A eleição de 1989 mostra que focar só nisso vai levar a esquerda ao “matadouro”

Ouça um trecho da análise política da semana, na Rádio Causa Operária. Nesse trecho, o companheiro Rui Costa comentou o tema “A eleição de 1989 mostra que focar só nisso vai levar a esquerda ao “matadouro”:

“Isso aí é muito grave. Eu vou citar um caso aqui, que eu acho muito importante, que é um antecedente da atual situação. Em 1989, depois do governo Sarney, governo Sarney foi um governo que terminou numa crise extraordinariamente grande, com hiperinflação e tudo, caindo pelas tabelas, com um número enorme de greves, etc e tal, a tal ponto que os partidos que serviram de base para o governo Sarney não tinham condição nem de lançar um candidato sério para a eleição, apesar de estar no governo. Uma situação parecida com a do Michel Temer, né, tá com 6% de aprovação. O Sarney tava numa situação parecida com essa.

Bom, aí foram convocadas as eleições para substituir o governo Sarney. Primeira vez que no Brasil, depois da ditadura, havia eleições diretas, lançaram uma montanha de candidatos e o principal candidato era já naquele momento o próprio Lula. Lula era apoiado pela CUT, uma parte expressiva do movimento sindical. A CUT tinha sido criada em 1983 já naquele momento já era uma organização bastante grande; era apoiado pelo MST; era apoiado por todas as forças populares reais que havia, né. Aí o que que acontece? a direção do PT naquele momento lançou uma espécie de diretriz que era seguinte: nós temos que concentrar tudo nas eleições, né. Não temos nem que fazer greve, porque havia muita greve naquele momento, porque as greves atrapalham a eleição; o importante é ganhar a eleição.

Bom, aí a eleição foi muito disputada, né, com uma ampla participação, só que porém o Lula perdeu a eleição. No que ele perdeu a eleição, entrou o governo Collor. O governo Collor, aproveitando aquele baque porque quem não viveu o período tem dificuldade de entender. Esse Collor é como se alguém tivesse pego uma fotografia em algum lugar e lançado como candidato. Ele não era nada, né. É como se o cidadão fosse lá no lugar pegasse fotografia do Leonardo DiCaprio e lançasse como candidato. Não era nada, nada, nada nada de nada. Ele era o candidato da atual imprensa golpista, o PIG, e dos empresários que colocaram muito dinheiro na campanha dele, mas ele não tinha apoio popular em absolutamente lugar nenhum. Então, eu imagino que muita gente achasse o seguinte: não tem como Lula perder para o homem da fotografia. Era uma coisa impensável mas aí perdeu, porque a burguesia tem muitos recursos. Não é tão simples como todo mundo pensa depois que o PT ganhou as eleições. Perdeu, e no que perdeu, o movimento operário; movimento popular ficou todo desnorteado. O Collor assumiu e lançou um plano de choque. Ele confiscou todo o dinheiro da caderneta de poupança do pessoal e todas as contas bancárias e a população ficou estarrecida, olhando assim: que será que está acontecendo nesse país?

Eu me lembro que logo depois eu encontrei um cidadão, né. Um comerciante que ficava perto da sede do PCO na época e aí eu falei para ele: o que que você achou? então ele falou: “é, esse plano ele tem que dar certo”, eu falei: “mas como assim? você acha que vai dar certo? e que você acha que vai dar certo? parece um plano meio sem pé nem cabeça. Não acho que vai dar certo.” Ele falou: “tem que dar certo porque se não der certo tamo todo mundo perdido.”Esse era o nível de percepção; a maneira como o pessoal via o plano. Era uma loucura. Milhões de desempregados da noite pro dia. Era uma coisa de louco.

Vocês vejam bem o cenário. Não é um cenário muito parecido com o de hoje? você joga todas as fichas nas eleições. É como se você fosse como um boi para o matadouro. A hora que você chegar lá, o matadouro tá escrito: eleições, A hora que você entrar e perceber que você perdeu, o governo lança um plano econômico que é uma política antiga da burguesia, desse plano que deixa a pessoa sem conseguir respirar, como já fizeram em vários lugares, eles aperfeiçoaram muitos esquemas desse plano, e pronto. Aí vem aquela loucura total. Eles acabam de limpar até o guarda-roupa do cidadão que mora na favela, você entendeu?

Vai ser uma calamidade; uma catástrofe Econômica Total. isso sem falar no que eles podem fazer politicamente. E esse cenário é um dos cenários mais bonitos que a gente pode pintar, porque tem outros. Tem o cenário do golpe militar. Tem muitos cenários muito negativos, né. Então nós temos que chamar atenção para isso.”

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