos, tratamos do caráter direitista dos principais políticos do partido no Rio de Janeiro, onde fica sede do Grupo Globo.

Mas tratemos do artigo em si. Ao falar da tribuna realizada por Chico Alencar na sexta-feira no centro do Rio de Janeiro, o texto diz: “Ao descer da tribuna, produziu uma cena inusitada: petistas e bolsonaristas se uniram na mesma salva de palmas”. A declaração do jornal, que depois é fortalecida pelo próprio deputado, demonstra que Alencar é um político apoiado tanto pela esquerda quanto pela extrema-direita.

Porém, é preciso levantar a dúvida: por que bolsonaristas bateram palmas para o deputado do PSOL? O próprio Alencar responde: “Mediar é diferente de fazer média e de conciliar. Talvez venha daí o reconhecimento dos conservadores: sempre tento afirmar posições sem agredir. As ideias devem brigar, não as pessoas”.

A declaração, concretamente, é uma revelação do deputado psolista sobre seu posicionamento político. Para ele, o “reconhecimento dos conservadores” (isto é, a extrema direita) é algo positivo. Porém, a realidade é que isso se deve ao fato de que ele não enfrenta a extrema-direita.

Muito pelo contrário, como disse, ele procurar “mediar”. A demagogia do deputado, obviamente, procura criar uma diferenciação entre mediação e conciliação, mas na realidade ela não existe.

Os bolsonaristas aplaudem Chico Alencar justamente porque ele concilia com a extrema-direita e os golpistas, e é por isso também que ele recebe apoio da Rede Globo. Isso ficou muito claro, com seu posicionamento contrário ao indulto natalino aos presos em 2017, em que, fazendo frente única com o judiciário fascista e o imperialismo, passou por cima do direito democrático de milhares de cidadãos em nome do “combate à corrupção”.

A “luta de ideias” do deputado se limita a uma demagogia parlamentar de cunho eleitoral, como é o caso de todos os políticos do PSOL. Na hora da luta real, o partido trata de fazer uma gigantesca capitulação à direita golpista. Vale lembrar que o PSOL fez uma importante campanha a favor da Lava-Jato e do Sérgio Moro carioca, o juiz Marcelo Bretas.

Também, na época das manifestações que levaram ao golpe contra Dilma Rousseff, o deputado psolista escreveu um texto na página oficial do partido com título “nem 13, nem 15” (apagado da página do partido, mas que é refletido em outra matéria do blog do deputado), em que deixava claro que a esquerda não poderia apoiar nem as manifestações dos golpistas e nem as manifestações contra o golpe. Uma capitulação completa à política da direita.

Os posicionamentos “sem agressão” à política da direita é na verdade uma política de abaixar a cabeça e aceitar a política da direita. É por isso que, como não poderia deixar de ser, Alencar também capitulou diante da palavra de ordem contra a Polícia Militar, muito popular nas manifestações do Rio de Janeiro.

“Outro dia, eu estava numa passeata e a turma começou a cantar: ‘Eu quero o fim da Polícia Militar’. Aí um PM veio falar comigo: ‘Seu Chico, vocês querem que a gente fique desempregado?’. Às vezes o slogan reduz o alcance do que se propõe”

Ou seja, ao invés de usar a palavra de ordem para denunciar a Polícia Militar, um órgão genocida que massacra diariamente a população carioca, Alencar trata de dizer que “o slogan reduz o alcance do que se propõe” – em outras palavras, admitiu que não quer de fato o fim da PM.

A falta de luta da política do PSOL fica ainda mais clara quando Alencar declara que o parlamento é lugar de “civilizar o debate e dar racionalidade às contradições”. Quer dizer, não é um local para se levantar a política contra a direita e denunciar ferozmente os fascistas, mas um momento para se debater de maneira civilizada com aqueles que querem a destruição do movimento operário e dos partidos de esquerda.

Até porque, para o deputado, o clima de “revolta” levou a eleição de “governantes e parlamentares truculentos”, referindo-se aos políticos da extrema-direita. Talvez esse amor todo que Alencar propõe para a sociedade brasileira tenha sido o fato que o levou a beijar a mão do golpista Aécio Neves, no jantar de comemoração de 50 anos de carreira do jornalista d’O Globo, Ricardo Noblat. Fato esse que demonstra a ligação do deputado com a direita e o grupo Globo.

Porém, a declaração de Chico abriu portas para outras concepções direitistas. Primeiro, a de que a eleição da extrema-direita teria sido produto da “revolta” popular (da qual ele seria contra) e não da fraude eleitoral, que retirou Lula, para levar adiante o golpe de estado.

Chico Alencar esquece que, em meio a toda essa “revolta”, Lula era o principal candidato da população, e não a extrema-direita fascista. Mas como bom político adestrado pela direita, ele não denuncia a fraude e coloca a culpa da vitória fraudulenta da extrema-direita na “corrupção da esquerda”.

Segundo ele,

A esquerda ganhou pecha de corrupta, ficou identificada com a podridão do sistema. É uma tragédia, mas caímos na vala comum”, e “a esquerda perdeu a disputa de ideias na sociedade”.

Esquece totalmente que a popularidade do PT, do Lula e da esquerda aumentou com o repúdio da população à política dos golpistas e defende a “autocrítica”, proposta pela direita. “Não dá para esconder a enorme derrota histórica que nós sofremos. A extrema direita conseguiu canalizar a indignação da sociedade.”

Uma aberração…

As concepções de Chico Alencar só servem para levar adiante a política de capitulação diante da direita que, com base em campanha inquisitória, taxou a esquerda de corrupta para levar adiante uma perseguição política. 

Vale ressaltar que Alencar saiu do PT no início dos anos Lula por conta das “denúncias” da direita contra o partido, que inventou a fraude do Mensalão, um processo totalmente arbitrário. A Rede Globo diz: “Viveu a euforia com a posse de Lula e a decepção com o mensalão.”

Fica claro então porque o partido da pequena-burguesia esquerdista é vista com tão bons olhos pela direita, a Globo e os bolsonaristas. Porque ele não apresenta nenhuma ameaça e inclusive ajuda os direitistas a levaram adiante algumas de suas pautas, facilitando a confusão política no meio da esquerda.

Durante todo o artigo,  o jornalista do Globo elogia Chico Alencar, apresenta ele como um homem simples, do povo e um democrata.

“De camiseta e sandálias de couro, comentou o noticiário político e distribuiu um folheto sobre o trabalho em Brasília. Foi a última vez que ele cumpriu o ritual de todas as sextas-feiras, dia em que presta contas do mandato em praça pública.”

Aos 69 anos, Chico planeja fazer doutorado e voltar a dar aulas na UFRJ. “Preciso trabalhar para sobreviver. Deputado não é profissão”, afirma o historiador, que não aderiu ao generoso plano de previdência parlamentar. Ele diz que não quer mais se candidatar a cargos públicos. “Tinha seis ternos, já doei três. Espero não ter que usar os outros, prefiro andar de bermuda”, brinca. “Mas não pretendo me aposentar para jogar sueca na praça!”.

E assim, a Globo chorou os 16 anos de mandato de um deputado “esquerdista” do PSOL, que favoreceu durante todos esses anos a política de ataques do imperialismo e da extrema-direita.