Adaptação
A demagogia com a polícia, ainda mais em um momento de aprofundamento do golpe de Estado, é uma capitulação profunda
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Batalhão da polícia em ação | Foto: Reprodução

No último período, setores da esquerda nacional têm se destacado por lançar candidatos diretamente ligados ao aparato de repressão — delegados, policiais civis, policiais militares, majores e até coronéis. Essa política, muito diferente do que tais setores apresentam, não demonstra um avanço da esquerda em conquistar as “mentes” de seus inimigos políticos, mas sim uma adaptação vergonhosa e um atalho para o precipício.

De acordo com o novo relatório da Rede de Observatório da Segurança, divulgado na última semana, 20% de todos os assassinatos que aconteceram no estado de São Paulo em 2019 foram causados pela Polícia Militar. Ou, dito de outra maneira, a organização mais assassina do principal estado brasileiro não é o PCC ou qualquer outro setor do “crime organizado”, mas sim a própria polícia. Conforme apontado pelo mesmo relatório, em um único estado, como é o caso do Rio de Janeiro, mais de 1.800 vidas foram tiradas pela ação violenta da polícia. Isso sem contar as tantas outras mortes causadas pela polícia que não são registradas…

Os números não deixam espaço para dúvida: a polícia militar é uma organização que existe para assassinar o povo. E, como sempre ficou claro, desde a ditadura militar, trata-se de uma organização vinculada até a medula ao Estado burguês: é o braço armado do Estado. Se o Estado é controlado pelos maiores inimigos do povo, desde o Judiciário, com figuras como Alexandre de Moraes e Sérgio Moro, ao parlamento, representado por Rodrigo Maia e Tasso Jereissati, passando pela própria presidência da República, controlada pelo fascista Jair Bolsonaro, a polícia é a instituição responsável por impor, por meio da violência, a política desses golpistas.

O relatório da Rede de Observatório da Segurança também apresentou outro dado importante na análise da atividade assassina da PM: a esmagadora maioria de suas vítimas é o povo negro. E “esmagadora”, aqui, não é demagogia: a disparidade entre a proporção de negros na sociedade e a proporção de negros mortos pela PM é gritante, de modo que o negro, em vários estados, tem três vezes mais chance de levar um tiro de fuzil do que um branco. O gráfico abaixo, que destaca a situação na Bahia, em Pernambuco, no Ceará, no Rio de Janeiro é bastante revelador:

Se há uma organização, na prática, que representa de maneira mais explícita, sem qualquer disfarce, o que é o fascismo, é a Polícia Militar. Se Fernando Henrique Cardoso, que é um genocida e matou milhares de crianças, pode esconder sua podridão através da figura de um “sociólogo”, ou se João Doria põe embaixo de seu terno toda a sua política fascista, a Polícia Militar é a violência do Estado em sua forma mais pura. Não deveria, portanto, ser objeto de qualquer confusão por parte da esquerda.

Dizemos que a colaboração com a polícia é uma adaptação porque, finalmente, é uma política que corresponde ao deslocamento, de conjunto, de todo o regime para a extrema-direita. Nos últimos 8 anos, o imperialismo tem organizado uma complexa operação em todo o continente para transformar os governos em regimes cada vez mais fechados. Pouco a pouco, os poucos direitos democráticos estão sendo rasgados para dar lugar a um Estado que possa perseguir livremente aqueles que considera subversivos. Ao mesmo tempo, o aparato de repressão vem aumentando cada vez mais, além de receber cada vez mais armamento e condições para reprimir brutalmente o povo.

Essa tendência direitista está diretamente relacionada à necessidade da burguesia de conter a revolta da classe operária diante de sua política neoliberal. A posição da esquerda, nesse sentido, deveria ser a de enfrentar o aparato de repressão e mobilizar os trabalhadores para passarem por cima dessa tendência de fechamento do regime. Afinal, foi assim que a ditadura militar foi derrubada: as proibições às greves e às manifestações só foram derrubadas quando o regime não conseguiu mais conter o movimento operário.

Lançar candidatos da polícia — ainda mais candidatos que sequer criticam a polícia, colocando-se na posição de representantes da polícia na esquerda, e não da esquerda na polícia — é, neste sentido uma capitulação. A esquerda que toma essa posição está permitindo uma infiltração em suas fileiras. Na incapacidade de enfrentar seus inimigos, abre as portas e faz demagogia para que eles tomem conta de suas organizações. Trata-se, contudo, de uma ilusão.

A adaptação não permitirá uma colaboração entre a esquerda e a polícia. Levará, enfim, a esquerda ao precipício: na medida em que a polícia não for combatida, e receber, ainda, carta branca para atuar nas organizações de esquerda, irá levar adiante o seu massacre contra os trabalhadores e o povo negro.

E mais: a política de apoiar a PM é também uma política altamente impopular. Como os próprios número mostram, a polícia é inimiga do povo — e, portanto, é odiada pelo povo. Na medida em que a esquerda escolhe seus representantes nos batalhões da polícia, estará, inevitavelmente, se afastando do povo. E sem o apoio dos trabalhadores, a esquerda não tem poder algum, nem mesmo do ponto de vista eleitoral. A burguesia, afinal, tem os seus próprios partidos de confiança. Mais valerá, portanto, eleger policiais abertamente de extrema-direita, que tenham uma maior tendência a honrar suas promessas de esmagar os ossos da população, do que o coronel metido a esquerdista. A demagogia da esquerda com a polícia é, portanto, um desastre.

Por falar em demagogia, os dados recentes também ajudam a enterrar de vez o argumento da “representatividade”, tão alardeado pela esquerda pequeno-burguesa que se diz identitária. Essa esmagadora maioria de negros mortos pela polícia foram mortos, igualmente, por uma maioria negra. No Rio de Janeiro, onde a PM matou mais de 1,5 mil negros apenas em 2019, 60% dos agentes são negros. A polícia é, portanto, uma máquina de caçar e exterminar o povo negro, independente da cor daquele que carrega o fuzil.

Neste sentido, as candidaturas de Íbis Pereira, negro, ex-coronel da PM e candidato a vice-prefeito do PSOL no Rio de Janeiro, e de Denice Santiago, negra, major da PM e candidata a prefeita em Salvador, são um imenso desserviço à luta do negro e à luta contra o golpe em geral. São, eles próprios, a maior prova da farsa da “representatividade”: são engrenagens da mesma máquina mortífera revelada pela Rede de Observatório da Segurança.

O problema da polícia não está na “consciência” de seus policiais, mas sim na própria polícia. Ou melhor: em quem a comanda, que é a burguesia golpista. Assim sendo, a esquerda não pode ter outra política que não seja a luta pelo fim de todo o aparato de repressão do Estado. É preciso dissolver a PM e estabelecer policiais municipais sob rígido controle da população.

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