A esquerda “democrática” que apoia a censura a Gentili atacou Chávez por diminuir o monopólio de um canal de TV

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Nas últimas semanas, esteve em alta o debate sobre a censura sofrida pelo humorista de extrema-direita e apresentador do SBT, Danilo Gentili. O direitista foi condenado a seis meses de prisão depois que o Judiciário entendeu que ele teria “ofendido a honra” da deputada petista Maria do Rosário. Logo depois disso o mesmo Gentili foi condenado a pagar 20 mil reais ao deputado do PSOL, Marcelo Freixo, por ter insinuado que Freixo apoiava os Black Bloc e um bate boca nas redes sociais.

Diante dos casos, a esquerda pequeno-burguesa novamente tomou a posição errada. Defendeu a punição a Gentili, se colocando assim ao lado do poder Judiciário fascista que o condenou. Aplaudiu a sentença contra o humorista sem graça do SBT, com os mesmos argumentos do Judiciário fascista. Gentili realmente teria ferido a honra, ou seja, a liberdade de expressão nesse caso deveria ser limitada. Em suma, a posição de grande parte da esquerda pequeno burguesa é a de que a liberdade de expressão só é válida quando se trata de defender os seus aliados. Quando é um inimigo político, está liberado defender a cassação do seu direito de falar.

Sem entrar nos detalhes do argumento sobre os fundamentos do direito à liberdade de expressão é preciso dizer duas coisas. A primeira é que só é concebível a existência deste direito na medida em que existem opiniões diferentes na sociedade, caso contrário não precisaríamos dele. Basicamente, a liberdade de expressão é o direito do seu inimigo falar o que quer e do outro igualmente poder responder o que quiser. Em segundo lugar, é preciso dizer que quem condenou Gentili e quem, em última instância, irá decidir esse limite à liberdade de expressão, ou seja, até que ponto se “ofende a honra” de alguém ou não é o Judiciário, o Poder mais reacionário que há no regime político. Judiciário dos Moro, Bretas, Mendes, Moraes, Fux e tantos outros golpistas e fascistas.

Essa mentalidade da esquerda pequeno-burguesa é mais uma adaptação da política da direita. Uma adaptação à política que o imperialismo vem levando no mundo todo. Em nome de uma moralidade, que vem na maioria das vezes travestida da política “identitária” da pseudo defesa do negro, da mulher, do LGBT etc, impõe um verdadeiro regime de censura e perseguição política.

Mas não é apenas aí que mora a incoerência da política da esquerda pequeno-burguesa. Aqueles que pedem a cabeça de Gentili com tanto ímpeto não se lembram que o humorista trabalha no SBT, uma da empresas que fazem parte do monopólio da comunicação no Brasil. A família de Sílvio Santos, que junto com outras meia-dúzia de milionários tem o monopólio de um canal de TV não foi atacada pela esquerda pequeno-burguesa.

Se Gentili pode fazer suas piadas direitistas para um enorme público é porque ele tem a cobertura desse monopólio. Este sim um atentado ao povo brasileiro e mais ainda, um atentado à liberdade de expressão. Esses monopólios da comunicação como a Rede Globo, o SBT, Record e Bandeirantes são verdadeiramente os piores inimigos dos trabalhadores. Mas incrivelmente a esquerda pequeno-burguesa parece não estar muito disposta a, por exemplo, lutar pelo fim da concessão ditatorial dessas canais.

Pelo contrário, a experiência mostrou que a mesma esquerda pequeno-burguesa que defende calar um indivíduo acha uma “ditadura” quando um governo decide encerrar a concessão de uma TV como a rede Globo. Esse fato aconteceu na Venezuela de Hugo Chavez. O então presidente, que acabara de derrotar uma tentativa de golpe de Estado, decidiu corretamente não renovar a concessão da RCTV, uma espécie de Globo venezuelana que havia sido a propagandista do golpe. O fim da concessão aconteceu em 2007 e na época, seguindo os ataques do imperialismo, boa parte da esquerda brasileira chamou Chavez de ditador. Esse episódio, inclusive, é um marco da campanha imperialista de calúnias contra a Venezuela.

A posição da esquerda pequeno-burguesa no caso venezuelano revela não só mais um caso de adaptação ao imperialismo, como também explica porque no Brasil essa mesma esquerda não quer lutar pelo fim do monopólio da comunicação. Quem decide a política da esquerda pequeno-burguesa é o imperialismo. Portanto, quando se trata de colocar abaixo uma máquina ditatorial de propaganda criminosa contra os direitos do povo que são esses monopólios, boca de siri. Mas quando se trata de dar mais poder ao Judiciário golpista e fascista e à polícia para calar um único indivíduo, histeria total.

Uma política como essa só pode resultar num ataque contra o povo. O monopólio da comunicação continua produzindo mentiras para enganar a população e o Judiciário, cada vez mais poderoso, continua produzindo crimes para colocar as organizações populares e de esquerda na ilegalidade ou até na cadeia, como é o caso de Lula.